Os vizinhos do prédio antigo, numa rua calma de Coimbra, pensaram durante meses que o senhor António se tinha ido embora

Os vizinhos do prédio antigo, numa rua calma de Coimbra, pensaram durante meses que o senhor António se tinha ido embora. Talvez para casa da filha, em Aveiro. Talvez para uma residência. Talvez para qualquer lugar onde os velhos desaparecem devagar, sem que ninguém saiba exatamente quando deixaram de fazer parte dos dias.

No começo ainda perguntavam à dona Celeste, do segundo andar, porque ela sabia tudo no prédio. Quem recebia encomendas, quem discutia à noite, quem deixava o lixo fora de horas. Depois deixaram de perguntar. A ausência dos outros, quando não incomoda, acaba por se tornar uma peça da mobília.

Do apartamento de António Matias vinha apenas, de vez em quando, o arrastar dos chinelos no chão, uma torneira a correr por poucos segundos e a televisão ligada sem som. Ele ficava sentado no cadeirão, olhando para o ecrã como quem olha para uma lareira apagada. Não queria ouvir vozes. Já lhe bastavam as que lhe apareciam por dentro.

O relógio de parede da cozinha estava parado nas quatro e doze. Fora comprado por Clara, a mulher dele, numa feira em Viseu muitos anos antes. António não se lembrava do dia em que o relógio parou. Só sabia que tinha sido pouco depois do funeral. Na altura, chegou a pegar na chave para lhe dar corda. Depois pousou-a numa gaveta e nunca mais tocou nela.

O pêndulo ficou suspenso, quieto, como se também ele tivesse perdido alguém.

Clara não suportaria ver aquilo. Ela, que passava um pano nos móveis mesmo quando não havia pó. Ela, que abria as janelas todas as manhãs, até em janeiro. Ela, que dizia:
— Uma casa fechada começa a entristecer as paredes, António.

Agora as paredes estavam tristes. E António também.

De três em três dias descia até ao Pingo Doce da esquina. Comprava pão, arroz, chá em saquetas, fiambre barato e leite. Cumprimentava a menina da caixa com a cabeça e voltava pelo mesmo caminho. Subia até ao quarto andar pelas escadas, porque o elevador, depois da reparação, fazia um ruído metálico que o irritava. A verdade, porém, era outra: ele preferia chegar devagar a uma casa onde ninguém o esperava.

— Desde que a dona Clara morreu, ele apagou-se, dizia dona Celeste em voz baixa. — Já lá vai ano e meio. Antes era sempre tão direito, camisa passada, bom dia para toda a gente. Agora passa por nós como se viesse de muito longe.

António ouvia às vezes essas palavras no patamar. Não se zangava. Havia frases que doíam só porque eram verdade.

O gato apareceu numa quarta-feira de outubro, junto aos contentores do lixo no pátio.

Estava encolhido perto da grade da cave, colado à parede. Cinzento, manchado de ferrugem e lama. Um olho fechado, a orelha esquerda rasgada, a cauda torta junto à base, como se alguém a tivesse dobrado e o mundo se tivesse esquecido de a endireitar. Era tão magro que as costelas se adivinhavam debaixo do pelo.

António passou por ele. Deitou o saco no contentor. Deu dois passos em direção à entrada e parou.

Uma lâmpada fraca iluminava o pátio. Naquela luz, o gato não parecia feroz. Parecia cansado. Tão cansado que isso fez António voltar.

Agachou-se a alguma distância. Os joelhos estalaram.
— Então, rapaz? Estás com frio?

O gato abriu o único olho bom. Olhou para ele sem fugir. Não havia esperança naquele olhar. E talvez tenha sido isso que mais feriu António.

Subiu a casa, pôs leite num pires e cortou um pedaço de fiambre. Desceu outra vez, de chinelos, sem pensar no ridículo. Colocou o pires perto da grade e afastou-se.

O gato esperou até ele se afastar vários passos. Depois aproximou-se e comeu devagar. Sem pressa. Como quem aprendeu que a fome não se vence com desespero, mas com paciência.

— Amanhã volto, disse António. — À mesma hora.

Voltou mesmo.

No dia seguinte. No outro. E no outro ainda.

Ao quinto dia, já não fingia que ia ali por acaso. Comprava saquetas de comida, aquecia um pouco de arroz com frango desfiado, levava tudo numa tigela de cerâmica que Clara usava para servir tremoços quando vinham visitas. O gato começou a sentar-se mais perto. Primeiro a dois metros. Depois a um. Depois deixou que António lhe tocasse no alto da cabeça com um dedo.

— Tens cor de fumo, disse-lhe uma tarde. — E apareceste como nevoeiro. Vou chamar-te Nuvem.

O gato piscou o olho. António decidiu que estava aprovado.

Na semana seguinte veio a primeira chuva fria, misturada com granizo. O pátio cheirava a cimento molhado, folhas podres e roupa húmida. Nuvem estava no sítio de sempre, mas tremia tanto que o pelo se levantava em tufos.

António pousou a tigela e ficou a olhar para ele. Sentiu uma revolta súbita. Contra a idade, contra a morte, contra os dias em que um ser vivo pode estar a sofrer ao lado de uma parede e o mundo continuar a passar.

— Pronto, acabou, murmurou. — Vais comigo.

Tirou o casaco. O gato soprou e tentou fugir quando António o envolveu. Cravou as unhas na lã, debateu-se, arranhou-lhe a mão. Depois ficou mole de repente. Talvez por cansaço. Talvez porque, às vezes, a salvação chega com um susto.

António subiu os quatro andares devagar, segurando o embrulho vivo contra o peito. No patamar encontrou dona Celeste, que saía com o lixo.
— Senhor António, o que leva aí?
— Um gato.
— Da rua?
— Da rua.

Ela olhou para o animal molhado, depois para o rosto dele.
— Fez bem. Há casas que precisam de alguém que faça barulho outra vez.

Os primeiros dias foram difíceis. Não para Nuvem. Para António.

O gato explorou a casa com a calma de quem já tinha perdido muito e não esperava grande coisa. Cheirou os cantos, as cadeiras, as portas. Parou diante do robe de Clara, ainda pendurado na casa de banho. Ficou ali sentado muito tempo. António desviou os olhos. Havia objetos que, sem falar, sabiam acusar melhor do que pessoas.

Depois Nuvem deitou-se debaixo do aquecedor no quarto e começou a ressonar.

António ficou à porta. Nunca imaginara que gatos ressonassem. Aquele som rouco e pequeno atravessou a casa como uma vela acesa.

Na terceira manhã, Nuvem saltou para a cama. Foi um salto torto, difícil, porque a cauda mal curada e a fraqueza atrapalhavam. Mesmo assim subiu, deitou-se junto ao cotovelo de António e fechou o olho.

António ficou quieto. Depois, com cuidado, pousou a mão no dorso do gato. Sentiu ossos, calor e uma vida pequena a insistir.

Nesse dia levantou-se às sete, não às dez. Fez café. Lavou a chávena que estava no lava-loiça. Alimentou Nuvem. E, quando entrou na cozinha, olhou para o relógio parado.

Quatro e doze.

A veterinária veio a casa no sábado. Era jovem, tinha cabelo escuro preso e uma voz serena.
— O olho é uma lesão antiga, explicou. — Não há visão, mas também não há dor. A cauda sarou mal. A orelha também é antiga. Deve ter uns seis ou sete anos. Está magro, tem parasitas, mas o coração está forte. Com comida, descanso e cuidados, ainda pode ter muitos anos bons.

António apontou tudo num papel. Gotas. Desparasitação. Vacina. Ração.
— E fale com ele, disse a veterinária à porta. — Este gato já teve casa. Nota-se. Só deixou de acreditar que uma casa podia durar.

Quando ela saiu, António ficou no corredor. O casaco de Clara continuava pendurado no cabide. Ele não lhe tocava desde o funeral. Naquele dia, tirou-o devagar, encostou-o ao rosto e depois guardou-o no armário.

— Desculpa, Clara, sussurrou. — Preciso de abrir espaço.

Nuvem observava-o da cozinha, com o seu único olho.

Até ao Natal, a casa mudou. Não muito depressa, porque as mudanças verdadeiras raramente fazem barulho. Primeiro desapareceram os jornais acumulados. Depois a poeira. Depois António comprou uma escova para o gato e, sem admitir, também voltou ao barbeiro. Dona Celeste trazia-lhe sopa. Ele levava-lhe o tacho lavado e ficava alguns minutos a conversar no patamar.

Um dia, pela primeira vez em ano e meio, riu-se. Foi de uma coisa pequena: Nuvem tentara entrar dentro de uma caixa de sapatos demasiado pequena para ele. O riso saiu enferrujado, estranho. Mas saiu.

Em janeiro, Nuvem desapareceu.

António tinha ido à farmácia. Quando voltou, a janela da cozinha estava entreaberta. A cortina mexia-se com o vento. Um vaso de manjericão de Clara estava tombado no parapeito.

— Nuvem? chamou.

Silêncio.

Procurou debaixo da cama, dentro dos armários, atrás da máquina de lavar, na varanda. Nada. Desceu as escadas sem cachecol, batendo às portas.
— Viu o meu gato?

Dona Celeste nem fez perguntas. Pôs o casaco.
— Vamos procurá-lo.

Foram ao pátio, às caves, aos carros estacionados, aos quintais das traseiras. Um rapaz do prédio trouxe uma lanterna. Uma vizinha publicou a fotografia no grupo do bairro. Até o homem do café da esquina saiu à porta e disse que ia ficar atento.

António chamava com a voz a falhar:
— Nuvem! Anda para casa, rapaz!

À meia-noite, sentou-se no banco do pátio. A chuva fina entrava-lhe pela gola. As mãos tremiam.
— Clara, disse para o escuro. — Eu não consigo perder mais ninguém. Não agora. Não quando comecei a levantar-me.

Foi então que ouviu um som. Fraco. Rouco. Quase nada.

Debaixo de um carro velho, junto ao muro, brilhou um olho.

António caiu de joelhos no chão molhado.
— Nuvem…

O gato estava preso numa saca de plástico enrolada na cauda torta e numa roda. Estava gelado, mas vivo. António libertou-o com dedos desajeitados e puxou-o para dentro do casaco.

E ali, no pátio, com dona Celeste ao lado e janelas acesas por cima, António chorou. Não como se chora por tristeza apenas. Chorou como quem encontra, no último momento, uma porta que pensava fechada para sempre.

Na manhã seguinte, deu corda ao relógio.

Subiu a uma cadeira, tirou a chave da gaveta e girou devagar. Nuvem, enrolado numa manta sobre a mesa, vigiava-o desconfiado.

O pêndulo mexeu-se uma vez. Depois outra.

Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac.

António fechou os olhos. Durante um instante pareceu-lhe ouvir Clara na porta:
— Até que enfim, homem.

Na primavera, os vizinhos começaram a vê-lo todos os dias. Mais direito, mais barbeado, com sacos de compras e às vezes flores. Cumprimentava primeiro. A filha veio visitá-lo com a neta pequena. A menina sentou-se no chão diante de Nuvem.
— Avô, ele é feiinho.
António sorriu.
— É.
— Mas é querido.
— Muito. A vida às vezes estraga por fora aquilo que não consegue estragar por dentro.

Nessa noite, depois de todos saírem, António ficou sentado na cozinha. O relógio trabalhava. O chá arrefecia. Nuvem dormia na cadeira de Clara, com a cauda torta dobrada junto às patas.

António passou-lhe a mão pela cabeça.
— Eu pensava que te tinha salvo, disse baixinho. — Mas foste tu que me vieste buscar.

O gato abriu o único olho, ronronou com aquele som rouco de bicho velho e voltou a dormir. Lá fora, Coimbra cheirava a terra molhada e flores novas. E dentro daquela cozinha pequena, onde o tempo tinha estado morto durante ano e meio, a vida voltou a andar. Não como antes. Nunca como antes. Mas com passos leves, quentes, teimosos — os passos de um gato que entrou ferido pela porta e acabou por abrir uma janela no coração de um homem.

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MagistrUm
Os vizinhos do prédio antigo, numa rua calma de Coimbra, pensaram durante meses que o senhor António se tinha ido embora