A pergunta foi feita por um rapaz que Leonor nunca tinha visto.
Ele estava sentado no muro junto ao farol da Nazaré, com uma mochila aos pés e os olhos vermelhos de quem tinha chorado durante muito tempo.
Leonor passava ali todas as manhãs desde que o marido, Manuel, desaparecera no mar, doze anos antes. Levava um casaco de lã, mesmo no verão, e sentava-se no mesmo banco de madeira a observar as ondas.
— Desculpe? — perguntou ela.
— Qual estação escolheria para viver para sempre? — repetiu o rapaz. — A minha professora pediu-nos para entrevistar alguém mais velho.
Leonor sorriu sem vontade.
— Mais velho?
— Experiente, — corrigiu ele, atrapalhado.
Chamava-se Tiago, tinha dezasseis anos e vivia com a avó. A mãe trabalhava em França e o pai desaparecera quando ele era pequeno.
— Escolheria o verão, — disse Leonor. — Foi no verão que conheci o meu marido.
Manuel era pescador. Tinha mãos grandes, voz baixa e o hábito de assobiar enquanto remendava as redes. Casaram-se numa igreja pequena, numa manhã de agosto. Tiveram um filho, Rui, que cresceu a ouvir o mar bater contra as janelas.
Mas Rui odiava a vida na Nazaré. Aos vinte anos, mudou-se para Lisboa. Depois de o pai desaparecer durante uma tempestade, passou a culpar a mãe.
— Tu sabias que o tempo estava mau — gritou-lhe no funeral. — Devias tê-lo impedido de sair!
Leonor também se culpava. Naquela manhã, pedira ao marido que não fosse. Manuel beijara-lhe a testa e respondera:
— É só mais uma saída.
Nunca regressou.
Nos anos seguintes, Rui telefonava apenas no Natal e no aniversário da mãe. As conversas duravam poucos minutos. Leonor sabia que tinha dois netos, mas conhecia-os sobretudo por fotografias.
Tiago passou a encontrá-la junto ao farol quase todos os dias. Trazia perguntas para um trabalho da escola, mas rapidamente começou a contar-lhe a própria vida.
— A minha avó está doente — confessou numa manhã. — Diz que vai ficar bem, mas ouvi o médico falar com a minha mãe.
Leonor percebeu que o rapaz precisava de alguém que não mentisse.
— Ter medo não faz de ti fraco — disse-lhe. — Só mostra que amas alguém.
Quando a avó de Tiago foi internada, Leonor visitou-a. Levou sopa, lavou roupa e ajudou o rapaz a organizar a casa. Durante algumas semanas, sentiu novamente que alguém precisava dela.
Foi Tiago quem, sem lhe pedir autorização, encontrou Rui nas redes sociais.
— A sua mãe está sozinha — escreveu-lhe. — Mas continua a defender o senhor sempre que alguém diz que a abandonou.
Rui apareceu três semanas depois.
Leonor estava no banco junto ao farol quando viu um homem alto aproximar-se com duas crianças. Reconheceu primeiro a maneira de andar. Era igual à de Manuel.
— Mãe — disse Rui.
Ela não se levantou. Teve medo de que fosse apenas mais uma memória.
— Trouxe a Matilde e o João — continuou ele. — Querem conhecer a avó.
A menina aproximou-se e colocou-lhe na mão uma concha.
— O pai disse que o avô gostava do mar.
Leonor apertou a concha entre os dedos.
— Gostava demasiado.
Rui sentou-se ao lado dela.
— Passei doze anos a culpar-te porque era mais fácil do que admitir que estava zangado com ele. E comigo próprio, por não ter vindo naquele fim de semana.
Leonor olhou para o filho. Tinha cabelos grisalhos nas têmporas. De repente, percebeu quantos anos ambos tinham perdido.
— Eu também me culpei — confessou. — Todos os dias.
Rui segurou-lhe a mão.
— Então talvez esteja na altura de pararmos.
Na manhã seguinte, regressaram todos ao farol. Tiago apareceu com o caderno e repetiu a pergunta:
— Se pudesse escolher uma estação para o resto da vida, qual escolheria?
Leonor olhou para o filho, para os netos e para o mar iluminado pelo sol de março.
— A primavera.
— Mas disse que era o verão.
— No verão comecei a minha vida com o Manuel. Mas foi na primavera que percebi que a minha vida ainda não tinha acabado.



