Rui passou quase dois anos a pedir aos miúdos que não lhe chamassem avô. Depois, numa festa da escola em Coimbra, ouviu uma professora apresentar outra pessoa como “o único avô presente” — e percebeu que aquela palavra já lhe fazia falta.

Quando conheci o Rui, eu tinha cinquenta e dois anos.

Ele tinha quarenta e cinco e conduzia autocarros interurbanos entre Coimbra e pequenas localidades da região.

Era um homem de hábitos simples.

Café sem açúcar.

Jornal ao domingo.

Ferramentas arrumadas por tamanho.

Eu, pelo contrário, trouxe caos para a vida dele.

Uma filha de trinta anos, Teresa.

Dois netos, Leonor e Tomás.

Uma caixa de brinquedos que apareceu na sala e nunca mais saiu.

E fins de semana em que a nossa casa parecia uma estação ferroviária.

Rui dizia que gostava.

Mas havia uma coisa que o incomodava.

—Não me chamem avô.

—Porquê? perguntava Leonor.

—Porque ainda não tenho idade.

—Quantos anos é preciso?

Ele nunca conseguiu responder.

Então as crianças chamavam-lhe Rui.

Depois “Rui-Rui”.

Mais tarde, sem autorização de ninguém, passou a ser “Avô Rui”.

Ele protestava.

Ninguém ligava.

Com o tempo, começou a fazer coisas que só pioravam a situação.

Aprendeu a fazer tranças porque Leonor se recusava a sair de casa despenteada.

Guardava bolachas no porta-luvas.

Sabia os horários dos treinos de Tomás melhor do que a própria mãe.

E criou uma tradição: no primeiro sábado de cada mês, os três iam ao mercado comprar ingredientes para o almoço.

—É uma missão — dizia Rui.

As crianças levavam aquilo muito a sério.

Tudo mudou quando a escola de Leonor organizou uma tarde dedicada aos avós.

O avô paterno tinha prometido ir.

Na véspera, cancelou por causa de uma viagem.

Teresa telefonou-me aflita.

Eu estava com febre.

Rui ouviu a conversa.

—Eu levo-a.

Depois hesitou.

—Quer dizer… se ela quiser.

Leonor quis.

Na escola, cada criança tinha preparado uma pequena apresentação.

Quando chegou a vez dela, a professora olhou para Rui e perguntou discretamente:

—É o avô?

Antes que ele pudesse responder, Leonor disse:

—É o Rui.

Ele sorriu, aliviado.

Mas a menina continuou:

—É o marido da minha avó. Portanto, tecnicamente, não é meu avô.

Rui baixou os olhos.

—Mas é ele que faz o trabalho.

A sala riu.

A professora também.

—Que trabalho?

Leonor pegou numa folha e começou a ler:

—Arranjar bicicletas. Esperar à porta quando o treino acaba tarde. Dizer que não faz mal quando partimos um copo. Fazer torradas quando estamos tristes. E nunca contar à mãe quando comemos gelado antes do jantar.

Rui levantou uma sobrancelha.

—Essa última parte não era para dizer.

A sala voltou a rir.

No caminho de casa, ficou calado.

Leonor perguntou:

—Estás zangado?

—Não.

—Então?

Ele demorou a responder.

—Estava a pensar se ainda posso reclamar quando me chamas avô.

—Não.

—Pois. Também achei.

A partir desse dia deixou de corrigir ninguém.

Mas a verdadeira mudança veio meses depois.

Teresa recebeu uma proposta de trabalho no Porto.

A primeira reação de Rui surpreendeu-me.

—Vai.

—Mas e os miúdos? perguntei.

—Há comboios.

—Vais sentir falta deles.

—Claro.

Olhou para mim como se a resposta fosse evidente.

—Mas família não é prender ninguém perto de nós.

Teresa mudou-se.

E Rui cumpriu.

Duas vezes por mês, apanhava o comboio cedo.

Levava um saco com comida, ferramentas que ninguém tinha pedido e sempre qualquer coisa inútil comprada numa promoção.

Quando Leonor fez doze anos, ofereceu-lhe uma pequena chave de metal numa corrente.

—O que é?

—A chave de nossa casa.

—Mas eu já entro lá.

—Agora tens a tua.

Ela ficou séria.

—Mesmo quando eu for grande?

—Especialmente quando fores grande.

Hoje, a nossa casa é mais silenciosa.

Mas há uma chave igual pendurada no pescoço de Tomás.

Outra está guardada para o filho mais novo de Teresa.

Na entrada, Rui colocou uma placa pequena de madeira.

Não diz “Casa dos Avós”.

Diz apenas:

“Há sempre lugar.”

Foi ele que a fez.

E acho que essas três palavras contam melhor a nossa família do que qualquer árvore genealógica.

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MagistrUm
Rui passou quase dois anos a pedir aos miúdos que não lhe chamassem avô. Depois, numa festa da escola em Coimbra, ouviu uma professora apresentar outra pessoa como “o único avô presente” — e percebeu que aquela palavra já lhe fazia falta.