O cão do meu pai deixou de comer no dia em que enterrámos o meu pai. Nos primeiros dias, toda a gente dizia que era tristeza, que passava. Que os animais sentem, sim, mas não como nós. Que bastava dar-lhe comida boa, fazer-lhe festas, talvez deixá-lo dormir dentro de casa.
Três meses depois, encontrei-o morto junto à porta da cozinha, encostado às botas velhas do meu pai. Tinha o focinho pousado no couro gasto, como se ainda estivesse à espera que ele entrasse do quintal, limpasse as mãos às calças e dissesse:
— Anda, Tobias. Ainda há muito que fazer.
O Tobias era um cão feio. Feio de verdade. Tinha o pelo de várias cores, castanho, branco sujo, cinzento, tudo misturado sem graça nenhuma. Uma orelha ficava em pé, a outra caía-lhe sobre a cabeça, e uma pata traseira nunca ficou direita desde o dia em que o meu pai o encontrou. Era cachorro, estava encharcado pela chuva, escondido junto a um muro de pedra, numa aldeia perto de Viseu. Tinha uma ferida aberta e tremia tanto que parecia que o corpo lhe ia partir.
A minha mãe, quando o viu, suspirou.
— António, nós mal damos conta da nossa vida. Vais trazer mais um problema?
O meu pai pousou o cachorro junto ao fogão a lenha e respondeu:
— Problema era deixá-lo lá fora.
Deu-lhe leite morno numa tigela lascada e ficou sentado ao lado dele até tarde. A partir desse dia, o Tobias escolheu o meu pai. Ou talvez tenha sido o contrário. Nunca soube bem.
Durante quinze anos, foram inseparáveis. O meu pai levantava-se antes do sol, punha água ao lume, bebia café forte, vestia o casaco de trabalho e dizia:
— Vamos lá, companheiro.
O Tobias levantava-se logo. Não ladrava, não saltava, não fazia festa exagerada. Apenas ia. Dois passos atrás do meu pai. Para a horta, para a vinha, para o galinheiro, para o café da praça, para casa do senhor Joaquim, para o monte buscar lenha. Quando o meu pai parava à conversa, o Tobias sentava-se ao lado dele e esperava. Calado. Paciente. Como se soubesse que o seu lugar no mundo era aquele: perto.
O meu pai falava com ele como se fala com um amigo.
— Hoje temos de podar as videiras, Tobias. Não me olhes assim. Também eu preferia ficar sentado.
E o cão olhava para ele com aqueles olhos tortos, um mais escuro do que o outro, e abanava a cauda devagar.
Às vezes, eu dizia:
— Pai, qualquer dia esse cão começa a responder-lhe.
Ele sorria.
— Já responde. Só não usa palavras.
O meu pai não era homem de grandes declarações. Nunca dizia “gosto de ti” com facilidade. Mas deixava laranjas no saco quando eu voltava para Coimbra. Arranjava-me o carro antes de eu pedir. Telefonava no inverno só para perguntar se eu tinha botijas de gás suficientes. Era assim que ele amava: em silêncio, com mãos gastas.
Morreu em novembro. De repente. No quintal, ao lado da lenha que estava a cortar para o inverno. A minha mãe entrou em casa para mexer a sopa. Quando voltou, o machado estava no chão e o meu pai também.
O Tobias estava colado a ele.
Quando cheguei, a ambulância já estava à porta. A minha mãe estava sentada num banco, com o avental enrolado nas mãos. O vizinho segurava o Tobias pela coleira, mas o cão puxava, gemia, fazia força para voltar ao corpo do meu pai.
— Não deixa ninguém aproximar-se — disse o vizinho. — Parece gente.
Aproximei-me devagar.
— Tobias…
Ele olhou para mim. Nunca me vou esquecer daquele olhar. Não era agressivo. Era desesperado. Como se me dissesse: “Faz alguma coisa. Ele não se levanta.”
No funeral, o Tobias ficou no portão. Não entrou no meio das pessoas. Ficou sentado, quieto, enquanto os vizinhos traziam flores, broa, palavras baixas e abraços apertados. Quando o último carro se foi embora, entrou no quintal, foi até ao sítio onde o meu pai caiu e deitou-se ali.
A minha mãe levou-lhe comida.
— Come, bichinho. Ele zangava-se se te visse assim.
O Tobias cheirou a tigela e virou a cara.
Na primeira semana, achámos que era choque. Na segunda, começámos a ter medo. Na terceira, levei-o à veterinária da vila. Ela examinou-o, ouviu-lhe o coração, viu-lhe os dentes e ficou um momento em silêncio.
— Está velho, mas não está doente a esse ponto — disse.
— Então por que não come?
Ela olhou para o Tobias e passou-lhe a mão pela cabeça.
— Porque perdeu a vontade. Há animais que vivem presos a uma pessoa. Quando essa pessoa desaparece, eles não sabem para onde ir por dentro.
Voltei para casa com vitaminas, latas de comida especial e uma seringa. Tentávamos alimentá-lo devagar. Ele engolia um pouco, mais por obediência do que por fome, e depois voltava a olhar para o portão.
Um dia encontrei a minha mãe na cozinha com as botas do meu pai nas mãos. Eram botas castanhas, pesadas, com a sola marcada de terra seca. As botas da horta.
— Mãe, o que está a fazer?
Ela ficou calada. Depois disse:
— Ele pousava-as sempre aqui. Se eu as guardar, parece que estou a aceitar que ele nunca mais entra.
Colocou-as junto à porta.
O Tobias apareceu pouco depois. Parou de repente, como se tivesse ouvido uma voz. Aproximou-se, cheirou uma bota, depois a outra, e o corpo dele começou a tremer. Deitou-se ao lado delas e pousou o focinho no couro.
A minha mãe virou-se para o lava-loiça. Eu vi as lágrimas a caírem.
A partir desse dia, ele ficou ali. De manhã, estava junto às botas. À noite, continuava no mesmo lugar. Quando o vento fazia bater o portão, levantava a cabeça. Quando alguém entrava no quintal, os olhos dele acendiam-se por um segundo. Depois apagavam-se outra vez.
O meu irmão Miguel veio num domingo e não aguentou.
— Isto não faz bem a ninguém. Essas botas têm de sair daí.
A minha mãe endireitou-se.
— Não toques nelas.
— Mãe, são só botas velhas.
Ela olhou para ele com uma firmeza que o calou.
— Não. São o último caminho do teu pai até esta casa.
O Miguel sentou-se à mesa e baixou a cabeça. Durante muito tempo não disse nada. Depois chorou. Chorou como eu nunca o tinha visto chorar.
O inverno foi passando devagar. A casa parecia maior e mais fria. A cadeira do meu pai continuava no mesmo sítio. O casaco dele ainda pendia atrás da porta. A minha mãe falava pouco, mas sentava-se muitas vezes no chão, ao lado do Tobias.
— Ele gostava tanto de ti, sabias? — dizia-lhe. — Onde quer que esteja, há de estar à tua espera.
O Tobias fechava os olhos. Cada semana ficava mais magro, mais leve, como se o corpo dele se fosse desfazendo de saudade.
Na última noite, bebeu água. Pouca, mas bebeu. Depois olhou para a porta e abanou a cauda uma única vez. A minha mãe levou a mão ao peito.
— Viste?
Eu vi. E tive medo, porque às vezes há despedidas que chegam disfarçadas de pequenos milagres.
Na manhã seguinte, levantei-me cedo. Fui fazer café e abri a porta da cozinha. O Tobias estava junto às botas, com o focinho pousado nelas. Tinha os olhos fechados. Parecia dormir.
Ajoelhei-me e toquei-lhe.
Estava frio.
A minha mãe veio atrás de mim.
— Tobias?
Não respondi. Ela percebeu. Sentou-se no chão, acariciou-lhe a cabeça e disse baixinho:
— Pronto, meu menino. Já foste ter com ele.
Enterrámo-lo atrás da casa, debaixo da nogueira onde o meu pai descansava nas tardes de agosto. O Miguel cavou a terra. A minha mãe trouxe uma manta antiga. Eu levei as botas.
— Também as botas? — perguntou o meu irmão.
— Sim — disse eu. — Ele esperou por elas tempo demais.
Pusemo-las junto dele.
Quando terminámos, a minha mãe ficou parada diante da terra fresca. O sol apareceu por entre as nuvens e tocou aquele pequeno monte como se alguém tivesse acendido uma vela.
— Sabes — disse ela — o teu pai dizia que um cão não guarda rancor. Mas eu acho que é mais do que isso. Um cão guarda amor. Guarda até não poder mais.
Desde esse dia, nunca mais consegui olhar para um animal da mesma maneira. Há pessoas que nos amam com condições, com contas, com orgulho, com medo de dar demais. O Tobias não sabia nada disso. Não sabia ler datas numa lápide nem entender a palavra “morte”. Só sabia que o homem dele tinha desaparecido. E ficou à espera até o coração já não aguentar.
Hoje, quando volto à aldeia, olho sempre para o canto junto à porta. As botas já não estão lá. O Tobias também não. Mas há lugares que continuam ocupados por aquilo que se viveu neles.
E às vezes, quando o vento mexe nas folhas da nogueira, quase juro que ouço o meu pai a rir lá fora:
— Anda, companheiro.
Então imagino os dois a descerem por um caminho de terra, sem inverno, sem dor, sem despedidas. O meu pai à frente. O Tobias dois passos atrás. Como sempre. Como devia ser.







