Esse gato já não me serve para nada!

Esse gato já não me serve para nada! — declarou dona Francisca, encostada ao portão, com o avental cheio de farinha. — Não é mais meu, senhor Joaquim. Portanto, não venha cá reclamar. Imagine o senhor: comia-me os ovos que eu guardava para vender. E ratos? Nem um. Para que serve um gato no campo se não apanha ratos? Que se desenrasque.

— Mas agora rouba os meus ovos! — protestou Joaquim.

— Lamento muito. Posso oferecer-lhe um café.

— Obrigado, mas não. Tenho coisas para fazer.

Joaquim voltou para a sua casa, no fim de uma aldeia perto de Coimbra, sentindo que a vida, depois dos setenta, ainda tinha maneiras estranhas de o provocar. Agora era um gato ruivo.

A casa dele ficava onde a rua de pedra acabava e começavam os campos, as oliveiras e os muros baixos cobertos de musgo. Era uma casa simples, com cozinha pequena, lareira antiga, um quintal com couves, uma figueira e, ao fundo, o galinheiro.

As galinhas eram a memória viva de Teresa.

Tinham vindo para a aldeia por causa dela. Os médicos disseram que precisava de ar limpo, descanso, comida caseira e menos cidade. Venderam o apartamento em Aveiro e compraram aquela casinha velha, que Teresa amou desde o primeiro dia.

— Joaquim, quero morrer a ouvir pássaros, não buzinas — disse ela, meio a brincar, meio a sério.

Ele ralhou com ela por falar assim, mas fez-lhe a vontade. Compraram galinhas poedeiras. Teresa deu-lhes nomes como se fossem senhoras importantes: Amélia, Branquinha, Rosita, Senhora Dona Pinta. Joaquim ria-se, mas depois também começou a chamá-las assim.

Teresa viveu ali um ano. Um ano de sopa ao lume, de ovos mexidos ao pequeno-almoço, de tardes sentada à sombra da figueira. Depois partiu numa madrugada fria, sem fazer barulho.

Desde então, Joaquim falava pouco com as pessoas. Ia à mercearia, cumprimentava quem passava e voltava para casa. Mas falava com as galinhas.

— Então, meninas? Hoje portaram-se bem?

E elas corriam para ele com as patas apressadas, cacarejando como se respondessem.

Foi por isso que a chegada do gato lhe pareceu uma afronta.

Chamava-se Estêvão. Ou pelo menos era assim que dona Francisca o chamava, por causa do marido falecido. Um gato ruivo, magro, esperto, com um ar de quem nunca pediu licença na vida. Entrava pelo quintal de Joaquim porque ali não havia cão. Todos na aldeia tinham um cão. Joaquim não. Teresa tinha medo que um cão assustasse as galinhas.

Estêvão não lhes tocava. Mas os ovos… esses eram a perdição dele.

Entrava sorrateiro, esperava uma distração, apanhava um ovo com a boca e fugia. Às vezes comia um ali mesmo, atrás da lenha, e levava outro.

— Larga isso, seu ladrão! — gritava Joaquim.

O gato olhava para trás com aqueles olhos verdes e continuava.

Durante semanas, Joaquim tentou tudo. Tapou buracos no muro, pôs tábuas, fechou melhor o galinheiro, pendurou uma lata velha para fazer barulho. Nada resultou. Estêvão era uma sombra ruiva.

As galinhas protestavam. A Branquinha chegou a dar-lhe uma bicada no rabo. Mas o gato voltava.

Um dia, Joaquim encontrou cascas partidas no chão e nenhum ovo no ninho. Sentou-se no banco de pedra, cansado.

— Teresa — murmurou — tu havias de te rir de mim. Um homem velho derrotado por um gato.

Mas logo se lembrou de outra coisa. Teresa não se riria. Teresa perguntaria: “E porque é que ele rouba, Joaquim?”

Essa pergunta ficou-lhe atravessada.

Na tarde seguinte, escondeu-se atrás da figueira. Esperou. O gato apareceu, como sempre. Entrou, pegou num ovo e escapou por uma abertura junto ao muro.

Joaquim seguiu-o.

Não conseguia andar depressa. A anca doía-lhe, e a respiração pesava. Mas não desistiu. Estêvão passou por uma ruela estreita, atravessou um terreno abandonado e entrou num velho palheiro.

Lá de dentro veio um miado fraco.

Joaquim aproximou-se e olhou.

Numa caixa de madeira, sobre um saco velho, estavam três gatinhos. Um deles era tão pequeno que parecia não ter força nem para viver. Estêvão pousou o ovo, partiu-o com a pata e lambeu a gema para a empurrar até à boca do pequeno.

No canto do palheiro estava uma gata cinzenta, morta.

Joaquim sentiu os olhos arderem.

— Ai, meu pobre bicho…

Estêvão fitou-o. Não fugiu. Não rosnou. Apenas olhou, cansado, como quem diz: “Fiz o que pude.”

Joaquim voltou para casa em silêncio. Nessa noite, sentou-se à mesa sem jantar. Olhou para a cadeira de Teresa, vazia, e lembrou-se de todas as vezes que ela ajudara animais, vizinhos, crianças, até gente que nem merecia.

— Quem tem pouco ainda pode repartir um bocadinho — dizia ela.

Na manhã seguinte, foi à mercearia e comprou leite próprio para gatinhos, comida, sardinhas e uma mantinha.

— Arranjou companhia, senhor Joaquim? — perguntou a mercearia.

— A companhia é que me arranjou a mim — respondeu ele.

Levou os gatinhos para casa. O mais fraco foi ao veterinário.

— Vai precisar de cuidados constantes — disse o doutor. — Pode não sobreviver.

— Então vamos dar-lhe motivos para tentar.

Quando voltou, Estêvão estava à porta do quintal. Joaquim abriu.

— Entra. Mas ouve bem: nesta casa não se roubam ovos. Nesta casa pede-se comida.

O gato entrou devagar, desconfiado. As galinhas fizeram uma algazarra monumental. A Amélia cacarejava como se Joaquim tivesse traído a família. Mas, dia após dia, a paz instalou-se.

Joaquim pôs uma caixa limpa na cozinha de fora para os gatinhos, uma tigela para Estêvão e recolhia os ovos mais cedo. Mas percebeu depressa que já não precisava ter medo. Estêvão nunca mais roubou.

Dona Francisca apareceu uma semana depois, com um saco de ração na mão.

— Ouvi dizer que ficou com o meu inútil.

— Não era inútil.

— Eu não sabia dos pequenos.

— Ninguém sabia. Mas a senhora expulsou-o antes de tentar perceber.

Francisca baixou a cabeça.

— A solidão deixa a gente má, às vezes.

— Deixa dura — disse Joaquim. — Má, só se a gente deixar.

Ela ficou calada. Depois estendeu o saco.

— Trouxe isto. Para os gatinhos.

Joaquim hesitou. Durante muito tempo não queria ninguém dentro de casa. A casa ainda cheirava a Teresa, e ele tinha medo de que qualquer presença apagasse isso. Mas, nesse instante, um dos gatinhos miou lá dentro, e Estêvão encostou-se à sua perna.

— Entre, dona Francisca. Tenho café ao lume.

Os gatinhos cresceram. Um foi para a casa da professora, outro para o filho da mercearia. O mais fraco ficou com Joaquim. Chamou-lhe Pingo.

Estêvão também ficou. Continuou sem grande talento para caçar ratos, mas guardava o quintal como se fosse dono de tudo. As galinhas aceitaram-no, ainda que com reservas. A Branquinha nunca lhe perdoou completamente.

Francisca começou a aparecer aos domingos. Às vezes trazia broa, às vezes marmelada, às vezes nenhuma desculpa. Joaquim deixava.

Numa tarde de verão, Joaquim fez uma omelete com os ovos das suas galinhas. Pôs dois pratos na mesa do quintal. Por um instante olhou para a cadeira onde Teresa se sentava. A saudade veio, funda. Mas já não veio sozinha.

Pingo brincava com um fio. Estêvão dormia debaixo da figueira. As galinhas ciscavam. Francisca falava da vida dos outros, e Joaquim, pela primeira vez em muito tempo, não quis fugir do som de outra voz.

Sorriu para o céu, quase sem querer.

A vida não lhe devolveu Teresa. Não lhe apagou as noites compridas, nem o frio do lado vazio da cama. Mas trouxe-lhe um gato ruivo, esfomeado, injustamente chamado de inútil, com um ovo roubado na boca.

E Joaquim percebeu que, às vezes, aquilo que entra na nossa vida como problema vem apenas mostrar onde ainda somos capazes de amar.

Há ladrões que nos tiram coisas.

E há outros que, sem saber, nos devolvem a alma.

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MagistrUm
Esse gato já não me serve para nada!