Amélia estava a fechar as persianas quando ouviu três pancadas suaves na porta.
Ao abrir, encontrou Joaquim com um saco de papel nas mãos e o cabelo molhado pela chuva.
— Trouxe-te pastéis de nata — disse ele.
— Achas que vinte e oito anos de casamento se resolvem com doces?
— Não. Mas achei que podíamos começar por algum lado.
Joaquim vivia há um mês num pequeno quarto por cima da oficina de um amigo, em Aveiro. Saíra de casa depois de uma discussão sobre a mãe de Amélia, que precisava de cuidados diários.
Amélia queria levá-la para morar com eles. Joaquim tinha recusado.
— Não temos idade nem forças para cuidar de outra pessoa — dissera ele.
Amélia ouvira aquelas palavras como uma traição. Afinal, a mãe ajudara-os quando os filhos eram pequenos, emprestara-lhes dinheiro e nunca lhes negara apoio.
Naquela noite, Amélia mandara Joaquim embora.
Agora ele estava diante dela, encharcado, com os bolos que costumavam comprar aos domingos.
— Vim pedir desculpa — disse ele. — Não por ter medo. Continuo com medo. Mas por te ter deixado sozinha com essa decisão.
Amélia cruzou os braços.
— E o que mudou?
— Fui visitar a tua mãe.
Ela ficou imóvel.
— Foste sozinho?
— Fui. Ela nem sequer me reconheceu durante alguns minutos. Depois perguntou por ti e disse que não queria estragar a nossa vida.
Joaquim engoliu em seco.
— Percebi que todos temos medo de nos tornarmos um peso. Até eu.
Amélia desviou o rosto para esconder as lágrimas.
— Não sei se consigo cuidar dela em casa.
— Nem eu. Mas podemos procurar ajuda. Podemos organizar turnos, falar com os teus irmãos e contratar alguém durante algumas horas. Não tens de carregar tudo sozinha.
Amélia abriu mais a porta.
— Os pastéis devem estar frios.
— Posso aquecê-los.
Sentaram-se na cozinha e conversaram até a chuva parar. Não resolveram tudo naquela noite, mas fizeram algo mais importante: deixaram de lutar um contra o outro e começaram a enfrentar o problema juntos.
Foi Joaquim quem bateu à porta. Mas foi Amélia quem afastou a cadeira para ele se sentar.
Porque numa reconciliação, o primeiro passo pode ser de um homem ou de uma mulher. O segundo, porém, precisa sempre de vir do outro l
