Teresa Almeida tinha cinquenta e três anos quando a vida lhe pregou a maior surpresa de todas.
Estava grávida.
Ficou sentada dentro do carro, num estacionamento em Coimbra, com o resultado das análises nas mãos.
Riu.
Depois chorou.
Depois voltou a rir.
Havia apenas dois meses que se divorciara de Manuel, depois de vinte e nove anos de casamento.
Tinham criado dois filhos.
Tinham pago juntos a casa.
Tinham atravessado doenças, desemprego e a morte dos pais.
Mas não tinham sobrevivido à indiferença.
Nos últimos anos, Manuel passava mais tempo no pequeno café que geria com o irmão do que em casa.
Quando Teresa lhe pediu que tentassem salvar o casamento, ele respondeu:
— Já estamos velhos para andar atrás de romances.
Foi nesse dia que alguma coisa morreu dentro dela.
Quando descobriu a gravidez, decidiu não lhe contar.
— Ele teve vinte e nove anos para perceber o meu valor — disse à melhor amiga. — Não vou bater-lhe à porta agora com uma criança nos braços.
Teresa mudou-se temporariamente para a casa da irmã, perto de Aveiro.
Começou a tricotar mantas.
Comprou um berço usado.
E tentou convencer-se de que não precisava de ninguém.
Até que, no sexto mês, recebeu uma carta.
Era de Manuel.
Não uma mensagem.
Uma carta escrita à mão.
“Teresa, sei que já é tarde para muitas coisas. Mas desde que saíste percebi que a casa não era silenciosa. Era vazia. E fui eu quem a esvaziou.”
Teresa chorou.
Mas não respondeu.
Uma semana depois, Manuel apareceu à porta.
Foi a irmã de Teresa quem abriu.
Ele trazia uma caixa com fotografias antigas.
Então viu Teresa descendo as escadas.
E viu a barriga.
A caixa caiu-lhe das mãos.
As fotografias espalharam-se pelo chão.
— Teresa…
Ela parou.
— Não.
— É meu?
Silêncio.
Manuel sentou-se no primeiro degrau.
Parecia ter envelhecido dez anos em poucos segundos.
— Há quanto tempo sabes?
— Quase seis meses.
— Seis meses?
Ele levou as mãos ao rosto.
— Ias deixar-me descobrir quando?
— Nunca.
Manuel levantou a cabeça.
Os olhos estavam cheios de lágrimas.
— Podes odiar-me como marido. Talvez eu mereça. Mas não tinhas o direito de me condenar como pai sem sequer me julgares.
Teresa nunca esqueceu aquela frase.
A filha nasceu numa madrugada chuvosa de janeiro.
Chamaram-lhe Clara.
O divórcio não foi anulado.
Teresa não voltou para Manuel.
Mas ele passou a participar de tudo.
Consultas.
Vacinas.
Noites mal dormidas.
Primeiros passos.
Anos depois, durante uma festa de aniversário, Clara correu pelo jardim gritando:
— Pai! Mãe! Venham ver!
Teresa e Manuel olharam um para o outro.
E Teresa pensou em como aquela criança quase crescera sem nunca poder chamar “pai” a ninguém.
Não porque ele tivesse escolhido ir embora.
Mas porque ela tinha escolhido por ele.
Será que a dor de uma mulher lhe dá o direito de esconder de um homem que ele vai ser pai?







