O Filhote Debaixo do Tapete

Tonho acordou com o barulho seco da cafeteira italiana no fogão. Eram seis e quarenta da manhã, e o frio entrava pelas frestas da janela como agulha. Ele ajeitou a manta xadrez sobre os ombros e foi até a varanda. Duque não estava na casinha. De novo.

O vira-lata preto e caramelo estava deitado na terra gelada, a um palmo da entrada do abrigo de madeira. As orelhas em pé, o focinho apoiado nas patas. Parecia estátua de tão parado. Tonho estalou a língua.

— Ô, menino. Entra aí pra dentro, caramba.

O cachorro bateu o rabo devagar, mas não se moveu. O termômetro preso na coluna da varanda marcava três graus. Em Urubici, no meio da Serra Catarinense, aquilo era quase um convite para a pneumonia canina.

Tonho desceu os três degraus e se agachou ao lado do animal. Passou a mão nas costas dele — o pelo estava duro, salpicado de geada. A casinha era boa. Ele mesmo tinha feito, no inverno anterior, com tábuas de pinho do depósito do seu Ademir. Forrara o chão com uma manta de lã que a finada Rosa usava no sofá. Duque adorava aquilo. Entrava, dava três voltas em torno de si e se espalhava no tapete como dono de fazenda.

— Tá com medo de quê, bicho? — Tonho olhou para dentro da casinha. Escuro. — Entra, ué.

Duque rosnou. Um rosnado curto, grave, saído do fundo da garganta. Tonho recuou a mão. Sete anos juntos. Sete. E nunca, nem na vez em que Tonho pisou sem querer no rabo dele, o cachorro tinha rosnado. O homem se levantou devagar. O cachorro continuou deitado, mas os olhos acompanhavam cada movimento. Não era agressividade. Era vigia.

Ao meio-dia, Tonho tentou de novo. Encheu a tigela com pedaços de frango assado da padaria e levou até o pátio. Duque comeu tudo, mas comeu ali, perto do muro. Nem olhou para a casinha.

— Tem bicho aí dentro — disse o vizinho, seu Ademir, encostado na cerca. — Gambá ou lagarto. Esses bicho sente o cheiro.

Tonho balançou a cabeça.

— Duque enfrentaria um gambá, Ademir. Nunca vi esse cachorro recuar de nada.

— Então é pior — o vizinho cuspiu de lado. — É jararaca. Guarda um pedaço de mangueira aí contigo.

À noite, a temperatura despencou. O vento soprava das araucárias como lâmina. Duque continuava do lado de fora, agora encolhido no capim alto perto do tanque. Tonho abriu a porta da cozinha e chamou.

— Vem dormir dentro de casa, ô teimoso.

Nada. O cachorro apenas ergueu as orelhas na direção da casinha. Tonho apagou a luz. Ficou um tempo parado atrás da cortina, espiando. Duque se levantou, foi até a entrada do abrigo, cheirou em volta, rodou duas vezes e se deitou de novo no capim. Que diabo.

De manhã, Tonho decidiu acabar com aquilo. Pegou um pedaço de carne de panela que havia sobrado da janta, cortou em cubos e chamou o cachorro para a cozinha. Duque veio, desconfiado. Tonho fechou a porta no trinco. O cachorro ouviu o clique e grunhiu baixinho, mas a carne falou mais alto.

— Fica aí, garoto. Vai dar tudo certo — murmurou, enquanto passava pela sala e saía pela porta dos fundos.

Atravessou o pátio com a lanterna acesa. A casinha parecia menor no frio. Tonho se ajoelhou na frente da entrada e apontou a luz. O facho correu pelo tapete de lã e bateu num par de olhos amarelos, parados no fundo.

Ele piscou.

Um bicho acinzentado, do tamanho de um gato gordo, encolhido contra a parede de trás. E, embaixo dele, uma fileira de filhotes minúsculos, rosa-claros, amontoados uns nos outros. Um deles se mexeu e soltou um miado fino.

Graxaim-do-mato. Fêmea. Tinha escolhido a casinha do Duque para parir.

Tonho ficou imóvel, o coração batendo na garganta. A graxaim rosnava baixinho, sem recuar um centímetro. O tapete de lã da Rosa estava manchado de terra e líquido de parto. No canto, uma tábua arranhada onde os filhotes se espremiam.

— Tá explicado — sussurrou.

Duque latiu dentro de casa. Um latido abafado. Tonho se afastou da casinha devagar, sem dar as costas. Só quando chegou à porta da cozinha, destrancou e deixou o cachorro sair. Duque correu para o abrigo, enfiou a cabeça, cheirou os filhotes, lambeu o ar perto da graxaim. A fêmea rosnou fraco. O cachorro deitou do lado de fora, com a cabeça apoiada na entrada, e ficou ali.

Tonho se sentou na escada de madeira. O dono da venda passou na rua, buzinou duas vezes. Nada. O mundo continuava igual lá fora, mas dentro daquele pátio alguma coisa tinha mudado. Duque sabia o tempo todo. Tinha passado três noites no gelo porque a casa estava ocupada. E não ia entrar.

Naquele mesmo dia, Tonho pegou a picape e foi até a serralheria do Ademir. Voltou com três tábuas de cedro, um pedaço de compensado naval e uma chapa de isopor. Montou uma casinha nova, menor, num canto do pátio, perto do galinheiro desativado. Forrou com uma coberta velha e um saco de estopa.

Na primeira noite, a graxaim não saiu. Duque ficou deitado na frente da casinha antiga, montando guarda. Na segunda, ela carregou um filhote pela nuca. Depois outro. E assim até o quarto. Duque observou tudo de longe, as orelhas atentas. Quando a graxaim saiu da casinha antiga pela última vez, o cachorro entrou nela, cheirou o tapete de lã, girou três vezes e se deitou. Dormiu ali, pela primeira vez em cinco noites, sem acordar para latir para as corujas.

A amizade entre os dois se construiu aos poucos. Duque passou a dormir no meio do caminho entre a casinha nova e a velha. Quando os filhotes começaram a sair, ele ficava deitado de patas estendidas, deixando que subissem nas costas. Foi Tonho quem viu primeiro: três filhotes dormindo em cima do cachorro, enquanto o quarto puxava o rabo dele com os dentes. Pareciam bêbados com a paciência do outro.

— Tu não tem juízo, menino — Tonho ria, jogando milho para as codornas.

Um filhote mordiscou a orelha do Duque. O cachorro lambeu a criatura do focinho ao topo da cabeça.

No verão, a graxaim juntou os filhotes e foi embora. Tonho estava aguando a horta quando viu a fila desfilar pela cerca dos fundos, rumo ao capão de mato. Duque sentou, olhando para as árvores. Ficou dois dias sem comer direito. A tigela no pátio amanhecia cheia. Tonho acabou sentando ao lado do cachorro, os dois olhando para o mato em silêncio.

— Ela precisava ir embora, Duque. Bicho silvestre não fica em pátio de casa.

O cachorro encostou o focinho na mão do dono e fechou os olhos.

Uma semana depois, Tonho voltava da venda com um saco de ração e dois pacotes de bolacha de polvilho quando viu a movimentação na varanda. Duque estava de pé, o rabo batendo na parede. E do outro lado do alambrado, uma fêmea de graxaim, parada perto da figueira. Não era filhote. Era ela.

Ela andou até o portão, parou a um metro do cachorro. Levantou a pata dianteira e tocou o focinho do Duque, uma vez, com uma suavidade absurda. O cachorro baixou a cabeça e lambeu a pata dela.

Tonho segurou o saco de ração contra o peito e ficou imóvel. A graxaim ficou parada por mais um instante, depois virou e trotou de volta para a mata. Duque a seguiu com os olhos até as árvores fecharem sobre ela. Não latiu. Não correu atrás.

Tonho abriu a porta de casa, colocou a ração no pote de barro e voltou para a varanda. Duque estava deitado, a cabeça apoiada nas patas, olhando para a mata. O homem se agachou, passou a mão na cabeça do cachorro.

— Sabe o que você fez? — perguntou baixo. — Você ficou três noites congelando pra não tirar a casa de uma bicha que ninguém conhecia. Quatro vidas, Duque. Quatro. Tua casinha era dela antes de ser tua de novo. E tu entendeu isso antes de mim.

O cachorro lambeu o pulso dele, uma vez.

Tonho levantou, pegou a furadeira no galpão e prendeu uma tábua de pinho na entrada da casinha antiga. Ficou bonito: "Abrigo Duque — não perturbar". Debaixo, ele espetou um pedaço de tapete de lã, aquele mesmo da Rosa, já lavado e seco ao sol. E ao lado, uma tigela rasa com água.

— Pronto — disse, passando o dorso da mão na testa. — Agora, se ela voltar no inverno, tem casa de novo.

Duque subiu na casinha, deitou em cima do telhado com o focinho voltado para a mata. Fechou os olhos. O vento das araucárias passava por ele, e ele nem se mexia. Um pássaro pousou na tábua nova, limpou o bico e voou para o capão. A tarde caía sobre Urubici, e o pátio cheirava a terra molhada e a madeira recém-lixada.

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MagistrUm
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