O Tiago já estava há três semanas em casa da avó Maria, numa rua calma de Coimbra, e ainda se sentia como se tivesse sido deixado ali por engano

O Tiago já estava há três semanas em casa da avó Maria, numa rua calma de Coimbra, e ainda se sentia como se tivesse sido deixado ali por engano. A casa era pequena, cheia de vasos na varanda, toalhas de renda nas mesas e um relógio antigo que fazia tique-taque alto demais quando a noite ficava silenciosa.

A avó tentava puxar conversa.

— Queres vir comigo ao mercado, Tiaguinho?

— Não.

— Fiz arroz de pato. Gostavas tanto.

— Não tenho fome.

— Os miúdos do prédio estão lá em baixo. Podias ir um bocadinho.

— Não me apetece.

Maria não insistia muito. Punha-lhe o prato na mesa, ajeitava-lhe a almofada no sofá e fingia que não via a tristeza atrás da cara fechada.

Mas o Tiago sabia que ela via.

Era isso que o irritava.

O pai tinha saído de casa para viver com a Sílvia. A mãe trabalhava até tarde numa pastelaria e dizia ao telefone:

— Filho, a mãe tem de trabalhar. As contas não esperam.

Só que o Tiago também não esperava. Ele estava ali, com doze anos, a tentar perceber como é que uma família podia partir-se numa quinta-feira qualquer e, no dia seguinte, toda a gente continuar a pedir-lhe que fosse bem-comportado.

Tinham-no mandado para a avó „só durante o verão”.

Só.

Como se o verão não fosse enorme quando uma pessoa se sente abandonada.

E depois apareceu o gato.

Todas as noites, debaixo da janela, começava aquela cantoria rouca:

— Miaaau! Miaaau!

Tiago virava-se na cama. Tapava os ouvidos. Puxava a almofada para cima da cabeça. Nada resultava. O gato continuava ali, a miar como se o mundo inteiro lhe devesse uma explicação.

Na manhã seguinte, entrou na cozinha mal-humorado.

— Avó, tens de fazer alguma coisa àquele gato.

Maria estava a cortar pão.

— Que gato?

— O ruivo. O que grita a noite toda.

— Coitadinho. Deve ter fome.

— Coitadinho sou eu, que não durmo.

A avó abriu o frigorífico e tirou um bocadinho de fiambre.

— Vou dar-lhe qualquer coisa.

— Não faças isso! Se lhe deres comida, ele fica.

— Talvez precise de ficar.

— Mas eu não preciso dele aqui.

Maria olhou para o neto com uma tristeza mansa.

— Às vezes, quem mais diz que não precisa de ninguém é quem mais precisava que alguém ficasse.

Tiago sentiu a cara aquecer.

— Estás a falar de mim ou do gato?

— Dos dois, talvez.

Ele saiu da cozinha e bateu com a porta do quarto.

Dois dias depois, caiu uma chuvada forte. Aquelas chuvas de verão que começam sem pedir licença e lavam a rua inteira. Tiago estava no sofá, mas não conseguia concentrar-se no telemóvel. Ouvia o gato. Só que, dessa vez, o miado vinha fraco. Tão fraco que parecia frio.

A avó levantou-se.

— Onde vais?

— Já venho.

Quando voltou, vinha com o casaco molhado e um embrulho nos braços. O embrulho mexia.

— Não — disse Tiago. — Nem penses.

Maria abriu a toalha velha e apareceu o gato ruivo. Magro, encharcado, com lama nas patas e uma mancha branca no peito. Tremia, mas ronronava baixinho.

— Estava debaixo das escadas. Todo molhado.

— E então? É um gato da rua.

— É um ser vivo.

— Eu não vou viver com ele.

O gato saltou para o chão, abanou-se e caminhou para a cozinha como se tivesse recebido convite formal.

— Parece que ele já decidiu, disse a avó.

— Pois eu não decidi.

Maria pousou a toalha no cesto.

— Tiago, ninguém te perguntou se querias vir para aqui, pois não?

Ele ficou quieto.

— Eu sei que isso te dói. Mas talvez por isso mesmo devas entender melhor do que ninguém como é estar à porta de uma casa e não saber se alguém nos deixa entrar.

Tiago engoliu a resposta. Não queria chorar. Não à frente dela.

O gato ficou. Chamaram-lhe Chico, porque, segundo a avó, „um gato ruivo com aquela cara só podia ser Chico”. Tiago achou ridículo. Mas, sem perceber, começou a usar o nome.

— Avó, o Chico está em cima da minha mochila.

— Então tira-o.

— Ele arranha.

— Não arranha nada. Só quer atenção.

— Pois que vá querer atenção para outro lado.

Chico não ia. Sentava-se à porta do quarto de Tiago, seguia-o com os olhos e, quando o rapaz passava, roçava-lhe a cauda na perna como quem diz: „Ainda aqui estou.”

Na semana seguinte, Tiago adoeceu. Tinha ido ao minimercado sem guarda-chuva e apanhara a chuvada no caminho. Acordou com febre, garganta inflamada e o corpo todo dorido.

A avó trouxe-lhe chá de limão com mel, mediu-lhe a temperatura e ligou para o centro de saúde.

— Ficas na cama.

— Não preciso.

— Precisas, sim.

— Tu gostas é de mandar.

— Gosto é de te ter aqui inteiro.

A frase desarmou-o.

A mãe telefonou ao almoço.

— Meu amor, a avó disse que estás com febre.

— Estou.

— Hoje não consigo ir, mas amanhã tento.

— Estás sempre a tentar.

— Tiago…

— Tenho sono.

Desligou antes que a voz lhe falhasse.

Ficou sozinho no quarto, deitado de lado, zangado com tudo. Com a mãe. Com o pai. Com a avó, por ser boa demais. Com o gato, por ter encontrado lugar naquela casa mais depressa do que ele.

Então ouviu um salto leve.

Chico subiu para a cama.

— Sai.

O gato aproximou-se pela manta, deu duas voltas e deitou-se sobre o peito de Tiago. Começou a ronronar.

— Sai, já disse.

Mas a mão do rapaz não o empurrou. Ficou pousada no pelo quente. O ronronar parecia vir de dentro dele. Uma vibração calma, insistente, que lhe soltava nós que ele nem sabia que tinha.

— O meu pai foi embora — sussurrou.

Chico fechou os olhos.

— E a minha mãe mandou-me para aqui.

O gato continuou a ronronar.

— Eu acho que ninguém me quis.

Foi aí que chorou. Sem barulho. Com vergonha. Mas chorou como não tinha chorado desde o dia em que viu a mala do pai junto à porta.

Chico não se mexeu.

Quando Maria voltou da farmácia, encontrou o neto adormecido e o gato em cima dele, como um pequeno guardião ruivo. Ficou parada à porta, com o saco dos remédios na mão, e limpou uma lágrima com as costas dos dedos.

A febre baixou nessa noite.

Na manhã seguinte, Tiago acordou com Chico enrolado junto aos seus pés.

— Avó?

— Sim?

— Achas que ele teve uma casa antes?

— Talvez.

— Então porque é que o deixaram na rua?

Maria demorou a responder.

— Há pessoas que perdem o caminho. E há pessoas que fazem os outros perdê-lo também. Mas isso não quer dizer que quem ficou na rua não mereça casa.

Tiago olhou para o gato.

— Ele não mia assim por ser chato, pois não?

— Não. Mia porque queria que alguém ouvisse.

A partir daí, o verão mudou. Tiago passou a dar comida ao Chico. Depois começou a levá-lo ao pátio. O gato andava atrás dele como uma sombra ruiva e sentava-se no banco enquanto o rapaz olhava os outros miúdos jogar à bola.

Um dia, dois irmãos do prédio ao lado aproximaram-se.

— O teu gato é fixe, disse o mais novo. — Posso fazer festas?

— Se ele deixar.

Chico deixou.

— Queres jogar connosco? perguntou o mais velho. — Falta-nos um.

Tiago ia dizer que não. Era sempre o mais fácil. Mas Chico saltou do banco e sentou-se junto à bola, muito sério.

— Parece que ele quer que eu jogue, disse Tiago.

E jogou.

No fim de agosto, a mãe chegou num sábado à tarde. Vinha com olheiras, um saco de pêssegos e uma coragem triste no rosto.

— Filho.

Tiago estava na varanda, com Chico ao colo.

— Vieste buscar-me?

A mãe respirou fundo.

— Vim pedir-te desculpa primeiro.

Ele não esperava aquilo.

— Porquê?

— Porque te fiz sentir que eras um problema. Nunca foste. Eu é que estava perdida. O teu pai saiu, eu fiquei com medo, agarrei-me ao trabalho e achei que te estava a proteger ao trazer-te para a avó. Mas não te expliquei. Não te abracei. Não te ouvi.

Tiago olhou para baixo.

— Eu pensei que me tinhas despachado.

— Eu sei. E isso vai doer-me muito tempo.

Chico roçou a cabeça no queixo do rapaz.

— Ele vai comigo.

A mãe olhou para o gato. Depois para Maria, que estava à porta da cozinha.

— Vai?

— Vai. Ele também foi deixado.

A mãe chorou.

— Então vai. Mas cuidas dele.

— Cuido.

— E deixas-me cuidar de ti?

Tiago não respondeu logo. Depois aproximou-se e encostou a testa ao ombro dela.

— Podes tentar.

No domingo, quando se despediram da avó, Maria pôs-lhe nas mãos uma caixa com rissóis, um frasco de doce e a mantinha onde Chico dormia.

— Para ele não estranhar tanto.

Tiago abraçou-a.

— Avó, obrigado por não o mandares embora.

Maria apertou-o contra si.

— Obrigada tu por voltares a abrir o coração.

No carro, Chico miava dentro da transportadora. Tiago enfiou os dedos pela grade.

— Calma. Vamos para casa.

Disse „casa” e, pela primeira vez em muito tempo, a palavra não lhe pareceu partida.

A vida não ficou perfeita. O pai não voltou. A mãe ainda chegava cansada. Houve conversas difíceis, contas em cima da mesa e noites em que a saudade fazia barulho. Mas agora havia também um gato ruivo no sofá, um rapaz que já não escondia tudo atrás do ecrã e uma mãe que, mesmo cansada, se sentava ao lado dele.

E Tiago aprendeu que, às vezes, quem aparece a miar à nossa janela não vem atrapalhar a nossa dor. Vem mostrar que ainda existe alguém capaz de nos ouvir.

Mesmo quando a nossa tristeza faz barulho demais.

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MagistrUm
O Tiago já estava há três semanas em casa da avó Maria, numa rua calma de Coimbra, e ainda se sentia como se tivesse sido deixado ali por engano