O Cheiro do Forno Não se Copia

Dona Tereza chegou num sábado de manhã, com a Patrícia atrás e uma proposta que eu não esperava. Ela tirou o casaquinho de tricot, passou a mão no balcão da minha confeitaria como quem fiscaliza azulejo e disse, bem alto, que o pão de mel andava meio seco. Depois sentou, pediu um espresso duplo e mandou, sem olhar direito pra mim:

— Então, Lari. A Paty vai abrir uma doceria na galeria nova, do outro lado da praça. Vocês vão ser vizinhas. Que coisa boa, né? Família unida.

Família unida. A Patrícia, irmã mais nova do Rafa, desbloqueou o celular e me mostrou a planta do ponto comercial. Trezentos metros, no máximo, da porta do meu Forno da Lari. Chão de cimento queimado, parede de tijolinho aparente, exatamente o mesmo conceito rústico-mineiro que eu levei um ano inteiro para planejar. Senti a ponta dos dedos gelar, mas continuei polindo a cuba da pia. A Pandora, minha fila brasileira que fica na portaria da confeitaria, levantou a cabeça e encarou as duas, mas não rosnou. A Pan é mais educada do que eu.

— A ideia é abrir em março — Patrícia guardou o celular. — Você pode me dar uma força, né? Me mostra os esquemas. Onde compra as coisas, como faz o doce de leite daquele seu bolo… Essas coisas de família.

— Essas coisas de família — repeti, secando as mãos no avental.

Fazia oito anos que eu tocava o Forno da Lari sozinha. Oito anos acordando às quatro da manhã em Curitiba, enfrentando neblina na XV de Novembro, esperando o fornecedor de leite chegar de Castro enquanto o barulho da chuva batia nas araucárias do Passeio Público. Oito anos para o pessoal da redondeza, ali do Batel, reconhecer o cheiro do meu bolo de fubá com erva-doce saindo do forno e largar a fila da padaria gourmet para vir me procurar. Patrícia, nesse tempo, vendia semijoias num shopping e dizia que cozinhar dava muito trabalho.

Dona Tereza terminou o café, deixou a xícara na pia e olhou para o balcão refrigerado, onde estavam os bolos da tarde.

— Vê se não vai fazer ciúme, Lari. Ela é da família. O mercado aguenta as duas.

— O mercado aguenta — falei, com a voz mais calma do que eu estava. — Mas a conta de luz, Dona Tereza, vence todo mês.

Ela riu, como se eu tivesse feito uma piada de mulherzinha ciumenta, e saiu com a filha de braço dado. Quando o Rafa chegou à noite, do trabalho na marcenaria dele, eu já tinha lavado três vezes a mesma forma de pudim.

— Rafa, a tua irmã alugou uma loja do outro lado da praça. Vai abrir uma doceria igual à minha.

Ele largou a marmita vazia em cima da mesa, coçou a nuca, tipo assim, como quem não quer se meter.

— Ah, sério? Ué, mas ela não sabe fazer nada.

— Ela acha que sabe. E a tua mãe acha que eu tenho que ensinar.

— Bom, se ela precisar de ajuda, não custa nada dar uma mão.

— Custou oito anos, Rafa. Oito anos de mão no forno, na batedeira e no talão de nota fiscal.

Ele não respondeu. Foi para o quarto e eu fiquei no sofá, com a Pandora apoiando a cabeça no meu joelho, lambendo o resto de glacê que eu nem tinha percebido que estava na minha calça.

O que a Patrícia queria não era ajuda. Era atalho. Ela começou a aparecer quase todo dia, no meio da tarde, e ficava encostada no balcão, vendo a Isabela, minha atendente, embalar os quitutes. Perguntava o nome dos fornecedores, tirava foto dos preços na tela do computador, provava a massa do bolo de laranja e pedia para eu anotar a receita num papel. Numa terça-feira, eu finalmente falei:

— Paty, eu não vou abrir mão dos meus fornecedores, dos meus preços nem das minhas receitas. Você quer abrir uma doceria? Abre. Mas abre com as tuas coisas.

— Nossa, Lari. Que grosseria. Eu só quero aprender. A mamãe disse que você era mesquinha, mas eu não acreditei.

Mesquinha. Eu, que pagava a Isabela acima do piso, que parcelava bolo de aniversário para as avós do bairro, que deixava a criançada do colégio estadual comer biscoito quebrado de graça enquanto esperava a van. Mas o que eu senti mesmo não foi raiva. Foi um cansaço enorme, daqueles que começa no estômago e sobe até a garganta. E a sensação idiota de que eu tinha sido ingênua. No dia seguinte, troquei a senha do sistema. E na outra semana, a doceria da Patrícia abriu.

Chamava-se "Forninho da Paty" e tinha uma placa amarela com letra cursiva, igual à minha, só que ao contrário. Ela copiou até o desenho do pãozinho sorridente. Tinha pegado um empréstimo no banco e convencido a mãe a ser fiadora. Dona Tereza hipotecou parte do apartamento dela, na Rua Itupava, para a filha pagar o aluguel do ponto e o primeiro lote de embalagens.

O Rafa ficou uns quinze dias sem falar direito no assunto. Mas num domingo, depois do almoço na casa da sogra, ele chegou em casa pálido.

— A Paty pediu para eu montar as prateleiras do Forninho. De graça, lógico. E a mãe estava lá, falando para eu não me preocupar, que a Paty ia pegar todos os clientes do Batel porque os teus preços são altos. Disse assim, ó: "A Lari explora o povo, Rafa. A Paty vai mostrar como se faz."

Ele sentou pesado na cadeira da cozinha. O lustre queimado bem em cima da mesa — aquele que eu nunca trocava — piscou e apagou de vez. Ficamos no escuro, só com a luz da rua entrando pela janela.

— Isso é errado — ele falou, baixinho. — A Paty está abrindo um negócio para concorrer com a minha esposa, e a minha mãe achando lindo. Eu não vou montar prateleira nenhuma.

Foi a primeira vez, em doze anos de casados, que eu vi o Rafa bater o pé contra a própria mãe. Mas não adiantou muito. O Forninho abriu em março mesmo, com uma promoção de arromba: bolo de fubá por oito reais, quando o meu custava quinze. Eles estavam operando no prejuízo, e qualquer pessoa que entende de fechamento de caixa sabia disso.

Os primeiros meses foram duros para mim. A clientela dividiu. Gente que eu conhecia pelo nome, que eu via toda semana, sumiu. A Isabela me olhava com aquela cara de quem não sabe se pergunta ou se fica quieta. A Pandora deitava na porta e gemia, como se entendesse o movimento morno. Eu cortei um pedaço do meu próprio salário, negociei com o Senhor Hiroshi, meu fornecedor de doce de leite caseiro de Carambeí, um desconto mínimo para comprar mais volume e congelar. E esperei.

A qualidade venceu. Demorou uns quatro meses, mas venceu. O Forninho parou de comprar o doce de leite artesanal e passou a usar um industrializado, de balde, só para manter o preço baixo. O bolo de fubá ficou com gosto de farinha velha. A cobertura do pão de mel rachava. O pessoal do Batel, aquele que gosta de coisa boa e não se importa de pagar dois reais a mais, voltou. Devagar, sem alarde, voltou. E o movimento do Forninho murchou.

Num sábado chuvoso de julho, a Patrícia apareceu. O lustre da cozinha ainda quebrado, a Pan deitada no tapete, e eu passando um café para o Rafa. Ela entrou sem bater, com o cabelo preso e a cara de quem não dorme há dias.

— Lari, preciso entrar no teu pedido com o Hiroshi. Você pede uma remessa maior, racha o custo comigo. Eu pago a minha parte, óbvio. É só para eu ter o preço de custo que você tem. Só até eu me recuperar.

— Paty, você conseguiu o empréstimo sozinha, abriu sozinha, fez as receitas sozinha. Segue sozinha.

— Você sempre foi assim. Sempre foi essa pessoa fria. O Rafa casou com uma geladeira.

Ela saiu, e no dia seguinte o telefone tocou. Dona Tereza.

— Larissa, você e o Rafa precisam honrar o empréstimo da Patrícia.

— Como é, Dona Tereza?

— Vocês dois são família. O Rafa é irmão, você é cunhada. Vocês fizeram a menina fechar as portas. Agora arquem com a dívida. O banco está ligando para mim, para a minha casa, e eu sou fiadora, mas quem destruiu a Paty foram vocês.

Eu estava levando a Pandora para a consulta no veterinário, na clínica da Rua Chile. A Pan, que odeia carro, estava com a cabeça para fora da janela, babando no retrovisor. Parei no semáforo, vi os ipês roxos floridos na Praça do Japão, e respirei. A chuva fininha de Curitiba embaçava o vidro.

— Dona Tereza, a senhora mesma incentivou a Paty a abrir o Forninho. A senhora é a fiadora. O meu nome não está em papel nenhum.

— O nome não, mas a culpa está. Você não deu uma chance para ela. Ensinou tudo e depois tirou.

— Eu ensinei? Não. Ela fotografou meus cadernos. Eu só tirei o que ela estava roubando. E a senhora sabe disso.

Ela desligou na minha cara.

Fiquei parada no carro, com o ronco grave da Pan no banco de trás. Lembrei de quando comecei, das madrugadas frias, das mãos queimadas, dos bolos que afundavam no forno e que eu chorava vendo perder. Eu não tive ninguém para me ensinar, nem para ser fiador, nem para rachar pedido. E, mesmo assim, eu achava que estava tudo bem. Que uma hora a família ia entender.

Na semana seguinte, estava chovendo de novo, e o Rafa chegou com a sobrinha, a filha da Paty, pela mão. A menina, a Júlia, tinha seis anos e amava ver a Pan. Enquanto a mãe trabalhava em um emprego novo, de auxiliar administrativa, ela ficava comigo na cozinha. A Paty nunca me agradeceu por isso, e eu também nunca esperei esse obrigado. Júlia amassava os retalhos de massa podre que sobravam das tortinhas de limão, fazia estrelinhas com as forminhas de biscoito e lambuzava os dedos na geleia caseira de morango. Eu enchia um saquinho de papel para ela levar para casa, e ela dizia, toda séria: "Titia, o teu bolo é o melhor do mundo."

Numa tarde fria, com a Pan dormindo no tapete perto do forno para se aquecer, Júlia me olhou e perguntou:

— Titia, por que a mamãe não faz mais bolos?

— Porque a mamãe resolveu fazer outra coisa, Ju.

— Mas os bolos dela não eram tão bons quanto os teus.

Passei a mão na cabeça da menina e dei mais uma estrelinha de massa para ela enfiar na forminha. As crianças sabem.

O Forninho fechou de vez em setembro. A dívida com o banco continuou lá, no nome da Dona Tereza. Ela nunca mais me ligou para cobrar, nem para pedir desculpas. De vez em quando, eu vejo a Patrícia no supermercado, e ela desvia o olhar, faz que está escolhendo alface. Eu não desvio. Eu continuo olhando, não com raiva, mas com uma coisa quieta, que parece mais com cansaço. O lustre da cozinha eu finalmente troquei. O Rafa subiu na escada, trocou a lâmpada, e a cozinha ficou clara.

Num sábado, Dona Tereza apareceu na porta do Forno. Estava mais magra, com o casaco cinza de lã, o mesmo que eu tinha dado para ela três Natais atrás.

— Vim buscar um bolo para o aniversário do Rafa — disse, baixinho.

Empacotei o bolo de brigadeiro, o preferido dele, com a cobertura de granulado belga. Ela pegou a caixa, pagou certinho no Pix, e ficou me olhando uns cinco segundos, parada. O cheiro do forno, o perfume do bolo de laranja que assava, tomava conta do salão. A Pan bateu o rabo no chão, feliz.

— Ficou bom — falei, passando a maquininha. — O Rafa vai gostar.

Ela pegou a caixa e saiu. Da porta, a Júlia entrou correndo, com o Rafa atrás, e foi direto para a cozinha pedir massa podre. A chuva começou de novo lá fora, batendo no toldo listrado. Eu me virei, peguei a forma de biscoitos e entreguei para a menina. A gente continuou.

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MagistrUm
O Cheiro do Forno Não se Copia