Tenho cinquenta e quatro anos e já não procuro um príncipe encantado. Talvez aos vinte acreditasse que o amor vinha com grandes promessas, flores inesperadas e aquele brilho todo que a gente vê nos filmes. Hoje, depois de um casamento, um divórcio, uma filha criada e algumas noites em que chorei baixinho para não preocupar ninguém, eu procuro uma coisa muito mais rara: um homem presente.
Não perfeito. Presente.
Conheci o António num site de encontros. Tinha cinquenta e seis anos, vivia em Coimbra, era divorciado e dizia que trabalhara muitos anos numa empresa de seguros. A fotografia era simples: camisa clara, cabelo grisalho, um sorriso contido. Não havia poses ao lado de carros, nem óculos escuros dentro de casa, nem frases ridículas sobre “viver intensamente”. Isso, só por si, já me pareceu um bom começo.
Ele escreveu primeiro.
“Helena, o seu perfil tem uma coisa que quase já não se encontra: calma.”
Sorri ao ler. Talvez fosse uma frase preparada. Talvez ele dissesse aquilo a todas. Mas naquele fim de tarde, sentada na cozinha com uma chávena de chá e a chuva a bater nos vidros, apeteceu-me acreditar que não.
Durante algumas semanas falámos muito. Sobre livros, viagens, filhos crescidos, restaurantes pequenos onde ainda se come sopa como deve ser. O António escrevia bem. Não era daqueles homens que respondem com duas palavras e esperam que a mulher carregue a conversa às costas. Encontrámo-nos duas vezes no centro, uma para café, outra para passear junto ao Mondego. Foi agradável. Tranquilo. Sem pressa.
Havia, no entanto, uma coisa que começou a aparecer como uma pedra no sapato. Pequena primeiro. Depois impossível de ignorar.
O António adorava falar de si. Mas não do António de agora. Do António de há vinte anos.
Qualquer conversa acabava por escorregar para lá. Antigamente levantava-se às cinco da manhã para correr antes do trabalho. Antigamente trabalhava até de madrugada e no dia seguinte parecia fresco como uma alface. Antigamente fazia ginásio, tinha ombros largos, resistência, energia. Antigamente, quando entrava numa sala, as mulheres reparavam.
Nesta parte, fazia sempre uma pausa. Baixava os olhos, sorria de lado, como se estivesse a ser discreto. Mas era uma discrição com luzes de palco.
— As mulheres perdiam a cabeça por mim, Helena — disse-me uma tarde. — Não estou a gabar-me. Era assim.
Eu acenei. O que havia de fazer? Todos temos memórias que polimos com cuidado. Eu também tenho fotografias antigas, de vestido leve e cabelo escuro, em que pareço uma mulher que ainda não sabe quantas vezes vai ter de se reconstruir. Também me lembro do tempo em que atravessava uma rua e sentia olhares. Não sou hipócrita.
Mas uma coisa é ter passado. Outra é viver dentro dele e convidar alguém apenas para assistir.
Numa sexta-feira, o António convidou-me para jantar em casa dele.
— Cozinho eu — disse ao telefone. — Ainda sei impressionar uma mulher.
— Isso soa perigoso — brinquei.
— Soa a promessa.
Vesti uma saia preta e uma blusa verde, pus um perfume discreto e comprei uma sobremesa numa pastelaria de que gosto. Não queria chegar de mãos vazias. No caminho, dentro do autocarro, senti aquela mistura estranha de esperança e prudência que as mulheres da minha idade conhecem tão bem. A gente quer acreditar, mas leva sempre um casaco a mais para o caso de arrefecer.
O apartamento dele ficava numa rua calma. Estava limpo, arrumado, com livros numa estante e fotografias em molduras. A mesa estava posta com cuidado. Guardanapos de pano. Velas. Dois copos para cada um. Na cozinha cheirava a carne assada, alecrim e vinho tinto.
— Está muito bonita — disse ele, ao abrir a porta.
— Obrigada. O António também está elegante.
Ele olhou para a própria camisa e suspirou.
— Agora é só tentar disfarçar. Devia ter-me visto há vinte anos.
Ri-me, porque pensei que fosse uma piada passageira.
Não era.
O jantar estava bom. Muito bom, até. Sopa cremosa, carne tenra, legumes assados, vinho decente, café no fim. Eu sentia que ele se tinha esforçado, e isso tocou-me. Há qualquer coisa de bonito num homem que cozinha para receber uma mulher. Durante uns minutos, deixei-me ficar naquela luz quente, naquela música baixa, pensando: talvez ainda seja possível.
Mas o António falou.
À sopa contou como era incansável no trabalho. À carne contou como uma colega casada lhe deixava bilhetes na secretária. Ao vinho falou de uma viagem ao Algarve em que, segundo ele, três mulheres se apaixonaram na mesma semana. À sobremesa, inclinou-se para mim e disse:
— Eu era um homem muito apaixonado. Muito intenso. As mulheres sentiam isso.
Disse “intenso” com uma saudade tão teatral que quase me apeteceu olhar para trás para ver se havia público.
Fiquei com a colher parada sobre o prato. De repente percebi o que me incomodava. Eu não estava num jantar. Estava numa visita guiada a um museu. Tema da exposição: “António nos seus anos dourados”. Entrada gratuita. Saída difícil.
— António — disse devagar — posso fazer-lhe uma pergunta?
— Claro.
— E agora?
Ele franziu a testa.
— Agora o quê?
— Quem é o António agora? O que o alegra? O que o assusta? O que ainda quer viver?
Ele pousou o copo.
— Helena, não compliquemos. Estou só a contar-lhe a minha vida.
— Não. Está a contar-me uma parte da sua vida. Sempre a mesma.
Ele ficou calado. Depois riu, mas sem alegria.
— Então incomoda-a que eu tenha sido um homem desejado?
— Não me incomoda o que foi. Incomoda-me que pareça não haver espaço para o que é.
Depois do jantar, levantou-se como se tivesse encontrado a solução.
— Espere. Vou mostrar-lhe umas coisas.
Voltou com uma caixa de fotografias. Fotografias antigas, em papel, algumas já gastas nos cantos. António na praia, bronzeado, forte. António de fato numa festa. António com uma mulher loura encostada ao ombro. António numa esplanada com duas raparigas a rir. António ao lado de um carro vermelho, como se o carro também tivesse de testemunhar a sua glória.
— Esta era a Teresa. Perdidinha por mim. Esta é a Marta, do Porto. Ainda me escreveu durante meses. Aqui foi no verão de 2002. Eu nessa altura tinha uma energia…
Folheava as fotografias com a delicadeza de quem manuseia relíquias. E esperava. Talvez esperasse ciúme. Talvez admiração. Talvez que eu dissesse: “Meu Deus, que homem.”
Mas eu só sentia uma tristeza enorme.
— António, porque me está a mostrar isto?
— Para perceber quem eu fui.
— Eu vim para conhecer quem o senhor é.
Ele endireitou-se.
— Isso é injusto.
— Talvez. Mas é verdade.
— As mulheres hoje não têm paciência para nada.
— As mulheres hoje talvez tenham menos vontade de desaparecer.
Ele olhou-me, ferido.
— Eu não a fiz desaparecer.
— Fez. Durante a noite inteira. Eu estava aqui, mas a conversa era sempre entre si e o seu passado.
A sala ficou silenciosa. A vela tremia. Lá fora, um carro passou devagar na rua molhada. Vi naquele momento que o António não era apenas vaidoso. Era assustado. Um homem que tinha envelhecido sem saber como continuar a sentir-se homem. Um homem que carregava fotografias como outros carregam medalhas, com medo de que, se as pousasse, ninguém o visse.
Senti compaixão. Muita. Mas a compaixão não chega para construir intimidade.
Levantei-me.
— Obrigada pelo jantar. Estava muito bom.
— Vai-se embora?
— Vou.
— Por causa de umas histórias antigas?
— Não. Porque eu já não quero ser plateia.
Ele ficou vermelho.
— Na nossa idade, Helena, convém não sermos tão exigentes.
Peguei no casaco, respirei fundo e respondi:
— Na nossa idade, convém sermos finalmente exigentes com o que nos resta da vida.
Saí sem bater a porta.
A noite estava fria. Coimbra brilhava depois da chuva, e as pedras da calçada pareciam guardar todas as conversas que ninguém teve coragem de terminar. Caminhei devagar até à paragem. Havia casais novos a passar, estudantes a rir, uma senhora com sacos de supermercado. O mundo continuava, simples e indiferente.
Eu não chorei na rua. Só senti um vazio calmo. Como quando se fecha um livro bonito, mas se percebe que não era a nossa história.
Em casa, fiz chá de cidreira. Tirei os brincos, lavei a cara, calcei as pantufas. A minha cozinha estava desarrumada, com uma chávena da manhã ainda no lava-loiça e uma lista de compras presa no frigorífico. E, no entanto, pareceu-me o lugar mais honesto do mundo.
O telefone vibrou.
“Pensei que fosse uma mulher mais compreensiva.”
Fiquei a olhar para a mensagem. Antigamente teria respondido com cuidado. Teria explicado que não quis magoar, que talvez eu tivesse interpretado mal, que ele era simpático, que o jantar estava ótimo. Teria tentado salvar a noite para não deixar um homem sentir-se rejeitado.
Mas há uma idade em que a gente já não consegue trair-se com tanta facilidade.
Escrevi:
“Compreender não é desaparecer.”
E não respondi mais.
Nessa noite chorei um pouco. Não por António. Chorei pelas muitas vezes em que aceitei pouco e ainda agradeci. Pelas vezes em que me sentei à mesa de alguém e ouvi, ouvi, ouvi, enquanto a minha própria vida ficava dobrada no colo como um guardanapo usado.
De manhã, quando abri a janela, entrou ar frio e cheiro a pão da padaria da esquina. O céu estava limpo. Olhei para mim no espelho do corredor. Vi rugas, sim. Vi cansaço. Vi uma mulher que já não tem a cintura de antes nem a ingenuidade de antes. Mas também vi olhos vivos.
E isso bastou.
Porque eu não quero um homem sem passado. Ninguém chega aos cinquenta sem passado. Quero apenas um homem que não tenha medo do presente. Que saiba dizer: “Fui jovem, fui desejado, errei, perdi coisas, tenho medo de envelhecer.” Um homem que, em vez de me mostrar provas de quantas mulheres o quiseram, me pergunte como eu sobrevivi aos dias em que ninguém me viu.
Até lá, não me sinto incompleta. A minha casa não é um castigo. O meu silêncio não é derrota. A minha mesa, mesmo com um só prato, continua a ser minha.
E se um dia outro homem se sentar diante de mim, que venha inteiro. Não como monumento. Não como fotografia. Não como lenda de si mesmo.
Que venha vivo.
Porque eu, aos cinquenta e quatro anos, ainda estou viva demais para amar um fantasma.





