Se continuares com esse homem, não contes mais connosco — disse Miguel.
Rosa sentiu o coração apertar-se. Tinha 58 anos, mas os filhos falavam com ela como se já não fosse capaz de tomar decisões.
Depois de ficar viúva, vivera sete anos sozinha numa pequena casa perto de Aveiro. Os filhos telefonavam quando precisavam que ela tomasse conta dos netos, preparasse comida ou resolvesse algum problema. Raramente perguntavam se ela se sentia só.
Manuel apareceu na sua vida durante uma festa da aldeia. Era viúvo, antigo carteiro e conhecia quase todas as ruas da região. Dançaram uma música, depois outra, e Rosa voltou para casa com um sorriso que já não reconhecia.
Manuel não lhe oferecia presentes caros. Consertou os estores, plantou alecrim no quintal e nunca se esquecia de levar os seus pastéis preferidos.
Mas os filhos desconfiavam dele.
— Ele quer ficar com a tua casa — insistia Sofia.
Numa tarde de inverno, Rosa adoeceu. Manuel passou a noite inteira ao lado dela, controlando-lhe a febre e preparando chá. Quando os filhos chegaram, encontraram-no a dormir numa cadeira.
Sobre a mesa estavam as chaves da casa.
— A vossa mãe quis dar-me uma cópia — explicou Manuel. — Eu recusei. Não quero a casa dela. Quero apenas a sua companhia.
Rosa levantou-se, ainda fraca.
— Quando precisavam de mim, eu nunca estava cansada nem era demasiado velha. Agora que encontrei alguém que cuida de mim, dizem que já tenho idade para ficar sozinha. Isso não é amor.
Naquele domingo, Manuel ficou para o almoço. Miguel quase não falou, mas, antes de sair, apertou-lhe a mão.
Rosa percebeu então que escolher o amor não significava abandonar os filhos. Significava deixar de se abandonar a si própria.
Uma mãe deve renunciar à sua felicidade para não incomodar os filhos adultos?



