Com toda a sinceridade! Quantos anos tinha em 1981?

Há perguntas que parecem pequenas, mas mexem com lugares muito fundos da alma.

“Quantos anos tinha em 1981?”

Para alguns, foi só mais um ano. Para outros, foi o tempo da juventude, dos filhos pequenos, dos pais ainda vivos, das cartas guardadas numa gaveta, das fotografias tiradas sem imaginar que um dia seriam tesouros.

Em 1981, a Dona Teresa tinha 31 anos.

Vivia com o marido, António, e a filha pequena num apartamento simples. A cozinha era estreita, a mesa quase não cabia, e havia sempre alguma coisa por fazer. Roupa para passar. Contas para pagar. Uma panela ao lume. Uma criança a chamar.

Teresa achava que a vida era difícil. E era. Muitas vezes, adormecia tão cansada que nem se lembrava de apagar a luz do corredor. Mas todas as manhãs levantava-se, prendia o cabelo, preparava o pequeno-almoço e seguia em frente.

Havia um domingo de 1981 que ela nunca esqueceu.

Chovia lá fora. A filha brincava no chão da sala com uma boneca sem sapato. António estava sentado junto à janela, a tentar consertar uma cadeira. A rádio tocava baixo. Teresa saiu da cozinha com uma travessa nas mãos e, por um momento, ficou parada à porta.

Não havia nada de especial naquela cena.

Nada.

E mesmo assim, António olhou para ela e disse:

— Um dia ainda vais ter saudades disto.

Ela riu-se.

— Saudades de quê? Da cadeira partida? Da chuva? Da falta de dinheiro?

António sorriu.

— De nós assim.

Na altura, Teresa não deu importância.

A vida continuou. A filha cresceu. Vieram anos bons e anos difíceis. Os pais partiram. Depois, também António adoeceu. E numa manhã silenciosa, a cadeira junto à janela ficou vazia para sempre.

Hoje, Teresa vive noutra casa. Tem netos que correm pelo corredor e lhe perguntam coisas que a fazem sorrir. Há dias, uma das netas encontrou uma fotografia antiga e disse:

— Avó, que bonita! Quantos anos tinhas aqui?

Teresa pegou na fotografia.

Era 1981.

Na imagem, ela estava de vestido simples, com a filha ao colo e António ao lado. A mesa estava posta com pouca coisa, mas todos sorriam como se aquele pouco fosse suficiente para o mundo inteiro.

Teresa passou os dedos pela fotografia e respondeu:

— Tinha 31 anos.

Depois ficou calada.

A neta perguntou:

— Estavas feliz?

Teresa demorou a responder. Depois disse, com os olhos cheios de água:

— Estava. Mas só percebi muitos anos depois.

É isso que o tempo faz connosco. Mostra-nos que a felicidade raramente chega vestida de festa. Muitas vezes vem de avental, com mãos cansadas, cabelo despenteado e uma chávena de café morno em cima da mesa.

A felicidade era ouvir a voz da mãe.
Era discutir e fazer as pazes.
Era ver os filhos dormir.
Era ter alguém a chegar a casa e perguntar: “Já comeste?”

Por isso, hoje pergunto:

Quantos anos tinha em 1981?
Quem estava ao seu lado?
Que casa era a sua?
Que voz daria tudo para ouvir outra vez?

Escreva nos comentários. Às vezes, uma idade guarda uma vida inteira.

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MagistrUm
Com toda a sinceridade! Quantos anos tinha em 1981?