Ele não os criou, não os apoiou e não esteve presente durante a infância. Agora que são adultos, os filhos deveriam se tornar o apoio dele?

Quando António saiu de casa, Sofia tinha dez anos e Rui apenas sete.

Viviam num apartamento modesto nos arredores do Porto.

Naquela manhã, o pai colocou uma mala no corredor.

A mãe, Teresa, chorava em silêncio.

— Pai, vais viajar? — perguntou Rui.

António hesitou.

— Vou ficar fora algum tempo.

Esse “algum tempo” durou quarenta e dois anos.

António não voltou para buscar os filhos no Natal.

Não telefonou nos aniversários.

Não apareceu quando Sofia terminou a escola nem quando Rui foi internado depois de um acidente de mota.

Teresa criou os dois sozinha.

Trabalhava numa lavandaria durante o dia e fazia bainhas e arranjos de roupa para as vizinhas à noite.

Sofia lembrava-se de acordar de madrugada e ver a mãe adormecida à mesa, ainda com uma agulha na mão.

— Um dia o vosso pai vai arrepender-se — dizia uma vizinha.

Sofia deixou de acreditar nisso.

Casou-se.

Teve dois filhos.

Depois netos.

Rui construiu também a sua própria vida.

O pai tornou-se apenas uma fotografia antiga escondida numa gaveta.

Até que, numa tarde chuvosa de novembro, o telefone tocou.

— Falo com a senhora Sofia Almeida?

Era uma assistente social.

António tinha oitenta e três anos.

Vivia sozinho perto de Braga.

Depois de uma queda, já não conseguia cuidar de si.

— Ele deu o seu contacto como filha.

Sofia quase riu.

— Filha?

Foi visitá-lo dois dias depois.

Quando entrou no quarto, encontrou um homem pequeno e frágil sentado junto à janela.

António olhou para ela.

— Sofinha…

Ela ficou imóvel.

— A minha mãe chamava-me assim.

Ele começou a chorar.

— Eu pensei muitas vezes em vocês.

— Pensar não cria filhos.

O velho baixou a cabeça.

— Eu sei.

— Não, pai. Não sabes. A mãe vendia coisas de casa para comprar os nossos livros. O Rui perguntava todas as noites quando voltavas.

António limpou as lágrimas.

— Fui cobarde.

— Foste.

Foi a primeira vez em mais de quarenta anos que Sofia lhe disse a verdade na cara.

Dias depois, disseram-lhe que António precisava de alguém que o acompanhasse diariamente.

Rui recusou.

— Ele deixou a mãe envelhecer sozinha. Agora espera que nós sacrifiquemos a nossa velhice por ele?

Sofia tinha sessenta e dois anos.

Também estava cansada.

Também tinha dores.

Também queria aproveitar os netos e os anos que ainda lhe restavam.

Visitou António novamente.

Levou-lhe sopa caseira.

Sentou-se ao lado dele.

— Vais levar-me contigo? — perguntou o pai.

Sofia demorou a responder.

Depois segurou-lhe a mão.

— Não vou abandonar-te numa cama sem ninguém saber que existes. Mas também não posso fingir que foste o pai que nunca foste.

António fechou os olhos.

Talvez aquelas palavras fossem a única sentença justa.

Sofia ajudou a encontrar uma solução digna para ele.

Continuou a visitá-lo.

Mas não destruiu a própria vida para pagar uma dívida que nunca tinha contraído.

Porque talvez os filhos possam oferecer humanidade.

Mas ninguém deveria exigir deles que esqueçam uma infância inteira de abandono.

E você? Cuidaria de um pai que desapareceu quando você era criança e só voltou quando ficou velho e precisou de ajuda?

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MagistrUm
Ele não os criou, não os apoiou e não esteve presente durante a infância. Agora que são adultos, os filhos deveriam se tornar o apoio dele?