O que mantém duas pessoas unidas no casamento: os sentimentos sinceros, a rotina construída em conjunto ou os objetivos comuns?

Durante quarenta anos, Amélia acordou antes do marido.

Preparava o café, abria as janelas da casa em Aveiro e colocava os comprimidos de Joaquim ao lado da chávena.

Todos diziam que eles eram inseparáveis.

Mas, no dia em que completou sessenta e cinco anos, Amélia recebeu da irmã uma passagem para conhecer os Açores.

— Sempre sonhaste com esta viagem — disse-lhe a irmã.

Quando contou ao marido, Joaquim franziu a testa.

— E quem vai cuidar de mim?

Amélia quase riu. Ele não estava doente. Apenas se habituara a que ela resolvesse tudo.

— Vou ficar fora sete dias.

— Uma mulher casada não abandona a casa dessa maneira.

A frase caiu sobre ela como uma porta fechada.

Naquela noite, Amélia percebeu que Joaquim não tinha medo de sentir saudades. Tinha medo de perder o conforto.

Mesmo assim, viajou.

Nos primeiros dias, ele ligou para perguntar onde estavam as toalhas, como funcionava a máquina de lavar e o que deveria cozinhar. Amélia respondeu apenas:

— Vais descobrir.

No sexto dia, Joaquim telefonou com uma voz diferente.

— Hoje fiz sopa. Ficou salgada. Sentei-me sozinho à mesa e percebi quantas vezes comi sem sequer te agradecer.

Quando Amélia voltou, não encontrou a cozinha desarrumada. Havia flores sobre a mesa e duas passagens para uma nova viagem.

— Desta vez vamos juntos — disse Joaquim. — Não porque preciso que cuides de mim, mas porque quero aprender a caminhar ao teu lado.

Amélia sorriu, mas estabeleceu uma condição: dali em diante, a vida seria dividida, não carregada apenas por ela.

Será que o amor basta quando uma pessoa dá tudo e a outra apenas se habitua a receber?

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MagistrUm
O que mantém duas pessoas unidas no casamento: os sentimentos sinceros, a rotina construída em conjunto ou os objetivos comuns?