A neve escondia um segredo

# A neve não contava tudo

Bia estacionou a caminhonete em frente ao abrigo quando o rádio da cozinha ainda tocava um modão gaúcho. A cidade de São Joaquim amanhecia com aquele frio que cortava o rosto, e as araucárias, cobertas de geada, pareciam esculturas de vidro no quintal vizinho. A cadela estava encolhida no canto da caçamba, enrolada numa manta velha do abrigo, com as patas rígidas e o pelo sujo de barro e sereno.

— Quem jogou isso na estrada? — perguntou Dona Zilda, a cozinheira, esfregando as mãos. — Numa noite dessas, criatura?

Bia não respondeu. A cadela tinha os olhos fundos, o corpo magro feito um varal. No pescoço, um enforcador de couro sem placa, sem número — mas com uma costura reforçada, do tipo que só quem gosta de um bicho manda fazer sob medida. Alguém tinha cuidado daquele animal, uma vez. Quando Bia tentou tocar no animal, ela encolheu as orelhas e mostrou os dentes.

— Calma, menina. Aqui é casa.

Levaram a cadela para dentro. O abrigo cheirava a eucalipto e a cobertas úmidas. No canto da lavanderia, a gata Felisberta dormia sobre uma pilha de jornais, indiferente ao vento que assobiava na fresta da porta. Bia acendeu uma lâmpada amarela e aqueceu leite com um pouco de ração úmida. A cadela comeu com a cabeça baixa, mastigando rápido, como quem já aprendeu a não esperar a segunda porção.

— O senhor acha que ela está prenha? — Bia perguntou ao veterinário, mais tarde.

O Dr. Wagner apalpou a barriga da cadela com cuidado. O animal tremeu.

— Não dá para ver direito. Muito magra. Mas tem algo sim. Um ou dois filhotes, talvez. Vamos monitorar.

Bia não dormiu aquela noite. No quarto ao lado, a cadela gemia baixinho. Às quatro da manhã, um som fino, um arranhado de unha no chão, acordou todo o abrigo. Bia correu com uma lanterna. A cadela estava deitada de lado, com uma poça de água e sangue sob o corpo.

— Zilda! Acorda! Ela teve o filhote!

O pequeno cachorro era cinzento, quase azul, do tamanho de uma batata-doce. A mãe lambia o focinho dele com uma língua grossa e enérgica. Bia quis trocar a manta molhada, mas a cadela ergueu a cabeça e encarou a mulher nos olhos.

— Eu não vou tirar ele de você — disse Bia, ajoelhando-se. — Juro.

A cadela lambeu a própria pata, sem desviar o olhar. Não era raiva. Era medo. Um medo antigo, de quem já perdeu tudo.

Chamaram o veterinário de novo. Ele examinou o filhote com uma toalha quente e balançou a cabeça.

— Um só. Que sorte. Se fossem cinco, nenhum sobreviveria. A mãe não tem reserva.

— E agora? — perguntou Bia.

— Agora é paciência. Ela precisa comer, dar leite, e você precisa garantir que nenhum estranho entre naquele quarto. Se ela sentir cheiro de gente, pode rejeitar o filhote.

Bia chamou a cadela de Lua. O filhote ganhou o nome de Gelo, por causa da noite gelada em que nasceu. Nos dias seguintes, Bia passou a dormir num colchão no chão da lavanderia, a três metros da cama improvisada. Lua não deixava ninguém chegar perto de Gelo. Quando a gata Felisberta tentou se aproximar da caixa de papelão, Lua rosnou e a bichana fugiu para o telhado.

Um dia, arrumando a gaveta de doações, Bia encontrou uma plaquinha de metal enferrujada, achada junto com outros itens recolhidos na mesma estrada onde Lua fora largada. Tinha um nome gravado, quase apagado: "Estrela". Bia guardou a plaquinha numa caixa de sapato, sem saber o que fazer com ela. Talvez alguém tivesse procurado por aquela cadela, uma vez, antes de desistir. Talvez não. Não dava para perguntar a Lua o que tinha acontecido antes da estrada.

Gelo crescia rápido. Primeiro os olhos se abriram, dois pontos escuros que fitavam a lâmpada. Depois as pernas firmaram. Ele mordia as dobras da coberta, corria atrás da própria cauda e derrubava a tigela de água. Lua puxava o filhote pela nuca e o devolvia para a caixa.

— Esse aí vai ser do tipo encrenqueiro — dizia Dona Zilda, com a boca torta de tanto rir. — Mas olha só como a mãe cuida.

Bia observava a dupla e sentia uma pontada de inveja. A cadela magra, que chegara à beira da morte, agora tinha uma função. Ela ficava horas deitada de lado, deixando o filhote mamar até esvaziar, e quando ele terminava, lambia cada pata, cada dobra de pele, até o cachorrinho dormir ronronando feito gato.

Passou o inverno. Em setembro, as cerejeiras de São Joaquim começaram a florir. O abrigo ganhou novas doações: um saco de ração da marca Campo Verde, cobertores de lã de uma fábrica falida, e um rádio de pilha que só pegava a estação local. Numa quarta-feira, chegou a família.

Eram três: o pai, um homem calado com chapéu de lona; a mãe, de cabelos curtos e óculos; e a filha, Talita, de dez anos, que usava uma bota rosa e carregava um caderno de desenhos.

— A gente quer um filhote — disse a mãe. — O da foto no site.

Ela apontou para a foto de Gelo no mural. Bia engoliu seco.

— O Gelo está disponível — começou Bia. — Mas ele não é um filhote sozinho. Ele tem a mãe, a Lua. Eles dormem juntos, comem juntos. A Lua não sobreviveu sem ele. E ele… bem, ele não conhece a vida sem ela.

A menina se abaixou perto da cerca. Gelo correu até a tela e começou a lamber os dedos dela. Lua ficou atrás, com o corpo rígido, os olhos fixos na estranha.

— Vocês não podem separar — disse o pai, sem entonação.

— Não quero — respondeu Bia. — A Lua já foi abandonada uma vez. Não vou deixar que percam o filho agora.

A mãe se agachou. Lua deu dois passos à frente e cheirou a palma da mão da mulher. Depois recuou e foi buscar Gelo pela nuca, puxando-o para o fundo do canil.

— Ela não confia em ninguém — disse Talita. — Mas eu vi ela lambendo o Gelo. Ela é boa.

O pai tirou o chapéu e coçou a cabeça. Olhou para a mulher.

— A nossa casa tem quintal. E um galpão velho. O inverno é pesado, mas a gente dá um jeito.

— Dois cachorros é muita despesa — disse a mãe.

— A gente já paga escola, dentista, gasolina… — o pai hesitou.

Talita abriu o caderno. Mostrou um desenho: duas manchas, uma grande e uma pequena, deitadas sob uma árvore.

— Eu já desenhei eles juntos. Pode ser os dois?

A mãe suspirou. O pai colocou o chapéu de volta.

— Está bem. A gente leva os dois. Mas o primeiro que latir de madrugada, pode voltar.

Bia prendeu o ar. Depois foi até o escritório e pegou a pasta de adoção. Preencheu as fichas com os nomes dos novos tutores. No campo "quantidade de animais", escreveu "2 (dois) — macho e fêmea, indissociáveis". Carimbou o documento com o carimbo do abrigo. Assinou no fim da página.

— Vocês precisam pagar a taxa de adoção — disse Bia. — São quarenta e cinco reais por animal. E precisam castrar a Lua e vacinar o Gelo. Tem um convênio com a clínica do Dr. Wagner; o pacote sai por duzentos e oitenta reais.

O pai contou o dinheiro em notas de vinte e deixou sobre a mesa. A mãe assinou um termo de compromisso. Talita correu para abrir a porta da caminhonete.

No dia da partida, Lua recusou entrar no carro. Ficou parada na grama, com o corpo tremendo, os olhos fitando o banco traseiro como se fosse um buraco escuro.

— Ela lembra — murmurou a mãe.

Bia se aproximou com Gelo no colo. O filhote lambeu o rosto da mãe. Lua cheirou a caminhonete, deu um passo, recuou.

— Vem, mãe — chamou Talita, sentada no banco. — Aqui tem o Gelo. Ele está com você.

Lua entrou. Primeiro as patas dianteiras. Depois o corpo. Sentou-se ao lado do filhote e lambeu a nuca dele com calma. A caminhonete partiu, levantando poeira da estrada de chão.

Bia ficou parada no portão, com a ficha ainda na mão. A gata Felisberta pulou no muro e se esfregou nas suas pernas. Bia voltou para dentro e guardou a plaquinha com o nome "Estrela" na última gaveta do arquivo, ao lado das outras fichas encerradas. Fechou a gaveta sem tentar entender o resto da história daquela cadela. Algumas coisas ficavam mesmo pela metade.

Trinta e quatro dias depois, chegou uma carta no abrigo. Dentro, uma foto. Lua dormia num tapete ao lado de um sofá de chenille vermelho. Gelo, já bem maior, estava deitado de barriga para cima. Talita lia um livro, encostada entre os dois. No fundo, uma janela com cortinas de renda e vasos de begônia.

No verso, a letra de Talita:

"A Lua agora dorme na cama. O Gelo comeu a alça da sandália do papai. A gente comprou dois brinquedos iguais para ninguém brigar. Obrigada por não separar eles."

Junto à foto, um recibo do Dr. Wagner. Um comprovante de castração da Lua, datado da semana anterior. E um bilhete da mãe:

"Pagamos a castração e as vacinas. O Gelo ficou ótimo. A Lua é outra cadela. Seu carimbo de 'indissociáveis' está pendurado na porta da geladeira."

Bia dobrou a foto e guardou no bolso do colete. Lá fora, o rádio tocava uma milonga. A gata Felisberta ronronava na pilha de jornais, esticada ao sol que entrava pela fresta da porta. Bia saiu para o pátio e ficou parada diante do portão vazio, ouvindo o vento passar entre as araucárias.

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MagistrUm
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