Dona Teresa já não aguentava mais.

Dona Teresa já não aguentava mais.

Era a terceira noite seguida em que os uivos vindos do apartamento ao lado atravessavam a parede e não a deixavam dormir.

Naquela madrugada, uma tempestade desabava sobre o Porto. A chuva castigava as janelas, os relâmpagos riscavam o céu e, sempre que trovejava, vinha aquele som comprido, desesperado.

— Vou lá — disse Teresa, levantando-se.

O marido, Joaquim, resmungou:

— A esta hora?

— Precisamente a esta hora.

Bateu à porta dos vizinhos já com um discurso pronto.

Quem abriu foi Sofia.

A jovem estava pálida, com os olhos vermelhos.

— Dona Teresa… desculpe. É o Max.

— Isto não pode continuar assim.

— Eu sei.

A voz de Sofia falhou.

— Amanhã a minha mãe vai ser operada ao coração. Tenho de estar no São João muito cedo. O Tiago está a trabalhar em Lisboa e só volta para a semana. Não sei como lidar com isto sozinha.

Outro trovão.

Um gemido saiu do interior do apartamento.

Teresa olhou.

Encolhido junto à parede estava um enorme pastor-alemão preto.

Tremia.

— Ele tem medo?

— Pânico.

Sofia explicou que o tinham adotado de uma associação. Os antigos donos deixavam-no preso num quintal, debaixo de chuva, e castigavam-no quando ladrava durante as tempestades.

Teresa engoliu em seco.

— Vá descansar.

— Como?

— Eu fico com ele.

Sofia quase riu de nervoso.

— A senhora?

Teresa percebeu a ironia.

Toda a gente no prédio sabia que ela evitava cães.

Desde criança tinha medo deles.

Mas naquela noite sentou-se no sofá e ficou frente a frente com Max.

— Não te armes em valente — murmurou. — Eu sei que estás assustado.

Um trovão explodiu.

Max correu para ela.

Teresa fechou os olhos.

Em vez de a atacar, o cão encostou a cabeça às suas pernas.

Ela sentiu-o tremer.

Devagar, pousou a mão sobre o pelo.

— Pronto… passou.

Não tinha passado.

Nem a tempestade nem o medo.

Mas pela primeira vez nenhum dos dois estava sozinho.

Passaram horas assim.

Teresa contou-lhe histórias da infância em Amarante, falou do filho que emigrara para França, da reforma, dos dias compridos em que Joaquim via futebol e ela se perguntava como a vida podia ficar tão silenciosa depois de tantos anos de correria.

De manhã, Max dormia encostado a ela.

Sofia voltou com boas notícias.

A cirurgia da mãe tinha corrido bem.

Depois disso, Teresa começou a visitar Max quase todos os dias.

Levava biscoitos.

Passeava-o.

Discutia com ele como se fosse uma pessoa.

— Não puxes! Tenho setenta anos, não vinte!

Joaquim observava tudo com ar divertido.

— Há três meses dizias que um cão dentro de casa era uma loucura.

— Continuo a achar.

— E esses brinquedos todos?

— Estavam em promoção.

Um mês mais tarde, Sofia apareceu à porta.

Tiago tinha sido transferido para Faro.

Tinham de mudar-se depressa.

A única casa que conseguiram arrendar naquele momento não aceitava animais.

— Talvez tenhamos de deixar o Max numa associação até encontrarmos solução.

Teresa ficou branca.

— Numa associação?

Naquela noite, Joaquim percebeu que ela não estava a ouvir uma palavra do telejornal.

— Trazemos o cão para cá.

Teresa virou-se.

— Estás maluco?

— Talvez.

— Ele é enorme.

— Já reparei.

— Vai estragar a casa.

— A casa tem quarenta anos. Sobrevive.

— E se eu não conseguir?

Joaquim pegou-lhe na mão.

— Já conseguiste.

Max mudou-se.

A adaptação teve os seus desastres.

Partiu um vaso.

Roubou um bife.

Dormiu na cama uma vez e decidiu que aquele lugar lhe pertencia.

Mas Teresa voltou a ter rotina.

Saía de casa duas vezes por dia.

Conheceu pessoas no jardim.

Começou a rir mais.

O filho, quando ligava de Lyon, dizia:

— Mãe, estás diferente.

— Tenho um personal trainer de quarenta quilos.

Na primeira tempestade, Max escondeu-se na cozinha.

Teresa sentou-se ao lado dele no chão.

— Olha para mim.

Ele ergueu os olhos.

— Ninguém te vai pôr lá fora.

Max aproximou-se.

Teresa abraçou-o.

— Nunca mais.

Meses depois, Sofia telefonou.

Tinham finalmente encontrado uma casa onde Max podia viver.

— Podemos ir buscá-lo no sábado.

Teresa disse:

— Claro.

Depois desligou e ficou muito tempo sentada no escuro.

No sábado, Sofia chegou com Tiago.

Max recebeu-os com uma alegria imensa.

Teresa tentou sorrir.

Tinha preparado uma mala com tudo.

— Aqui estão as coisas dele.

Sofia olhou para a mala.

— Não precisa de preparar nada.

— Como assim?

Sofia respirou fundo.

— Nós não viemos levar o Max.

Teresa ficou imóvel.

— Mas disseram…

— Encontrámos casa. Sim.

Sofia aproximou-se dela.

— Mas também percebemos que o Max encontrou a casa dele antes de nós.

Teresa começou a chorar antes mesmo de ouvir o resto.

— Ele ama-nos — continuou Sofia. — Mas consigo ele sente-se seguro de uma maneira diferente. E a senhora… também mudou.

Tiago tirou uma pasta da mochila.

— Trouxemos os documentos para passar o registo para o seu nome, se aceitar.

Teresa tapou o rosto.

Max aproximou-se e encostou-lhe o focinho.

— Aceitar? — disse Joaquim atrás dela. — Esta mulher já fez uma fotografia dele para pôr na carteira.

Todos riram.

Teresa abraçou Max com força.

— Ficas, ouviste? Agora já não te livras de mim.

Os anos passaram.

O pelo preto do focinho começou a ficar branco.

As caminhadas tornaram-se mais lentas.

Mas sempre que trovejava, Max procurava Teresa.

E Teresa procurava-o também.

Numa noite de inverno, um trovão distante fez vibrar os vidros.

Max levantou a cabeça.

Teresa estendeu a mão.

— Estou aqui.

Ele pousou a pata na perna dela.

Teresa sorriu.

Naquela noite, muitos anos antes, ela atravessara o corredor irritada com um cão que não a deixava dormir.

Achava que ia exigir silêncio.

Não fazia ideia de que, atrás daquela porta, estava à espera uma criatura tão assustada como ela própria.

Max tinha medo dos trovões.

Teresa tinha medo de cães.

Mas havia ainda outro medo, mais silencioso, que ela nunca confessara: o de envelhecer sem ser necessária para ninguém.

Foi esse medo que Max curou.

Porque às vezes não somos nós que salvamos um animal.

Às vezes ele entra na nossa vida, ocupa o sofá, enche a casa de pelos e, sem pedir licença, salva exatamente a parte de nós que ninguém sabia que estava perdida.


Rate article
MagistrUm
Dona Teresa já não aguentava mais.