Dona Teresa, de Coimbra, tinha 59 anos quando voltou a usar batom vermelho.
Não foi para uma festa. Não foi para impressionar ninguém. Foi numa terça-feira comum, antes de sair para comprar pão. Olhou-se ao espelho, passou o batom devagar e, pela primeira vez em muitos anos, não desviou o olhar.
— Ainda estou aqui, — murmurou.
Durante trinta anos, Teresa tinha sido esposa, mãe, cuidadora, cozinheira, enfermeira da família inteira. O marido, António, nunca foi cruel, mas também nunca a olhou como mulher. Quando ele morreu, todos esperavam que ela vestisse preto por dentro para sempre.
A filha dizia:
— Mãe, agora descansa. Já não precisas de pensar nessas coisas.
Essas coisas eram amor. Companhia. Um abraço. Uma mão sobre a mesa.
Teresa conheceu Manuel numa biblioteca municipal. Ele procurava um livro de Miguel Torga e ela, sem pensar, corrigiu-lhe o título. Ele sorriu.
— A senhora lê muito?
— Leio para não falar sozinha, — respondeu ela.
Manuel não riu. Apenas disse:
— Então talvez possamos falar os dois.
Começaram a encontrar-se aos sábados. Caminhavam junto ao Mondego, tomavam café, falavam dos filhos, dos mortos, dos arrependimentos e das pequenas alegrias que ainda restavam.
Manuel era viúvo. Tinha 63 anos e uma ternura discreta. Nunca tentou ocupar o lugar de ninguém. Apenas criou um lugar novo.
Quando pediu Teresa em casamento, ela ficou sem voz.
— Casar? Na nossa idade?
— Na nossa idade já não vale a pena perder tempo com medo, — respondeu ele.
A família reagiu mal. O filho disse que era ridículo. A nora comentou que talvez Manuel quisesse apenas a casa dela. Até a vizinha perguntou se ela não tinha vergonha.
Na noite anterior ao casamento, Teresa quase desistiu. Sentou-se na beira da cama, com o vestido pendurado na porta, e chorou como uma rapariga assustada.
Então Manuel telefonou.
— Teresa, se amanhã quiseres fugir, eu fujo contigo. Mas não fujas de ti.
No dia seguinte, ela entrou na conservatória com um vestido creme e o batom vermelho. Quando Manuel a viu, levou a mão ao peito.
— Estás linda.
E Teresa acreditou.
Depois dos cinquenta, a mulher já sabe distinguir promessa vazia de cuidado verdadeiro. Já não quer tempestades. Quer paz. Quer respeito. Quer alguém que escolha ficar.
Será ingenuidade casar depois dos cinquenta? Ou será, finalmente, escolher-se a si mesma?



