A porta azul

Se naquele dia uma porta para o passado se tivesse aberto diante de Maria do Carmo, ela teria escolhido voltar a uma manhã de agosto de 1996.

Tinha então quarenta e sete anos e vivia numa aldeia perto de Braga. O marido, Joaquim, trabalhava numa oficina, e o filho único, Rui, preparava-se para partir para França.

Rui tinha vinte e dois anos. Dizia que em Portugal não encontrava futuro, que um primo lhe arranjara emprego numa empresa de construção nos arredores de Lyon.

Maria do Carmo passou a noite anterior a fazer rissóis, a dobrar camisas e a esconder notas dentro das meias do filho.

Na manhã da partida, discutiram.

— Não precisas de ir tão longe — insistiu ela. — O teu pai conhece pessoas. Arranja-se alguma coisa por aqui.

— Arranja-se sempre alguma coisa, mãe. Mas eu não quero passar a vida inteira à espera.

— E nós? Também ficamos à espera?

Rui fechou a mala com força.

— A mãe faz tudo parecer uma culpa.

Aquelas palavras ficaram entre os dois como uma parede.

Joaquim levou o filho à estação. Maria do Carmo ficou em casa, fingindo que estava zangada demais para se despedir.

Minutos depois, arrependeu-se. Correu pela rua com o avental ainda preso à cintura, mas o autocarro já tinha partido.

Durante anos, mãe e filho falaram ao telefone. Primeiro todas as semanas, depois uma vez por mês. Rui casou-se, teve uma filha e começou a trabalhar por conta própria.

Prometia visitar os pais no verão, mas havia sempre uma obra, uma prestação ou um problema.

Joaquim morreu sem voltar a abraçar o filho.

No funeral, Rui chegou quando o caixão já tinha sido fechado.

Maria do Carmo olhou para ele e disse:

— Chegaste tarde, como sempre.

Rui regressou a França dois dias depois.

Passaram-se onze anos sem se verem.

Quando Maria do Carmo completou setenta e oito anos, a neta, Sofia, veio a Portugal. Encontrou a avó sentada junto a uma velha porta azul que Joaquim tinha retirado da casa antes de morrer.

— Porque guardou esta porta?

— O teu avô dizia que um dia faria uma mesa com ela.

Sofia sentou-se ao lado dela.

— Se essa porta pudesse levá-la ao passado, a que dia voltava?

Maria do Carmo respondeu sem hesitar:

— À manhã em que o teu pai partiu.

— Para o impedir?

— Não. Para lhe dar um abraço. Os filhos têm de partir quando chega a hora. Mas uma mãe não deve deixá-los partir pensando que amar é o mesmo que prender.

Na manhã seguinte, alguém bateu à porta.

Era Rui.

Estava mais magro, com cabelos grisalhos e a velha mala castanha na mão.

— A Sofia contou-me o que disseste.

Maria do Carmo apertou o avental entre os dedos.

— E vieste por pena?

— Vim porque passei trinta anos à espera de voltar àquela manhã.

Nenhum dos dois pediu desculpa imediatamente.

Rui pousou a mala. Maria do Carmo tocou-lhe no rosto como fazia quando ele era menino.

Depois abraçaram-se no meio do corredor.

Mais tarde, Rui transformou a velha porta azul numa grande mesa para a cozinha.

No primeiro almoço em família, Maria do Carmo colocou sobre ela uma travessa de rissóis.

— Desta vez — disse — ninguém sai sem se despedir.


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