O pedido de amizade chegou numa terça-feira à noite. Um perfil com foto de uma praia qualquer, nome de homem, poucos amigos em comum. Nicholas, 24 anos. Tantas coisas na cabeça daquela mulher de cinquenta e dois já tinham virado paisagem. Mas, confesso, aquilo ali acendeu uma faísca de curiosidade antiga, daquelas que a gente pensa que o tempo levou embora junto com a firmeza dos joelhos.
Aceitei.
Ele não demorou nem vinte minutos para aparecer na minha DM com um "oi, tudo bem?" solto e um emoji de sorriso tímido. O tipo de abordagem que parece ensaiada. Eu, que já tinha passado a tarde inteira brigando com uma planilha de orçamento e sentindo uma pontada chata no quadril direito, decidi entrar no jogo. Só para ver até onde ia.
Respondi. Simpática. Direta. Ele emendou com elogios sobre a foto do meu perfil, disse que eu tinha um "jeito de mulher que sabe o que quer". Ri sozinha, olhando para a minha imagem na tela do celular. A mulher da foto usava óculos de grau com lente que escurece no sol e uma blusa de linho comprada numa feirinha hippie da Praça Benedito Calixto. Saber o que eu queria? Naquele momento, eu só queria que a dor no nervo ciático desse uma trégua para eu conseguir dormir de bruços.
— Posso te perguntar uma coisa? — escreveu ele.
— Claro.
— Quantos anos você tem?
Cinquenta e dois. Digitei e mandei sem pestanejar. Nessa altura da vida, esconder a idade é como tentar tampar o sol com uma peneira: um esforço inútil e que só faz a gente suar.
— Nossa, nem parece. Você é muito atraente. De verdade.
Agradeci. Ele parecia um moço educado. A conversa foi seguindo um roteiro previsível de frases soltas e risadas digitais até que ele me surpreendeu:
— Quer falar de coisas de adulto?
Travei. Olhei para a tela, depois para a janela onde a noite já engolia o Morumbi ao longe. Coisas de adulto. Há quanto tempo eu não ouvia essa expressão sem ser numa consulta médica? Meus lábios se contorceram num meio-riso, daqueles que a gente dá para si mesma. Ele não fazia ideia do que estava pedindo.
— Podemos falar — respondi. — Pode começar você.
— Não, não — ele insistiu, todo animado. — Começa você, vai. Fiquei curioso.
Pois bem. Eu comecei.
Falei que ser adulto, aos cinquenta e dois, em São Paulo, é saber o preço do quilo do salmão no Pão de Açúcar e do litro da gasolina no posto da esquina. É sentir uma alegria genuína quando o teste ergométrico de esteira mostra que o coração ainda bate, literalmente, no ritmo certo. Expliquei que dor no joelho não é uma metáfora: é uma realidade que me visita sempre que o tempo vira, como um alarme silencioso e insubstituível de mudança climática.
Ele não respondeu. Apenas uma figurinha de um gato com olhos arregalados surgiu na conversa. Continuei.
Contei que adulto é você estar dirigindo pela Rebouças, no meio de um congestionamento infernal, e sentir uma fisgada na coluna. Você geme, xinga o banco, tenta se ajeitar, mas aquela dor sobe pelas vértebras como uma corda esticada até explodir atrás dos olhos. Contei do dia em que meu calcanhar inchou tanto que precisei enfiar o pé numa bacia com água morna e sal grosso, rezando para aquilo ser passageiro, pensando nos boletos que ainda tinha para pagar.
Ele tentou mudar o rumo com um "haha nossa, mas e as partes boas?".
E eu continuei. Porque adulto também é isso: a gente não desvia da pergunta.
Falei que a parte boa é poder ouvir um vinil do Cartola num sábado à tarde e ficar reparando no chiado da agulha. Que bom mesmo é ter uma amiga para te ligar numa quarta-feira e perguntar "vamos tomar um café amanhã naquele lugar perto do Sesc Pompeia?" e você poder dizer sim, com a certeza de que ninguém vai ficar olhando para o celular enquanto você fala.
Contei que meus óculos são, atualmente, uma extensão definitiva da minha cara. Que tenho um par só para dirigir, um para ler e um terceiro, que fica na bolsa, só para o caso de eu perder os outros dois. Falei do dia em que entrei na sala, parei diante da estante e fiquei uns bons quinze segundos encarando o lustre, tentando lembrar o que tinha ido buscar. O lustre não me respondeu. Ri sozinha e voltei para a cozinha.
Foi aí que percebi que a conversa tinha esfriado. As figurinhas pararam. As mensagens não chegavam mais. Olhei para o alto da tela: "Nicholas está online". Nada.
— E aí? Sumiu? — arrisquei.
Nada.
Fui até o perfil dele. O acesso estava restrito. Uma mensagem de erro dizia que o conteúdo não estava disponível. Bloqueada. A tela brilhou, impassível, enquanto eu largava o telefone em cima do sofá.
Ali, na penumbra da sala, ouvindo o barulho abafado de uma sirene subindo a Avenida Paulista, entendi tudo.
O rapaz queria falar sobre desejos, sobre noites quentes, sobre segredos trocados em voz baixa. Queria o mistério picante que as revistas vendem como "coisa de adulto". Mas não estava pronto para ouvir sobre a vida adulta de verdade. A vida que se impõe ao corpo na forma de uma cãibra na panturrilha às três da manhã de uma segunda-feira, do suador que você toma quando a conta da coparticipação do plano de saúde chega por e-mail, do medo silencioso de escorregar no box do banheiro quando não tem ninguém em casa para te ajudar a levantar.
Ele não sabia que adulto é chorar de saudade da mãe que já se foi, mesmo tendo cinquenta e dois anos. É passar o café e sentir o cheiro se misturar com a memória da cozinha da avó, num sítio em Atibaia, onde o fogão era à lenha e a vida parecia durar mais.
A tela do celular apagou sozinha. O reflexo do abajur dançava na estante de livros. Peguei minha caneca de chá de erva-doce, sentindo o calor morno na palma da mão. O cachorro do vizinho latiu três vezes e se calou. A casa estava em paz. Meus joelhos não doíam naquele exato instante, e isso já era uma vitória para ser comemorada em silêncio.
O celular vibrou. Uma nova notificação. Não era ele. Era um vídeo de gato que minha irmã mandou no grupo da família. Dei play e ri, um riso alto, genuíno, que espantou o silêncio da sala e fez o lustre parecer menos acusador.
Fechei o aplicativo. Abri a janela para a noite de São Paulo. O cheiro de jasmim subiu lá de baixo, misturado com o zum-zum distante de carros que nunca param. Pensei em responder ao rapaz, mas não havia mais para onde responder. E estava tudo bem. Ele não precisava das minhas verdades, nem eu precisava do aplauso dele.
Fui até a cozinha, coloquei um disco do Nelson Gonçalves na vitrola e voltei ao meu lugar no sofá. Me alonguei, sentindo cada vértebra estalar numa sinfonia íntima e confortante.







