A colher de plástico raspou o fundo do pote de mousse de maracujá. Letícia lambeu o doce e apoiou os cotovelos na mesa posta com toalha nova.
— Dona Nair, a senhora agora é aposentada. Não precisa mais ficar contando moedas. Eu e o Rodrigo decidimos cortar aquela ajuda de R$ 800 que ele depositava todo mês.
O bolo estava sobre a mesa. Cento e quarenta reais na vitrine da padaria do bairro. Dona Nair tinha comprado com o primeiro pagamento do INSS. Enquanto ouvia a nora, serviu-se de chá gelado. Gelo nenhum disfarçava o calor que subia pelo pescoço.
— Cortar como assim? — ela perguntou, baixando a voz para não assustar a gata Mel, enrodilhada no tapete da sala.
— A senhora recebeu mil e seiscentos. O condomínio dá quatrocentos e cinquenta. Sobra mais de mil. Pra quê mais? — Letícia ajeitou o cabelo loiro atrás da orelha, sem pressa. — Seu mercado a gente já traz no sábado. Não paga plano de saúde, não precisa de Uber.
Rodrigo estava do lado. Cutucava um pedaço de bolo com o garfo, sem erguer os olhos.
— Filho, você também pensa assim? — Dona Nair perguntou, apertando o guardanapo de pano.
Ele encolheu os ombros.
— Mãe, temos as parcelas do financiamento do apartamento. Fora a revisão do carro e a Letícia precisa colocar aparelho nos dentes. A senhora fica em casa, não gasta com nada. Sem passagem, sem roupa social.
— Eu fico em casa. Com os netos de vocês. — A voz saiu mais firme do que ela esperava.
— E é obrigação de avó! — Letícia soltou uma risada seca. — Toda avó quer. Isso é alegria.
Dona Nair puxou o bloquinho de anotações perto do telefone sem fio. Escreveu: R$ 800. Embaixo, riscou um círculo e escreveu os horários: 7h30 às 18h, segunda a sexta.
— Esse dinheiro não era ajuda, Letícia. Era pagamento. Sou diarista dos meus próprios netos há cinco anos.
Letícia largou a colher no prato com um baque.
— Que absurdo! Agora vai cobrar para ver os netos? A gente te deu netos!
— Você teve filhos para você, Letícia. Não foi para mim.
Rodrigo finalmente levantou a cabeça. As orelhas estavam vermelhas.
— Mãe, pelo amor de Deus. Não vamos pagar para você ficar com o Pedro e a Júlia. Isso é loucura. Vai fazer o que com mais dinheiro? Apostar em bingo?
Dona Nair não discutiu. Levantou, foi até a cômoda, tirou a chave de reserva do apartamento. Voltou, depositou na frente do filho. O metal riscou a louça.
— O que é isso? — Rodrigo franziu a testa.
— A chave extra. Vocês não precisam mais. Como agora sou só avó coruja, meu expediente mudou. Segunda-feira não vou abrir às sete. Vocês levam as crianças para a escola.
— Eu entro às oito no escritório! — Letícia quase gritou. — Não dá tempo!
— Eu também trabalhei quarenta anos. Em pé, atrás do balcão da livraria. Agora descanso.
Dona Nair foi até a porta e abriu. O corredor do prédio estava silencioso.
— Terminaram o bolo? Podem levar o resto. A saída é ali.
Rodrigo agarrou a jaqueta, passou pela mãe bufando. Letícia pegou a bolsa e empurrou a chave de volta para a mesa. Dona Nair fechou a porta e passou o ferrolho. A gata Mel pulou no sofá, alheia ao terremoto.
Na segunda-feira, o interfone tocou às sete e vinte da manhã. Um toque longo. Insistente.
Dona Nair terminava de passar manteiga no pão. Deixou o interfone apitar mais três vezes antes de atender.
— Dona Nair, abre o portão! — A voz de Letícia chegou espremida pelo microfone. — Tem trânsito na Marginal, vou me atrasar!
A imagem da câmera mostrava a nora segurando Pedro pela alça da mochila e Júlia com o uniforme torto. A menina esfregava os olhos com a mão suja de chocolate.
— Letícia, eu dormi tarde. Hoje não vai dar.
— A senhora está de brincadeira? Vou deixar os dois aqui na portaria! Depois explica para o conselho tutelar!
— Deixa. A síndica dona Célia está no térreo regando as plantas. Ela adora uma denúncia.
Silêncio do lado de fora. Depois, o som de um salto batendo no piso e a porta do elevador fechando. Dona Nair bebericou o café. Mel enroscou-se nas suas pernas.
Ao meio-dia, o celular tocou. “Filho”. Ela atendeu na terceira chamada.
— Mãe, você pirou? A Letícia tomou advertência por atraso. Teve que levar as crianças na minha sogra lá no Tatuapé.
— E a dona Zilá gostou?
— Não mexe comigo. Para com esse circo. É seu sangue.
Dona Nair folheou as contas sobre a mesa.
— Sangue? Mês passado você me pediu três mil reais emprestado para trocar a embreagem do carro. Cadê?
— Eu pago. É que atrasei a comissão.
— Você não paga. E eu peguei um empréstimo consignado para te dar esse dinheiro. Sabe quanto desconta da minha aposentadoria? Trezentos e cinquenta reais por mês. Sobra mil e duzentos e cinquenta. Gás, luz, condomínio, remédio. Some aí.
— Mas eu levo feira para você!
— Duas sacolas por mês. E as crianças comiam aqui cinco dias por semana. Fruta, iogurte, carne moída. Quanto você acha que eu gastava?
Rodrigo demorou a responder. O ruído de carros ao fundo preencheu a ligação.
— Você é muito calculista, mãe. Sempre foi.
— Tive que aprender. Quando se tem um filho que conta a sua aposentadoria pelos dedos, a gente aprende rápido.
Ela desligou. Entrou no aplicativo do banco e bloqueou o contato.
À noite chegou uma transferência de R$ 500. Com a descrição: “Toma. Enfia no bolso.” Dona Nair devolveu na hora. Colocou o celular na gaveta e foi dormir.
Passaram-se duas semanas. As visitas acabaram. O silêncio no apartamento era preenchido pelo motorzinho de Mel ronronando no peitoril da janela.
Numa sexta-feira, ela preparava uma torta de maçã. A canela perfumava a cozinha. Tocaram a campainha às nove da noite.
Era Rodrigo. Com Pedro de pijama, encolhido atrás dele.
— Mãe, socorro. A Letícia foi parar no hospital. Suspeita de apendicite. Vou correndo pra lá, a Júlia já está com minha sogra, mas não tenho onde deixar o Pedro. Só essa noite. Por favor.
O menino olhava para o chão. Dona Nair sentiu o cheiro de suor e fast-food na roupa dele.
— Entra, Pedro. Tira o tênis.
Rodrigo nem esperou o elevador fechar. Desapareceu escada abaixo.
Pedro largou a mochila no sofá. Mel farejou o tênis dele.
— Fome? — perguntou a avó.
— Não. Comi Mc’Donalds.
Ela cortou uma fatia grossa da torta e pôs na frente dele assim mesmo. Sentou-se ao lado.
— Sua mãe estava com muita dor?
O menino mastigou depressa.
— Ela não tava com dor, vó. Tava provando um vestido. Toda arrumada.
A faca parou no ar.
— Vestido? Mas seu pai disse que ela foi pro hospital.
— Não sei. Ela falou que iam pra uma festa da tia Amanda. Num sítio com piscina quente. Meu pai falou pra eu não contar.
Dona Nair respirou fundo. Pegou o celular, procurou o perfil de Amanda, cunhada de Letícia. A primeira foto carregou: um deque de madeira, taças de espumante, Letícia de vestido verde, Rodrigo de camisa polo atrás dela. Hashtag #aniversariodaamandinha #merecemos. Localização: Pousada Recanto das Orquídeas. Vinte e cinco quilômetros dali. Publicada havia quarenta minutos.
Uma mensagem de Rodrigo entrou: “Mãe, alarme falso. Não era nada. Mas a médica pediu repouso. A gente vai ficar na casa da sogra até domingo. Fica com o Pedro, beijo.”
Dona Nair não respondeu. Levantou-se, pegou a bolsa.
— Pedro, calça o tênis.
— Aonde a gente vai?
— Fazer uma surpresa para seus pais.
Chamou um carro por aplicativo. Cinquenta e oito reais a corrida. No porta-luvas, um aromatizador de baunilha enjoativo. A noite engolia asfalto e postes.
O portão da pousada estava aberto, com guirlanda de flores artificiais. Na recepção, uma moça de colete sorriu.
— Boa noite. Vocês vêm para o aniversário da Amanda?
— Isso. Onde é?
— Salão Orquídea, à esquerda. A senhora quer que eu leve?
— Eu mesma encontro.
Dona Nair segurou a mão do neto. O corredor tinha carpete azul-claro, música ao vivo tocava um samba de raiz. Cheiro de lombo assado e perfume doce. Ela empurrou a porta do salão.
Havia umas trinta pessoas. Mesa farta, luz amarelada. Um homem gordo brindava no microfone. Letícia estava ao lado da aniversariante, de vestido tomara que caia, cabelo escovado. Rodrigo ria com um copo de uísque, apoiado na cadeira.
Dona Nair avançou. O salto baixo afundava no carpete. Pedro tropeçou e soltou um “ai”.
Rodrigo virou o rosto. O sorriso desabou. Ele empalideceu.
— Mãe?!
A taça tombou na toalha.
Letícia arregalou os olhos, a boca abriu e fechou.
Dona Nair parou bem no centro do salão. A música morreu. As pessoas olhavam. Ela não gritou. A voz saiu tão calma que ardeu.
— Rodrigo, você esqueceu sua bagagem.
Empurrou Pedro de leve para a frente. O menino correu e abraçou a cintura da mãe, sujando o cetim do vestido com os dedos engordurados da torta.
— Mãe, quero comer! — Pedro choramingou.
Letícia cerrou os dentes, as narinas brancas.
— A senhora ficou louca?! Está nos fazendo passar vergonha na frente dos amigos! Leva ele embora agora!
Amanda levantou-se, o semblante duro.
— Rodrigo, que palhaçada é essa? Vocês disseram que as crianças estavam com a avó.
Rodrigo saltou da cadeira e agarrou o braço da mãe. Os dedos cravaram.
— Por que você veio? Era só uma noite! Você estragou tudo!
Dona Nair baixou os olhos para a mão do filho. Quando falou, a voz não era de mãe. Era de sobrevivente.
— Você me mentiu, Rodrigo. Disse que sua esposa estava no hospital. Largou o menino como se fosse um embrulho e veio beber. Eu não sou depósito de criança.
— A gente merece descansar! — Letícia quase cuspiu as palavras.
— Merecem. Mas com os filhos. Não às minhas custas. Minha jornada acabou. Sou aposentada, lembra?
Dona Nair soltou o braço com um tranco e se virou. Caminhou para a porta. Pedro fez menção de segui-la, mas Letícia o agarrou.
— Vó! — o menino chamou.
Ela não olhou para trás. A porta do salão fechou abafando a gritaria. No corredor, inspirou fundo. O peito doía, mas o ar parecia novo.
Pediu outro carro. Voltou para casa no banco de trás, alisando a própria bolsa. A gata a esperava no tapete.
No domingo de manhã, a chave rangeu na fechadura. Depois, socos na porta.
— Abre essa porta! — Rodrigo esmurrava a madeira. — Você trocou a fechadura?!
Dona Nair terminava de coar o café. Pegou a xícara com estampa de girassol. Foi até a entrada.
— Troquei. O chaveiro veio ontem. Cobrou cento e oitenta reais. Paguei com o que sobrou da aposentadoria.
— Você está fora de si, mãe! A Letícia não fala comigo desde sexta! A Amanda nos expulsou da festa! Meu gerente estava lá, viu tudo!
— Isso é problema seu.
— Devolve minhas coisas! Caixa de ferramentas, a prancha de stand-up, as tralhas do armário!
— Ponho no corredor na quarta. Junto com o reciclável.
— Você é doente! Expôs seu neto, traumatizou o menino!
— Quem traumatiza o menino são os pais que acham que ele atrapalha o brinde.
Silêncio. Depois a voz de Rodrigo, mais baixa, embargada de raiva:
— Você vai morrer sozinha. Quando precisar de um copo d’água, não vai ter ninguém.
Dona Nair apoiou a testa na porta. Sentiu o metal frio. Um sorriso seco escapou.
— Compro um purificador. Tem serviço de entrega. Passa bem, Rodrigo.
Ela foi para a cozinha. Sentou-se à mesa, Mel saltou no seu colo. O ronronado vibrava como um motorzinho. A casa estava em silêncio, sem gritos de desenho animado, sem louça alheia na pia. Ela tomou um gole de café e fechou os olhos. Pertencia a si mesma pela primeira vez em muitos anos.






