Aos sessenta e três anos, Madalena Faria cantou diante de uma sala cheia pela primeira vez na vida.

Aos sessenta e três anos, Madalena Faria cantou diante de uma sala cheia pela primeira vez na vida.

A voz tremeu na nota inicial. Não por medo do público, mas porque, durante trinta e cinco anos, o marido lhe repetira que ela cantava alto demais.

Madalena separou-se de Álvaro numa terça-feira comum. Não havia amantes, dívidas escondidas nem discussões dramáticas. Havia uma vida organizada de tal maneira que ela já não conseguia encontrar-se dentro dela.

Mudou-se para um pequeno apartamento em Setúbal. A cozinha dava para o rio, os azulejos eram antigos e a torneira pingava. Madalena adorou tudo, até a torneira.

Diogo, o vizinho do lado, tinha quarenta e dois anos e dava aulas de música numa associação do bairro. Ouviu-a cantar enquanto ela lavava a varanda.

Na manhã seguinte, bateu-lhe à porta.

—Desculpe incomodar. Cantava num coro?

Madalena riu-se.

—Cantava enquanto passava camisas a ferro. O meu público eram duas paredes e um cesto de roupa.

Diogo convidou-a para assistir a um ensaio. Ela recusou três vezes. Na quarta, apareceu apenas para ouvir.

Acabou com uma pasta de partituras nas mãos.

O filho, Ricardo, encontrou os dois à saída da associação.

—Mãe, quem é este rapaz?

—O maestro.

—Maestro de quê?

—Da parte da minha vida que ainda não conheces.

Ricardo achou que Diogo estava a aproveitar-se da solidão dela. Álvaro foi ainda mais cruel quando soube.

—Agora queres ser cantora? Na tua idade?

Madalena guardou a frase. Durante dias, ela apareceu sempre que tentava abrir a boca.

Na véspera do concerto de São Martinho, a solista perdeu a voz. Diogo pediu que Madalena assumisse a primeira parte.

—Não consigo.

—Consegue. Só ainda ouve a voz errada dentro da cabeça.

A sala estava cheia na noite do concerto. Madalena procurou Ricardo entre o público, mas não o viu. Álvaro também não estava.

Quase desistiu.

Então uma menina levantou-se na última fila e acenou. Era Leonor, a neta. Ao lado dela estava Ricardo, com o telemóvel preparado para gravar.

Madalena respirou fundo e começou.

Cantou uma velha canção que a mãe entoava na cozinha. Não tentou parecer jovem. Não escondeu a rouquidão nem as pausas. Cantou com a voz que tinha — uma voz marcada por anos de silêncio.

Quando terminou, ninguém aplaudiu de imediato.

Durante um segundo, a sala ficou completamente quieta.

Depois todos se levantaram.

Ricardo foi ter com ela nos bastidores.

—Desculpa —disse. —Pensei que aquele homem te estava a meter ideias na cabeça.

Diogo, que passava com uma caixa de cabos, ouviu e sorriu.

—As ideias já lá estavam. Eu só abri a porta.

Dias depois, Álvaro telefonou.

—Ouvi o vídeo. Não sabia que cantavas assim.

Madalena olhou para o rio.

—Sabias. Apenas nunca escutaste.

Desligou sem raiva.

Na semana seguinte, Diogo entregou-lhe uma nova partitura.

—Esta é difícil.

Madalena colocou os óculos.

—Ainda bem. Já perdi tempo demais com coisas fáceis.

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MagistrUm
Aos sessenta e três anos, Madalena Faria cantou diante de uma sala cheia pela primeira vez na vida.