Na segunda-feira, o termômetro eletrônico apitou e o visor marcou 38,5. Peguei o celular, apaguei a mensagem duas vezes. Na terceira, enviei: “Renata, estou com febre. Não vou conseguir ficar com os meninos hoje. Desculpa.”
Era a primeira vez em três anos. Três anos fechando a porta do meu apartamento na rua do Ouro, no bairro Santa Efigênia, em Belo Horizonte. Pegando o ônibus 9410, tarifa de três e cinquenta, até a escola. Almoço, dever de casa, banho, leitura antes de dormir. Lucas na terceira série, Miguel no primeiro ano.
Me chamo Marisa. Sessenta e três anos, professora aposentada da rede estadual de Minas Gerais. Trinta anos em sala de aula no turno da manhã. Agora passo as tardes com os netos.
Quando a Renata voltou do trabalho depois da licença-maternidade do Miguel, o Eduardo veio até minha cozinha. Abriu uma cerveja, ficou girando a garrafa com a mão. “Mãe, a gente não dá conta de creche e escolinha até as seis. O salário da Renata vai todo embora. Você pode buscar os meninos?”
Eu disse sim. Porque era para o meu filho. Porque o pai dele, meu falecido Paulo, teria dito sim.
E por três anos, eu nunca disse não. Até essa segunda-feira.
Acordei às cinco da manhã com a garganta em carne viva e um frio que vinha de dentro dos ossos. Enrolei-me em dois cobertores e continuei tremendo. Às seis, eu sabia que não ia conseguir levantar, tomar banho, pegar dois ônibus e brincar de vovó animada por oito horas.
A resposta da Renata veio em cinco minutos: “Ok, não se preocupa. Te ligo.”
Deitei, puxei o edredom até as orelhas, e pensei: eu já sabia. Para essa família, eu sou um par de mãos. Não uma pessoa com febre.
Às sete e três, a campainha tocou. Lá fora, o pinscher do Seu Raimundo, do apartamento da frente, começou a latir como se tivesse ouvido antes de mim.
Abri a porta. Renata estava no corredor, de casaco por cima do pijama. Miguel segurava a mão dela. Lucas carregava uma sacola de plástico quase do tamanho dele.
“Comprei vitamina C e xarope.”
Renata entrou sem pedir licença. “Lucas, coloca a sacola na cozinha. Miguel, tira o tênis.”
“Renata, e o trabalho?”
“Trocou de plantão com a Paula. Os meninos vão sozinhos para a escola — o Lucas tem atividade na biblioteca, eu levo o Miguel no caminho.”
Fiquei parada na entrada, de camisola e chinelo, com o nariz vermelho. Renata aqueceu água, tirou da sacola: mel, limão, vitamina C efervescente, xarope para a tosse. E um pacote de biscoito de chocolate, daqueles da padaria da esquina.
“Como você sabia?”
“O Lucas me contou. Disse que a vovó sempre dá um para ele depois do almoço, escondido do Miguel.”
Lucas estava na porta da cozinha, com cara de culpa. Eu ri e tossi ao mesmo tempo.
“Deita”, disse Renata. “Eu cuido daqui.”
“Renata, não precisa…”
“Precisa.” Ela ajeitou o cobertor em mim, do jeito que eu ajeito nos meninos. “Três anos. Você nunca faltou um dia. Nem quando teve aquela crise de coluna em março — foi lá e ainda fez o almoço das crianças. Acha que a gente não viu?”
Fiquei deitada, escutando os barulhos da minha cozinha: o tilintar dos pratos, a risada do Miguel, o Lucas falando baixinho “a vovó está dormindo”. Depois a geladeira abrindo e fechando.
Vinte minutos depois, Renata trouxe uma bandeja: chá com mel e limão, duas torradas, o comprimido efervescente já dissolvido no copo.
“Os meninos querem se despedir.”
Entraram na ponta dos pés. Miguel colocou um desenho em cima do edredom — uma avó na cama, um sol amarelo gigante, e a palavra “guére-dica” escrita torta, com dois corações. Lucas ficou um instante com as mãos no bolso da mochila. Depois disse:
“Vó, hoje eu volto sozinho da escola. Pode ficar tranquila.”
Oito anos. Parecia um homem.
Quando saíram, Renata ficou mais dez minutos. Lavou a louça, deixou uma folha de caderno na mesa: “Tem canja no fogão — esquenta no fogo baixo. Ligamos à noite. Fica deitada.”
Fiquei na cama com o desenho do Miguel no colo e o cheiro de limão no ar. Chorei. Não de tristeza. De uma coisa que não tem nome. Por três anos, eu tive certeza de que meu papel naquela família era ser pontual e disponível. Se eu parasse de dar conta, virava peso morto.
E, de repente, a Renata sabia do biscoito de chocolate. O Lucas lembrava da minha crise de coluna. O Miguel desenhava sóis quando a avó estava doente.
À noite, a Renata ligou, como prometeu. Perguntou da febre, da garganta, se eu tinha comido a canja. Depois disse:
“Marisa, eu sei que você acha que precisa cuidar dos meninos para a gente aceitar você. Mas quero que saiba: os meninos precisam de uma avó. É diferente.”
Não respondi. A garganta fechou, e dessa vez não era a tosse.
Na terça, a febre baixou. Na quarta, eu queria buscar os meninos, mas Renata escreveu: “Mais um dia para você. Fica.”
Na quinta, voltei para a porta da escola. O Miguel correu para mim como se não me visse fazia um mês.
Daquela segunda-feira, seis meses se passaram. Continuo buscando os meninos, fazendo almoço, ajeitando o cobertor do Miguel. Mas uma coisa mudou.
Na quarta-feira da semana passada, sentei na mesa da cozinha com o calendário que fica pendurado atrás da porta. Peguei a caneta azul, a mesma que uso para anotar as reuniões do condomínio. Marquei, em todas as quintas-feiras do mês seguinte, das duas às seis da tarde: “Vovó Marisa — alongamento no centro comunitário da Serra.”
Quatro horas por semana. Sessenta reais por mês, pagos com o meu benefício do INSS.
Dobrei a folha do calendário em quatro partes e entreguei para a Renata quando ela veio buscar os meninos na sexta à noite.
“Que isso?”
“Toda quinta, das duas às seis, eu não vou estar. A professora é a dona Fátima, do centro comunitário. Você precisa se organizar.”
Renata desdobrou o papel. Leu duas vezes. Depois dobrou de novo e guardou na bolsa.
“Certo. A gente se vira.”
Ela pegou a mochila do Miguel, o caderno do Lucas, e saiu. Na porta, virou e disse uma coisa que eu não esperava:
“Boa sorte na aula, vó.”
A porta fechou. Eu fiquei na cozinha, ouvindo o elevador descer. Na mesa, sobrava a caneta azul e a folha do calendário que eu não tinha marcado — a da próxima quinta-feira, com o nome da dona Fátima já escrito a lápis no canto.







