Dona Teresa, de Coimbra, nunca gostou de espelhos. Aos sessenta e seis anos, ainda passava por eles depressa, como se a imagem pudesse dizer alguma coisa que ela não queria ouvir.
As filhas achavam que era vaidade ao contrário. O marido, enquanto vivo, dizia que ela era bonita, mas Teresa ria e mudava de assunto.
A verdade era outra.
Quando tinha doze anos, foi a uma festa da escola com um vestido amarelo que a mãe costurara à mão. Sentia-se feliz. Rodou diante do espelho, prendeu o cabelo com uma fita e saiu para a rua como se o mundo inteiro tivesse ficado mais claro.
No pátio, uma tia olhou para ela de cima a baixo e disse, sem maldade aparente:
— Com esse corpo, menina, é melhor não chamares atenção.
Todos continuaram a conversar. Ninguém percebeu.
Mas Teresa ouviu.
E nunca mais deixou de ouvir.
Cresceu tentando ocupar pouco espaço. Sentava-se no canto. Falava baixo. Escolhia roupas escuras. Nas fotografias, ficava sempre atrás de alguém. Até no próprio casamento, quando o fotógrafo pediu que ela chegasse à frente, Teresa deu um passo para trás.
Décadas depois, numa tarde de verão, a neta Inês apareceu na cozinha com um vestido vermelho.
— Avó, achas que está demais? A mãe disse que é muito chamativo.
Teresa olhou para a menina. Viu a fita amarela. Viu o pátio da escola. Viu todos os anos que passou a esconder-se.
Levantou-se devagar, pegou a neta pelos ombros e disse:
— Minha querida, nunca apagues a tua luz para deixares os outros confortáveis.
Inês sorriu, mas Teresa começou a chorar.
Naquela noite, abriu o armário e tirou de lá uma blusa azul que comprara havia cinco anos e nunca tivera coragem de usar.
No domingo, foi à missa com ela.
Algumas vizinhas repararam. Uma até comentou:
— Que cor viva, Teresa!
E pela primeira vez em mais de cinquenta anos, ela não baixou os olhos.
— Viva, sim, — respondeu. — Ainda bem.







