Convidei um homem de quarenta anos para jantar. Chegou de mãos vazias e passou a noite a comparar-me com a mãe

João provou o bacalhau, pousou o garfo e ficou alguns segundos em silêncio.

Eu esperava um sorriso. Talvez um “está ótimo”. Tinha passado a tarde inteira na cozinha, preparado o bacalhau com natas, uma salada fresca e uma tarte de amêndoa que ele dissera adorar.

Por fim, João limpou a boca ao guardanapo.

—Não está mau —declarou. —Mas a minha mãe deixa o bacalhau menos seco.

A frase caiu sobre a mesa como uma pedra.

Conhecera João um mês antes, numa livraria em Coimbra. Tinha quarenta anos, era engenheiro e parecia diferente dos homens que transformavam qualquer conversa num monólogo sobre si próprios. Falava com calma, fazia perguntas e lembrava-se das minhas respostas.

Eu tinha trinta e nove anos e uma vida organizada. Trabalhava numa clínica, pagava o meu apartamento e tinha amigos com quem podia contar. Não procurava alguém para preencher um vazio. Procurava, talvez, uma pessoa com quem partilhar aquilo que já existia.

Depois de quatro encontros agradáveis, convidei-o para jantar.

João chegou pontualmente. Quando abri a porta, reparei imediatamente nas mãos vazias.

Não trazia vinho.

Não trazia flores.

Não trazia sequer pão.

—Que cheiro maravilhoso —disse, entrando sem hesitar. —Ainda bem que fizeste comida a sério. Ao almoço só comi uma sandes.

Tentei ignorar o desconforto. Talvez não tivesse pensado nisso. Nem toda a gente tinha os mesmos hábitos. Não queria julgar demasiado cedo.

Sentou-se enquanto eu acabava de levar tudo para a mesa. Não perguntou se precisava de ajuda. Nem sequer se levantou quando me viu lutar com a travessa quente.

Depois do primeiro comentário, provou novamente o bacalhau.

—Também puseste cebola a mais.

—Gosto assim.

—Claro, mas numa receita tradicional convém haver equilíbrio. A minha mãe corta a cebola muito fina. Quase desaparece.

Provou as batatas.

—Estas deviam ter ficado mais tempo no forno.

Depois a salada.

—O vinagre está forte.

Respirei fundo.

—João, há alguma coisa de que tenhas gostado?

—Não leves a mal. Estou apenas a ser sincero. Numa relação, as pessoas devem ajudar-se a melhorar.

—Numa relação?

—Estamos a conhecer-nos com essa intenção, não estamos?

Aparentemente, para ele, conhecer-me significava avaliar a minha capacidade de o servir.

João repetiu o bacalhau enquanto explicava o seu conceito de vida a dois. Gostava de uma mulher feminina, cuidadora e ligada à casa. Achava importante jantar comida fresca todos os dias e ter sempre roupa engomada.

—E tu, o que farias em casa? —perguntei.

—Eu trabalho muitas horas.

—Eu também.

—Mas as mulheres têm mais jeito para essas coisas.

—Sabes cozinhar?

—Se for preciso, faço uma omelete.

—Lavas roupa?

—Há máquinas.

—E quem põe a roupa na máquina, estende e arruma?

Ele sorriu, como se a pergunta fosse uma provocação infantil.

—Helena, não vale a pena transformar uma relação numa disputa.

Pouco depois descobri que João ainda vivia com a mãe, nos arredores da cidade. Primeiro disse que era para lhe fazer companhia. Depois admitiu que ela cozinhava, lavava, engomava e tratava da casa.

—Já tem setenta e quatro anos —disse. —Está a ficar cansada. Por isso quero assentar e encontrar uma mulher que saiba criar um lar.

Fiquei a olhar para ele.

Não procurava amor.

Procurava uma passagem de turno.

A mãe estava cansada e ele precisava de outra mulher que continuasse o trabalho.

—E o que ofereces tu a essa mulher? —perguntei.

João endireitou-se.

—Sou um homem estável. Tenho emprego, não ando em festas e quero uma relação séria. Na nossa idade isso vale muito.

—Na nossa idade?

—Não me interpretes mal. Mas uma mulher perto dos quarenta tem de ser realista. Não pode esperar que apareça um homem perfeito.

Olhei para a mesa.

Para a toalha que tinha escolhido.

Para as velas.

Para a sobremesa feita de propósito para ele.

Eu tinha oferecido tempo, atenção e carinho. Ele tinha chegado com fome e uma lista de exigências.

Levantei-me e fui buscar o casaco dele.

—O que estás a fazer?

—A terminar o jantar.

—Por causa de uma opinião sobre o bacalhau?

—Não. Porque entraste na minha casa de mãos vazias, deixaste-me servir-te e passaste a noite a explicar como devo cozinhar, cuidar da casa e organizar a minha vida para te agradar.

—Estás a dramatizar.

—Talvez. Mas prefiro um drama de cinco minutos a uma vida inteira de ingratidão.

João levantou-se, ofendido.

—É por isso que tantas mulheres independentes acabam sozinhas.

Abri a porta.

—E é por isso que tantos homens adultos continuam em casa da mãe: chamam independência ao salário e esquecem-se de aprender a viver.

Ele saiu sem olhar para trás.

Fechei a porta devagar. Durante alguns minutos fiquei parada no corredor, com um nó na garganta. Não sofria por João. Sofria pela esperança que tinha colocado naquela noite.

Depois ouvi bater à porta.

Era dona Celeste, a vizinha do rés do chão, uma senhora viúva que vivia sozinha.

—Desculpa incomodar —disse—, mas o cheiro chegou até às escadas.

Convidei-a a entrar.

Servi-lhe bacalhau, salada e uma fatia generosa de tarte. Ela provou e sorriu.

—Minha filha, isto foi feito com cuidado. Sente-se logo.

Jantámos juntas. Dona Celeste contou histórias do marido, de quando os dois dividiam tudo, até descascar batatas. Antes de sair, segurou-me na mão.

—Um homem que não sabe chegar com pão também não sabe ficar à mesa.

Na manhã seguinte, João enviou uma mensagem:

“A minha mãe diz que te pode ensinar a receita. Não precisas de ficar ofendida.”

Apaguei-a.

Sentei-me à janela com uma chávena de café. A rua ainda estava húmida e Coimbra parecia mais clara depois da chuva.

Havia silêncio em casa, mas não havia vazio.

O vazio teria sido aceitar João e passar anos a competir com uma mulher que nunca estivera à mesa, mas cuja opinião estaria presente em todas as refeições.

Naquela noite, não perdi uma oportunidade de amor.

Evitei transformar-me na funcionária não remunerada de um homem que confundia cuidado com obrigação.

E o bacalhau, afinal, estava perfeito.

Só tinha sido servido à pessoa errada.

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MagistrUm
Convidei um homem de quarenta anos para jantar. Chegou de mãos vazias e passou a noite a comparar-me com a mãe