A minha pergunta favorita no dentista: “Do que é que estava à espera?”
Estava à espera que a carteira parasse de chorar só de pensar nos vossos preços.
Dona Teresa, de Coimbra, sempre teve vergonha de mostrar que a vida lhe pesava. Entrava no café com a cabeça erguida, cumprimentava as vizinhas, dizia que estava tudo bem e sorria mesmo quando a alma lhe doía.
Mas naquele dia, sentada na cadeira do dentista, não conseguiu sorrir.
— Dona Teresa, isto já devia ter sido tratado há meses — disse o médico, olhando para o ecrã. — Do que é que estava à espera?
Ela respirou fundo.
Tinha 64 anos. Depois da morte do marido, a casa ficou grande demais e a reforma pequena demais. Havia contas, havia medicamentos, havia o neto que precisava de óculos novos, havia a filha divorciada que nunca pedia, mas a quem ela ajudava na mesma.
O dente começou a doer no inverno. Ela dizia para si própria: “Para o mês que vem vou.”
Mas no mês seguinte vinha sempre outra coisa.
Uma torneira avariada. Uma conta da luz. Uma receita na farmácia. Um aniversário de criança.
E ela ia ficando para depois.
— Estava à espera, senhor doutor — disse Teresa, com os olhos brilhantes — que a carteira parasse de chorar só de pensar nos vossos preços.
A assistente olhou para ela com ternura. O dentista ficou sério. Não ofendido. Sério como quem finalmente percebe que aquela frase não era piada.
Era a vida inteira de uma mulher resumida em duas linhas.
Teresa não queria desconto por pena. Queria apenas que não lhe falassem como se tivesse sido descuidada consigo própria.
Porque descuido não era aquilo.
Descuido era uma sociedade inteira achar normal uma mulher aguentar dores meses seguidos porque tem vergonha de dizer: “Não tenho dinheiro.”
Quando saiu da clínica, o Mondego corria calmo lá em baixo. Teresa parou um instante, pôs a mão no rosto e chorou.
Não pelo dente.
Chorou por todas as vezes em que teve de escolher entre cuidar de si ou cuidar dos outros.
E, como sempre, escolheu os outros primeiro.






