“Mulher prática, casa própria.”

“Mulher prática, casa própria.” Voltei mais cedo do trabalho e ouvi por acaso o que o homem de 54 anos dizia sobre mim…

Percebi de verdade com quem vivia numa terça-feira chuvosa, quando dei falta dos oitenta euros que tinha separado para a farmácia.

Não era uma fortuna. Eram duas notas dobradas dentro de um envelope branco, guardado na gaveta da cómoda, por baixo dos lenços. Dinheiro para os comprimidos da tensão, para as gotas dos olhos e para uma pomada que a médica me tinha receitado havia dias.

Quando perguntei ao Rui se tinha visto o envelope, ele ficou primeiro em silêncio. Depois levantou-se da cadeira tão devagar que até senti vergonha da minha própria pergunta.

— Estás a acusar-me de roubar? — disse ele, com aquela voz baixa que usava quando queria parecer ofendido.

— Eu só perguntei se viste…

— Não, Manuela. Tu não perguntaste. Tu insinuaste. E isso é muito feio numa mulher da tua idade.

Da minha idade.

Eu tinha cinquenta e quatro anos. Já tinha criado uma filha, enterrado um marido, pago uma casa quase sozinha e aprendido a carregar sacos do supermercado com dores nas costas sem pedir ajuda a ninguém. Mas, naquele momento, diante daquele homem de camisa aberta e chinelos no meu corredor, senti-me pequena. Como se eu fosse a culpada por ter dado falta do meu próprio dinheiro.

Ele ainda falou durante meia hora. Disse que eu o humilhava, que uma relação sem confiança não servia para nada, que ele não era nenhum miúdo para ser tratado como ladrão.

E eu pedi desculpa.

É isso que mais me custa recordar.

Pedi desculpa ao homem que me tinha tirado o dinheiro dos remédios.

Conheci o Rui junto ao Mercado Municipal de Coimbra, numa manhã de sábado. Eu saía com dois sacos pesados, um com fruta e outro com batatas, quando a pega de papel rebentou e as maçãs rolaram pelo passeio. Ele apareceu como se tivesse sido chamado.

— Deixe, eu ajudo.

Era alto, cabelo grisalho bem cortado, casaco escuro e um cheiro forte a tabaco caro misturado com pastilha de menta. Tinha mãos cuidadas, voz calma e aquele jeito de olhar nos olhos como se estivesse a ouvir a história mais importante do mundo.

Ajudou-me a levar as compras até ao prédio. À porta, antes de se ir embora, disse:

— A senhora tem uns olhos muito cansados. Nota-se que já lhe pesou muita coisa em cima.

Hoje sei que aquilo era uma frase ensaiada. Na altura, acertou-me no sítio mais mole da alma.

Eu estava viúva havia cinco anos. O meu marido, o António, morreu no quintal da irmã, em Penacova, enquanto regava uns tomateiros. O coração falhou sem aviso. Durante meses, continuei a pôr dois pratos na mesa. Depois deixei de pôr, mas o lugar vazio ficou lá na mesma.

A minha filha, a Catarina, vivia em Braga com o marido e o meu neto. Falávamos por videochamada, sim. Ela ligava, perguntava se eu tinha comido, se tinha ido ao médico, se precisava de alguma coisa. Mas quando a chamada acabava, a casa voltava a ficar grande demais. O relógio da sala fazia um barulho que parecia bater dentro da cabeça.

Por isso, quando o Rui apareceu, eu não vi perigo. Vi companhia.

Na segunda semana já tomava café na minha cozinha. Na terceira, trazia pão de Mafra e dizia que tinha passado ali “só para me ver sorrir”. No primeiro mês, contou-me a sua vida inteira.

Segundo ele, tinha tido uma pequena empresa de remodelações. Tectos falsos, pinturas, cozinhas por medida. Depois vieram clientes que não pagaram, um sócio desonesto, um irmão que o enganou, a pandemia que lhe fechou portas, o banco que lhe virou costas.

Havia sempre alguém culpado.

Mas eu, nessa altura, só ouvia a parte bonita: “fui traído”, “comecei do zero muitas vezes”, “não perdi a dignidade”. E havia uma coisa que me derretia: ele falava do futuro.

— Um dia levo-te a viver perto do mar — dizia, mexendo o açúcar no café. — Não precisa de ser luxo. Uma casinha simples, uma varanda, o cheiro a sal pela manhã. Tu mereces acabar a vida com paz, Manuela.

Eu, que não esperava nada de ninguém, comecei a imaginar uma varanda branca em Aveiro, toalhas a secar ao vento, dois cafés na mesa.

O Rui não entrou na minha vida de repente. Foi entrando aos bocados.

Primeiro esqueceu uma escova de dentes. Depois deixou uma camisola no meu sofá. Mais tarde, uma máquina de barbear na casa de banho. Quando dei por mim, o casaco dele já estava pendurado no meu cabideiro, junto ao casaco velho do meu falecido marido.

No início fazia omeletes ao domingo, ia buscar o jornal, arranjava uma torneira que pingava. Chamava-me “minha querida” em frente às vizinhas e segurava-me no braço quando atravessávamos a rua.

Depois vieram os pedidos.

— Emprestas-me vinte euros para gasóleo? Amanhã devolvo.

— Pagas tu o almoço? Estou com o cartão a dar erro.

— Tenho uma oportunidade de trabalho em Lisboa, mas preciso de adiantar o material.

No princípio eram quantias pequenas. Depois começaram a crescer. Cinquenta. Cem. Duzentos. Sempre com promessas.

— Assim que o cliente pagar, acerto tudo contigo.

Eu acreditava porque queria acreditar. Porque é duro admitir que alguém não ama a gente, apenas gosta do que pode tirar.

A Catarina percebeu antes de mim.

— Mãe, esse homem olha para ti como quem olha para uma caixa multibanco.

— Catarina, não sejas cruel.

— Cruel é ele usar o teu cartão para comprar tabaco.

— Ele está a passar uma fase difícil.

— Mãe, toda a vida dele é uma fase difícil.

Discutimos tanto nessa noite que desliguei a chamada a chorar. Depois o Rui abraçou-me no sofá, passou a mão no meu cabelo e disse:

— A tua filha tem ciúmes. Não suporta ver-te feliz com outro homem.

E eu, em vez de defender a minha filha, calei-me.

Ainda hoje isso me dói.

Meses depois, vendi a minha pulseira de ouro. Era fina, antiga, com um fecho delicado. O António tinha-ma oferecido no nosso vigésimo aniversário de casamento. Eu dizia que era só uma pulseira, mas, quando a entreguei na ourivesaria da Baixa, senti como se estivesse a vender um pedaço da minha própria vida.

O Rui precisava de dinheiro para um “negócio certo”.

— É uma obra grande em Figueira da Foz — explicou, andando de um lado para o outro na sala. — Só preciso de comprar material. Se eu perder esta oportunidade, acabou-se. Manuela, isto pode ser o nosso recomeço.

Dei-lhe três mil e oitocentos euros.

Ele beijou-me as mãos.

— Tu és uma mulher a sério. Diferente das outras.

Dois dias depois apareceu com um telemóvel novo.

Eu estava a fazer arroz de tomate. A panela fervia, o vapor embaciava os vidros, e ele entrou todo contente, com a caixa na mão.

— Olha que máquina.

Fiquei a olhar para o aparelho sem entender.

— Rui… e a obra?

O sorriso desapareceu-lhe.

— Lá estás tu.

— Eu só perguntei.

— Não comeces a estragar o ambiente. Preciso de estar contactável para os clientes. Um homem sem telefone decente não passa confiança.

Nesse dia não discuti. Pus o arroz na mesa, sentei-me em frente dele e mastiguei sem sentir o sabor da comida.

Mas alguma coisa dentro de mim tinha começado a rachar.

A gota final veio numa sexta-feira.

Eu trabalhava meio período numa lavandaria perto da Solum. Nessa tarde, a dona sentiu-se mal e mandou-nos fechar mais cedo. Voltei para casa antes das cinco, com uma dor nas pernas e vontade de beber chá em silêncio.

Quando cheguei ao terceiro andar, ouvi a voz do Rui antes de abrir a porta. Estava no meu apartamento. Falava ao telefone, alto, descontraído, como nunca falava comigo.

A chave já estava na fechadura quando ouvi o riso dele.

— Claro que estou bem instalado. A mulher é prática, tem casa própria, não me chateia muito… pronto, às vezes faz perguntas, mas eu dou-lhe duas voltas e ela acalma.

Fiquei parada.

A minha mão gelou na chave.

— Cinquenta e quatro anos, viúva, carente… sabes como é. Prometes-lhe mar, prometes-lhe companhia, e ela abre logo a carteira.

Do outro lado alguém disse qualquer coisa, porque ele voltou a rir.

— Amor? Qual amor? Eu não sou parvo. Enquanto ela for útil, fico. Quando começar a apertar, salto fora.

A porta pareceu afastar-se de mim. O corredor ficou estreito. Senti o coração bater nos ouvidos.

Entrei.

Ele virou-se de repente, ainda com o telemóvel na mão. A cor fugiu-lhe do rosto por um segundo. Só por um segundo. Depois recompôs-se.

— Manuela… chegaste cedo.

Eu pousei a mala no chão.

— Continua.

— Estás a fazer uma tempestade por nada.

— Continua, Rui. Quero ouvir a parte em que sou útil.

Ele desligou a chamada.

— Tu não percebeste o contexto.

Eu ri-me. Um riso seco, tão estranho que nem parecia meu.

— Pela primeira vez percebi tudo.

Ele aproximou-se.

— Não sejas dramática. Toda a gente diz disparates ao telefone.

— Sai da minha casa.

O rosto dele mudou. Aquele homem doce desapareceu. Ficou outro: duro, frio, com os lábios apertados.

— Tua casa? Agora já é tua casa? Enquanto paguei coisas aqui dentro não dizias isso.

— O que pagaste?

Ele abriu os braços, teatral.

— Dei-te companhia. Dei-te vida. Antes de mim eras uma velha sozinha a falar com a televisão.

Foi a frase que me curou.

Não na hora. Na hora doeu como uma bofetada. Mas curou-me, porque arrancou a última venda dos meus olhos.

Fui até ao quarto, peguei num saco grande e comecei a atirar lá para dentro as coisas dele. Camisas, chinelos, carregador, a máquina de barbear, o frasco de perfume barato que ele escondia atrás dos meus cremes.

Ele veio atrás de mim.

— Estás louca.

— Talvez. Mas louca com a chave da própria casa.

— Eu não saio.

Peguei no telemóvel e liguei à Catarina.

— Mãe? Está tudo bem?

A minha voz tremia, mas saiu inteira:

— Filha, preciso de ti. E chama o teu marido. O Rui vai sair agora.

Ele ainda tentou rir, tentou dizer que eu estava histérica, tentou arrancar-me o telefone da mão. Mas quando ouviu a voz firme da Catarina do outro lado, recuou.

— Se tocar na minha mãe, eu chamo a polícia — disse ela, tão alto que ele ouviu.

Nessa noite, ele saiu com dois sacos e muitas ameaças.

— Vais arrepender-te.

— Já me arrependi — respondi. — Mas não de te pôr fora. Arrependo-me de te ter deixado entrar.

Fechei a porta e rodei a chave duas vezes.

Depois sentei-me no chão da entrada. As pernas deixaram de obedecer. Chorei como não chorava desde o funeral do António. Chorei pela pulseira vendida, pelo dinheiro dos remédios, pela minha filha magoada, pela mulher que eu tinha sido enquanto fingia não ver.

A Catarina chegou de madrugada. Abraçou-me sem dizer “eu avisei”. Isso foi o mais bonito.

No dia seguinte fomos ao banco. Cancelei cartões, mudei códigos, fui à polícia fazer participação. Também troquei a fechadura. A vizinha do segundo esquerdo, a dona Lurdes, trouxe-me sopa e disse apenas:

— Às vezes o pior ladrão não entra pela janela. Entra pela solidão.

O Rui ainda apareceu duas semanas depois.

Estava à porta do prédio com um ramo de flores murchas e a mesma voz mansa.

— Manuela, eu errei. Fui pressionado. Tu sabes que eu gosto de ti.

Eu estava a subir com a Catarina e o meu neto, que tinha vindo passar o fim de semana comigo. O menino segurava-me pela mão.

Olhei para o Rui e, pela primeira vez, não senti saudade, nem culpa, nem pena. Senti apenas cansaço.

— Não gostas de mim, Rui. Gostas de portas abertas.

Ele tentou aproximar-se.

— Podemos conversar.

— Não. A conversa acabou naquele dia em que disseste que eu era prática.

O meu neto apertou-me a mão.

— Avó, vamos fazer panquecas?

Sorri para ele.

— Vamos, amor. Muitas.

Subi as escadas sem olhar para trás.

Não recuperei todo o dinheiro. Algumas coisas nunca voltam: uma pulseira antiga, a confiança fácil, certos meses da vida. Mas recuperei a minha casa. Recuperei a minha filha. Recuperei o silêncio sem medo.

Hoje, quando a noite cai, já não ligo a televisão para fingir que não estou sozinha. Às vezes faço chá, abro a janela da cozinha e deixo entrar o ar frio de Coimbra. Tenho uma manta nos joelhos, uma fotografia do António na estante e um vaso de manjericão que a Catarina me trouxe.

Ainda sonho com o mar.

Mas agora, quando penso numa casa perto da praia, não imagino um homem ao meu lado a prometer-me uma vida que nunca quis construir. Imagino-me a mim. Sentada numa varanda simples, com uma chávena quente nas mãos, a ouvir as ondas e a saber, finalmente, que a companhia mais importante que uma mulher pode salvar é a própria.

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MagistrUm
“Mulher prática, casa própria.”