Chamava-me Pérola e vivia com Leonor num apartamento antigo em Coimbra. Ela dizia que eu parecia uma bola de algodão com olhos. Eu seguia-a por toda a casa, dormia junto aos pés da cama e esperava-a diariamente atrás da porta.
A nossa vida era simples, mas feliz.
Até ao dia em que uma ratazana pequena atravessou o átrio do prédio. A porta da rua estava aberta. Corri atrás dela sem hesitar.
Bastaram alguns segundos para perder tudo o que conhecia.
Quando parei, estava entre carros, motas e pessoas apressadas. O cheiro de casa desaparecera. Tentei voltar, mas cada rua parecia levar-me para mais longe.
Ao fim da tarde, começou a chover. Refugiei-me por baixo de um banco num jardim. Estava encharcada, com fome e demasiado assustada para sair.
Foi ali que o senhor Joaquim me encontrou.
Usava um casaco de lã castanho, um boné antigo e trazia um saco com pão, queijo e duas douradas pequenas. Ajoelhou-se com dificuldade.
—Ó minha linda, o que fazes aqui sozinha?
Recuei.
Ele não tentou agarrar-me. Tirou um pedaço de peixe do saco, colocou-o no chão e sentou-se à espera.
—Come. Não tenhas medo. Eu também já tive medo de voltar para uma casa vazia.
A fome venceu. Aproximei-me e comi.
Joaquim envolveu-me cuidadosamente no casaco e levou-me para o seu apartamento. Lá dentro havia estantes cheias de livros, um rádio antigo e uma fotografia de uma mulher de cabelo grisalho.
—Esta é a minha Rosa, disse. — Ela teria arranjado logo um nome para ti. Eu nunca fui bom nessas coisas.
Secou-me com uma toalha, aqueceu leite e improvisou uma cama numa caixa de cartão.
Durante a noite, ouvi-o tossir no quarto. Subi para a cama e deitei-me junto ao seu peito.
Joaquim abriu os olhos.
—Então não gostaste da caixa?
Comecei a ronronar.
—Está bem. Mas só esta noite.
Na manhã seguinte, telefonou para clínicas veterinárias e associações. Perguntou nos cafés da rua e ao carteiro. Ninguém sabia de onde eu viera.
Leonor, entretanto, procurava-me sem descanso. Colocou cartazes, publicou fotografias e percorreu ruas com uma lata de comida na mão.
“DESAPARECEU A PÉROLA. É branca, pequena e muito amada. Por favor, ajudem-me a trazê-la para casa.”
Joaquim viu o anúncio ao oitavo dia, preso a um poste perto do mercado.
Reconheceu-me de imediato.
Regressou a casa devagar. Eu esperava por ele à janela.
—Afinal tens nome.
Saltitei na sua direção.
—E tens alguém que não desistiu de ti.
Pegou no telefone, mas demorou horas a marcar o número. Naqueles dias, começara a abrir as persianas de manhã. Voltava a cozinhar. Falava comigo enquanto arrumava a loiça. Pela primeira vez desde a morte de Rosa, havia uma razão para regressar depressa das compras.
Mesmo assim, ligou.
Leonor apareceu pouco depois. Quando a porta se abriu, ouvi a sua voz.
—Pérola!
Corri para ela. Leonor sentou-se no chão, apertou-me contra o peito e desatou a chorar.
—Minha menina… pensei que nunca mais te encontrava.
Joaquim ficou junto à janela.
—Foi o senhor que a salvou?
—Dei-lhe comida. O resto fez ela.
Leonor olhou em volta. Viu a manta dobrada no sofá, as tigelas e um brinquedo feito com uma meia velha.
—Ela fez-lhe companhia.
Joaquim encolheu os ombros.
—A companhia acaba sempre por ir embora.
Leonor levantou-se com os olhos ainda molhados.
—Só se ninguém voltar.
No domingo seguinte, regressou comigo. Levou uma travessa de arroz-doce. Joaquim fingiu surpresa, mas tinha comprado sardinha fresca para mim.
A partir daí, passámos a visitá-lo todas as semanas. Leonor ajudava-o com as consultas e os papéis. Ele consertava móveis, contava histórias e ensinava-lhe receitas de Rosa.
Quando Leonor começou a trabalhar até tarde, Joaquim ficou responsável por mim. Dizia aos vizinhos que era apenas “um favor”. No entanto, tinha fotografias minhas no frigorífico e comprou uma almofada só para eu dormir.
No Natal, Leonor convidou-o para a ceia.
—Não quero incomodar a sua família, respondeu ele.
—O senhor faz parte dela.
Joaquim baixou os olhos.
—Não sou nada vosso.
Leonor apontou para mim, instalada no colo dele.
—Também ela não era, quando a encontrou. E olhe para nós agora.
Anos mais tarde, Joaquim adoeceu. Precisou de uma cirurgia e ficou várias semanas internado. Leonor ia vê-lo todos os dias. Levava vídeos meus a andar pela casa à procura dele.
—Ela ainda se lembra de mim? perguntou.
—Senta-se junto à porta à hora em que o senhor costumava chegar.
Joaquim virou o rosto para esconder as lágrimas.
Quando regressou, os vizinhos tinham decorado o corredor com pequenos papéis onde se lia “Bem-vindo”. Leonor esperava com uma sopa quente. Eu estava sentada em cima do seu velho boné.
Joaquim entrou, deixou a mala no chão e abriu os braços.
Corri para ele.
—Pensava que te tinha dado uma casa, disse, apertando-me contra o peito. — Mas foste tu que me devolveste uma.
No último verão da sua vida, sentávamo-nos os três numa varanda pequena. Leonor lia, Joaquim adormecia ao sol e eu ficava entre os dois.
Antes de morrer, pediu que a fotografia de Rosa fosse colocada ao lado de uma fotografia nossa.
—Assim ninguém pensa que estive sozinho, disse.
Não esteve.
Por vezes, um animal perde o caminho durante alguns dias. Um ser humano pode andar perdido durante anos sem que ninguém perceba.
Eu saí de casa atrás de um rato.
E encontrei um homem que precisava que alguém o levasse de volta à vida.







