A visita da noite na clínica veterinária

Silvana fechou a gaveta das vacinas com um tranco que fez o frasco de vermífugo tilintar lá dentro. O relógio de parede da recepção marcava nove e meia. O último paciente — um gato siamês com suspeita de intoxicação — tinha ido embora às seis, e o auxiliar já batera o ponto muito antes. Só ela continuava ali, reorganizando prateleiras e adiando a volta para casa. Havia dois meses que Eliseu chegava da oficina tarde, tirava o macacão manchado de graxa em silêncio e desabava na cama sem nem tocar no prato feito. Silvana achava que era cansaço: a retífica de motores vivia lotada depois que estourou aquele contrato com a prefeitura, e o Eliseu, como melhor mecânico da região de São Lourenço, andava sem hora pra respirar.

O corredor da clínica rangeu. Dona Bernadete entrou com o peito ofegante e uma gaiola de transporte apoiada no quadril. A gata dela, uma frajola idosa chamada Raposa, miava baixinho lá dentro.

— Doutora, a bichinha não quer comer ração há três dias. E tá com um caroço atrás da orelha — a velha depositou a gaiola sobre a mesa de aço inox com cuidado, os dedos tortos pela artrite. — Será que é câncer?

Silvana abriu a portinhola, apalpou a massa com as duas mãos. A gata ronronou, empurrando a cabeça contra os dedos dela.

— É um abscesso fechado. Entrou uma lasca de madeira ou espinha de peixe. Vou drenar agora, não precisa nem sedar.

Enquanto limpava o ferimento com soro fisiológico e gaze, a velha ficou olhando para os azulejos verdes da clínica, depois para Silvana, depois para o relógio.

— Mas tu não tem casa não, criatura? O Eliseu largou a retífica mais cedo hoje. Eu vi a Saveiro dele estacionada na porta do Bailão da Dama de Ouros. Tava aquela moça do escritório de contabilidade do lado, a Valdirene. Rindo.

Silvana apertou o tubo de pomada cicatrizante até a ponta do dedo ficar branca. A Valdirene. A nova auxiliar contábil que o dono da oficina contratara em julho. Vinte e três anos, cabelo tingido de acaju, saia lápis e o doce sorriso de quem está sempre pedindo favorzinho. Nas últimas semanas, Eliseu tinha passado a usar perfume francês vencido que ganhara de um cliente, ensaiar o cabelo diante do espelho do banheiro e voltar da rua com a camisa social pra fora da calça.

— Tá com febre de mormo, dona Bernadete? — Silvana cortou um quadrado de micropore e fixou o curativo na pata da gata. — A Raposa está ótima. Volte na quinta-feira pra eu revisar essa sutura.

A velha apertou os lábios, percebendo que fofoca ali não ia render. Pegou a gaiola e saiu resmungando sobre enxaqueca falsa que ataca quando a verdade dói.

Silvana apoiou as duas mãos no balcão de fórmica e respirou fundo três vezes. Tinha vontade de trancar a clínica, ir até aquele bailão com o cabo de vassoura na mão e esfregar a cara do Eliseu na calçada. Doze anos de casados, a reforma da clínica financiada em trinta e seis meses, o apartamento comprado com o dinheiro da rescisão do antigo emprego dele na concessionária — e agora aparecia aquela piriguete de escritório com cheiro de esmalte barato.

Mas parou na porta de vidro quando lembrou do extrato do banco. O Gustavo tinha passado em segundo lugar pra engenharia mecânica na Federal de Itajubá. A matrícula era em janeiro. Kitnet, alimentação, material, o primeiro aluguel — estava tudo contadinho nos doze mil reais da poupança conjunta. Se ela jogasse o Eliseu pra fora agora, ele limparia a conta e sumiria pra casa da Valdirene, e o sonho do filho viraria pó.

Silvana entrou no apartamento escuro com uma única decisão tomada: esperar. Homem nenhum troca o conforto de um lar por um balcão de bar e um colchão emprestado. Eliseu voltaria quando a aventura empregasse. Era só aguentar até lá.

Ele chegou perto da uma e meia. Tirou os sapatos moles na entrada, mas não olhou pra cara dela.

— O caminhão da prefeitura deu pau no diferencial. Fiquei até agora desmontando a peça — ele disse, desabotoando a camisa sem encontrar os furos certos.

— Tá esfriando o frango com quiabo — Silvana respondeu da bancada.

Eliseu comeu calado, enfiando o garfo no arroz como se estivesse remexendo brita, o olho grudado no celular. Silvana ficou de pé, encostada na pia, enxugando um copo seco com o pano de prato. Queria perguntar se ele tinha visto o boletim do Gustavo, se lembrava que o garoto precisava de um notebook novo, se ainda existia um pingo de consideração pelos anos em que ela segurara as pontas quando a oficina quase quebrou. Mas perguntar seria abrir a porteira, e porteira aberta deixa o gado sair.

Passaram-se mais cinco semanas nesse teatro. Silvana acordava às cinco da manhã, fazia café, passava o uniforme da clínica, recolhia a roupa suja do Eliseu do cesto e deixava tudo dobrado em cima da cômoda. Ele chegava de madrugada, mastigava a marmita, dormia no canto mais distante do colchão. O corpo não encostava mais no dela — na cama de casal sobrava um metro inteiro de lençol frio entre os dois travesseiros.

Quem mais sentiu o baque foi o Gustavo. O moleque, com dezoito anos e um cavanhaque ralo que insistia em deixar crescer, abandonou o videogame e ficou caladão. Passou a estudar até tarde da noite pro vestibular, ou ia pro quarto trancar a porta e mexer no cubo mágico — o mesmo cubo mágico que girava entre os dedos por horas a fio, o estalo das pecinhas plásticas ecoando pelo corredor como um tique-taque irritado.

A bomba estourou num sábado de manhã. Silvana lavava a louça do almoço quando Eliseu entrou pela porta da sala com as botinas imundas de graxa, deixando um rastro de torrões de barro seco por cima do piso que ela esfregara com desinfetante de eucalipto. Ele carregava uma mochila velha dos tempos do exército, abarrotada.

— Sil, eu vou embora. Tô indo morar com a Valdirene — ele disse, parado na frente da estante da sala, sem encostar em nada.

Ela fechou a torneira, tirou a luva de borracha amarela e pendurou no ganchinho atrás da porta.

— E o apartamento?

— Apartamento fica pra você e pro Gustavo. Não vou mexer na escritura. Mas o dinheiro da poupança eu preciso tirar. A Val direne vai entrar de licença-maternidade mês que vem e a quitinete dela não tem nem rejunte no banheiro. E a minha Saveiro também vai comigo. Pra levar as ferramentas.

Silvana apertou o balcão da pia com as duas mãos. Doze mil reais. O dinheiro do aluguel em Itajubá, da taxa de matrícula, do primeiro semestre do menino. Três anos juntando moeda por moeda, cortando o plano de saúde, deixando de visitar a mãe em Guaxupé no Natal pra não gastar gasolina.

— Eliseu, são as economias do Gustavo — ela ouviu a própria voz sair mais baixa do que gostaria.

— Gustavo é homem feito. Se precisar, pega um empréstimo estudantil, arruma um bico de garçom. Eu também ralei a vida inteira sem ninguém pra me bancar — Eliseu deu de ombros como quem afasta um mosquito. — E esse dinheiro quem suou pra juntar fui eu, debaixo de carro, inalando fumaça de solda. Não vou sair daqui sem ele.

A porta do corredor abriu num rangido. Gustavo estava parado no batente, com o cubo mágico numa mão e o celular na outra. As olheiras cavadas por semanas de cursinho online.

— Você vai levar o dinheiro da faculdade, pai?

— Isso é conversa de adulto.

— Adulto sou eu, que passei em federal sozinho e tava contando com o que é meu por direito — Gustavo deu um passo pra dentro da sala, e a sola do chinelo estalou no piso. — Leva tudo. Leva a poupança, a Saveiro, as ferramentas, leva até o botijão de gás se quiser. Mas a partir de hoje você não é mais meu pai. Amanhã eu vou no Lava Jato do Renato perguntar se tem vaga de meio-turno, mas sua sombra aqui dentro eu não quero.

Eliseu abriu a boca pra responder, viu o olho do filho — não era raiva, era gelo, um tipo de decepção que não deixa espaço pra briga — e fechou a boca de novo. Jogou a mochila nas costas, chutou o tapete da entrada sem querer e sumiu no elevador.

Eliseu tirou o dinheiro da poupança no mesmo dia. No domingo, Silvana viu pelo extrato do banco no aplicativo do celular: saldo zero e uns centavos. Ele nem deixou o bastante pra pagar a taxa de condomínio que vencia na segunda.

Mas o silêncio dentro do apartamento, estranhamente, trouxe alívio. Silvana descobriu que não precisava mais cozinhar de noite, que o xampu não acabava em quinze dias e que a TV da sala ficava com o volume exato que ela queria. O Gustavo arrumou o bico no lava-jato e passou a sair às seis da manhã, voltar às duas da tarde e enfiar a cara nos livros até a meia-noite. O cubo mágico ficou numa prateleira do quarto, abandonado.

Ela pintou a parede da sala de verde-musgo, trocou o vaso sanitário que vivia entupido e jogou fora aquela coleção de bonés velhos de posto de gasolina que o Eliseu guardava na lavanderia. O apartamento, pela primeira vez em anos, cheirava a limpo de verdade — não ao desodorante automotivo que ele borrifava nas camisas.

No começo de dezembro, quando o jacarandá da pracinha em frente já estava soltando flores roxas no chão, a campainha da clínica tocou às cinco e quarenta e cinco da tarde. Silvana estava limpando as gaiolas de internação dos cães. Ao abrir a porta, deu de cara com a Valdirene.

Estava desarrumada, o cabelo preso num coque frouxo do qual escapavam fios grudados na testa suada. A barriga de gravidez — que Silvana calculou em uns sete meses — estufava um vestido de malha cinza manchado de leite. A menina carregava um bebê no quadril, uma garotinha de uns dois anos que puxava a blusa dela e choramingava.

— Dona Silvana, por favor — a voz saiu trêmula, aguda, perto do desespero. — O Eliseu tá bebendo desde segunda-feira. Ele sumiu da oficina, não atende celular. O dono da retífica ligou pra mim cobrando. Ele pegou a minha reserva da licença-maternidade, dois mil e trezentos reais, e disse que ia comprar lona de freio pra um Gol bolinha, mas sumiu com o dinheiro. Eu não sei o que fazer! Ele falou que ia pescar no Rio Verde e voltar ontem e não voltou!

Silvana pendurou a toalha no ombro e ficou de braços cruzados.

— Ele bebeu alguma vez na sua frente?

— Não… ele sempre disse que não gostava de cachaça. Que o máximo era cerveja numa confraternização.

— Pois saiba que o Eliseu é alcoólatra de longa data — Silvana pegou a caderneta de vacinas de um pinscher que estava na bancada e anotou a data, com uma calma que não demonstrava pressa alguma. — A cada três, quatro anos, quando a cabeça dele entra em curto-circuito, ele afunda numa garrafa de 51 e não sai por uma semana, duas, às vezes três. Eu buscava ele caído na calçada da oficina, escondia do dono da retífica, pagava soro intravenoso particular e inventava atestado de dengue. Fazia a desintoxicação em casa. Sozinha.

Valdirene abriu a boca, fechou, ajeitou a criança no quadril. A menininha puxou o brinco da mãe e a Valdirene nem sentiu.

— Você quis um homem pronto — Silvana guardou a caneta no bolso do jaleco. — Quis o mecânico bem-sucedido, com carro quitado, poupança gorda e zero miudezas. Mas o pacote não vinha fatiado. Agora a encomenda chegou completa. Trata de buscar ele. O rio não fica longe.

— Eu não posso criar um bêbado dentro de casa com duas crianças! — a voz da Valdirene subiu uma oitava, e a menininha assustou e começou a chorar. — A senhora tem que dar um jeito! Ele ficou doze anos com a senhora, a senhora tá acostumada!

— Acostumada eu tô com sarna sarcóptica em cão de rua, que dá trabalho e coça, mas eu trato assim mesmo — Silvana estalou a língua. — Só que o Eliseu não é sarna, é gente grande. Gente que fez uma escolha. E você também fez. Agora sai da minha clínica, que eu vou fechar e o alarme dispara às seis.

Valdirene saiu bufando, arrastando a filha pelo pulso.

Silvana chegou em casa às sete. O Gustavo estava no quarto fazendo um simulado online com os fones de ouvido. Ao estacionar o Uno velho na garagem do condomínio, ela viu o vulto encolhido perto da lixeira.

Eliseu.

A camisa social — aquela com que ele saíra de casa — estava rasgada no cotovelo. Cheirava a cachaça podre e lodo de rio. Uma mancha escura, provavelmente vômito, decorava a lapela. Ele encostava a testa no portão de ferro como se estivesse rezando.

— Sil… a Val me botou pra fora… o dinheiro… o dinheiro acabou. O gerente do banco bloqueou meu cheque especial. Não tenho nem pra gasolina. — A voz saiu rouca, mastigada, os olhos vermelhos e inchados quase não abriam.

A porta de entrada do bloco bateu. Gustavo desceu as escadas de chinelo, com uma chave de fenda na mão direita. Não era ameaça pensada — ele estava consertando o ventilador e esquecera de largar a ferramenta. Mas o Eliseu não sabia disso.

— Mãe, manda ele embora — a voz do filho não tinha tremor. Era sólida como as paredes que ela havia pintado sozinha. — Se ele subir, eu pego minhas coisas e vou dormir no alojamento da Federal amanhã mesmo. Não divido teto com esse homem.

Silvana sentiu o peso da chave de fenda e do cubo mágico na mesma fração de segundo. Olhou para o Eliseu — o mesmo homem que lhe dera o Gustavo e a clínica, mas que levara embora as economias sem pestanejar. Ela não sentia mais pena, nem ódio. Sentia o cansaço de um plantão de doze horas.

— Sobe não, Eliseu — ela disse. — Apartamento não.

Pegou o molho de chaves e separou uma menor, de uma fechadura antiga.

— Lembra aquele quartinho de depósito embaixo da escada do pilotis? Onde a síndica deixava os produtos de limpeza? Tem um colchonete de solteiro, uma torneira, um tanque e uma privada. Vai ficar lá. Amanhã você se lava, corta o cabelo, toma um banho com desinfetante e volta pra oficina. Metade do seu salário vai direto pro Gustavo, pra ajudar nos custos de Itajubá. Em dinheiro vivo, todo mês, na minha mão. Se faltar um mês, eu troco a fechadura.

Eliseu ergueu a cabeça devagar, como um cachorro idoso que não entendeu direito o comando, mas sabe que não vai receber carinho. Pegou a chave, fechou os dedos sujos em volta do metal e desceu a rampa sem fazer barulho.

Gustavo ficou parado, a chave de fenda brilhando na mão. Depois de um minuto, voltou pro apartamento sem dizer nada.

Na manhã seguinte, Silvana saiu pra clínica e viu o colchonete estendido no chão do depósito, uma trouxa de roupa suja no canto e um pote de margarina vazio perto da torneira. Eliseu estava de pé, lavando o rosto com água fria. Não trocaram palavra.

O verão de São Lourenço arrastou seus dias úmidos. Gustavo organizou as malas num sábado de janeiro, colocou o notebook parcelado em doze vezes na caixa de papelão e encheu a mochila com sonhos e cubos mágicos novos. Eliseu pagava religiosamente todo dia cinco: seiscentos reais em notas de cinquenta, dentro de um envelope pardo sem uma única palavra escrita.

Em fevereiro, Valdirene pediu demissão do escritório e mudou-se pra Pouso Alegre com as duas filhas. Espalharam na cidade que ela estava morando de favor na casa de uma tia. Eliseu não comentou. Continuou morando no depósito, comendo a marmita da pensão da esquina e devolvendo o prato lavado no balcão.

Na primeira semana de março, Silvana recebeu uma foto no WhatsApp. Gustavo em frente ao prédio da universidade, sorrindo, com um macacão azul de calouro e uma chave de boca leviana na mão. Abaixo da imagem, uma legenda curta: "Passei em cálculo, mãe. Te devo. Sempre."

Ela guardou o celular no bolso do jaleco, serviu uma caneca de café frio e foi cuidar de um pastor alemão que mordera o próprio dono. O Eliseu estava varrendo a calçada do condomínio com uma vassoura velha, levando um sol quente na nuca, sem camisa. Ela passou por ele e entrou no carro sem buzinar.

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MagistrUm
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