E talvez aquela tenha
—Marta olhou para a mesa vazia da varanda.
—Você está falando sério?
Lúcia estava.sido a primeira decisão realmente confortável que tomou em muitos anos.
Aos 66, depois de trabalhar como gerente de uma pequena papelaria em Campinas, ela resolveu mudar de vida.
Vendeu o apartamento onde criara a filha e comprou uma casa simples perto de Atibaia.
Tinha um quintal com jabuticabeira, uma varanda de piso vermelho e uma edícula antiga que ela transformou em ateliê de pintura.
Era seu pequeno sonho.
Só que, para parte da família, a casa nova logo virou “o sítio da Lúcia”.
Mesmo sem ser sítio.
Tudo começou quando Marta apareceu num domingo com o marido Roberto e os dois filhos adultos.
Lúcia fez macarronada, frango assado, farofa e pudim.
No domingo seguinte, vieram novamente.
Desta vez com uma namorada.
Depois com um casal de amigos.
Então começaram as mensagens.
“Domingo vamos passar o dia aí.”
“Compra carvão.”
“Faz aquele pudim.”
“Roberto quer costela.”
Lúcia lia e obedecia.
Era um hábito antigo.
Desde menina, ela fora ensinada que receber bem era uma obrigação.
Quando se divorciou, anos antes, foi ela quem organizou aniversários, Natais e almoços de família.
Ninguém perguntava se dava trabalho.
Porque Lúcia nunca reclamava.
Até que um sábado mudou tudo.
Roberto decidiu usar a edícula onde ela pintava para guardar bicicletas e caixas trazidas no carro.
—É só por hoje — disse.
Quando Lúcia entrou, encontrou uma bicicleta apoiada sobre uma tela que ainda estava secando.
A pintura mostrava a antiga casa de sua mãe.
A roda deixara uma marca escura bem no meio.
—Roberto…
Ele olhou.
—Nossa. Foi sem querer.
Marta veio atrás.
—Depois você pinta de novo.
Lúcia ficou olhando para a tela.
—Eu levei três semanas fazendo isso.
—Ah, Lu, não transforma tudo num drama.
Aquela frase doeu mais que o estrago.
Naquela noite, depois que todos foram embora, Lúcia não lavou a louça.
Pela primeira vez, deixou tudo como estava e foi dormir.
Na manhã seguinte, a filha Camila apareceu.
—Mãe, o que aconteceu aqui?
Lúcia mostrou a tela.
Camila ficou furiosa.
—Você falou alguma coisa?
—Para quê? Eles não fazem por mal.
Camila olhou para ela.
—Mãe, tem gente que não precisa fazer por mal. Basta saber que você sempre vai permitir.
Na semana seguinte chegou uma mensagem de Marta.
“Domingo vamos em doze. O Roberto quer comemorar a promoção. Faz aquela costela e bastante arroz.”
Lúcia respondeu:
“Venham.”
Domingo, pouco antes do meio-dia, os carros chegaram.
Marta entrou carregando apenas a bolsa.
—Nossa, estou morrendo de fome.
Lúcia estava na varanda lendo.
—Tem café.
—E o almoço?
—Não fiz.
Marta riu.
—Para com isso.
—Não fiz mesmo.
—Mas somos doze!
—Eu sei.
Roberto entrou.
—Cadê a churrasqueira?
—No mesmo lugar.
—E a carne?
—Vocês trouxeram?
Ele franziu a testa.
—Você sabia que a gente vinha comemorar.
—Sabia.
—Então?
Lúcia fechou o livro.
—Então achei que quem está comemorando podia organizar a própria comemoração.
Marta ficou vermelha.
—Que grosseria é essa?
—Não é grosseria.
Lúcia apontou para a edícula.
A tela danificada estava encostada na parede.
—Grosseria é entrar no espaço de outra pessoa, estragar algo importante e dizer “depois você faz de novo”.
Marta abriu a boca, mas Lúcia continuou:
—Vocês transformaram minha casa em clube. Chegam com fome e vão embora cansados de descansar.
O filho mais velho de Marta soltou uma risada abafada.
A mãe lançou um olhar duro.
—Você acha engraçado?
—Um pouco. Porque é verdade.
Roberto cruzou os braços.
—Então é para a gente ir embora?
Lúcia respondeu:
—Não. É para vocês decidirem se vieram me visitar ou se vieram usar minha casa.
Foi um silêncio desconfortável.
Depois alguém pegou o celular.
—Tem mercado aberto aqui perto?
Uma hora depois havia carne na churrasqueira, salada sendo preparada e gente lavando copos.
Roberto saiu de carro e voltou com uma tela nova.
Colocou-a diante de Lúcia.
—Eu sei que não substitui a outra.
Ela passou a mão pela moldura.
—Não substitui.
Ele assentiu.
—Mas eu queria começar por algum lugar.
Nas semanas seguintes, Marta não ligou.
Lúcia sentiu falta dela, mas não voltou atrás.
Até que numa sexta-feira chegou uma mensagem.
“Posso ir amanhã? Só eu. Levo pão de queijo.”
Lúcia respondeu:
“Pode.”
Marta apareceu com duas sacolas.
Além do pão de queijo, trazia tinta, pincéis e a tela estragada cuidadosamente embrulhada.
—Você acha que dá para salvar?
Lúcia olhou para a irmã.
Depois puxou uma cadeira.
—Talvez.
—Eu ajudo?
Lúcia sorriu.
—Primeiro passa o café.





