Setenta e dois anos, um T1 antigo nos arredores de Coimbra, uma reforma curta demais para um mês tão comprido, e aquele silêncio que parecia crescer nas paredes quando a noite caía.
Seis meses antes, o António tinha partido.
Não foi para outra mulher, não foi para longe, não foi com aviso. Partiu simplesmente. Deitou-se numa quarta-feira à noite, reclamou que o chá estava fraco, puxou a manta até ao peito e adormeceu. De manhã, Margarida encontrou-o imóvel, com uma mão caída para fora da cama, como se tivesse tentado chamá-la e não tivesse tido tempo.
A filha, Inês, veio de Lisboa para o funeral. Chorou, tratou dos papéis, encheu o frigorífico com iogurtes, deixou medicamentos em cima da mesa da cozinha e repetiu muitas vezes:
— Mãe, liga-me por tudo e por nada, ouviste?
Margarida acenou que sim.
Mas nunca ligava.
E Inês ligava de quinze em quinze dias, quase sempre à hora de almoço, no intervalo entre uma reunião e outra.
— Então, mãe, está tudo bem?
— Está.
— Tens tomado os comprimidos?
— Tenho.
— Olha que eu ando cheia de trabalho. Mas qualquer coisa, liga.
— Está bem.
— Beijinho, mãe.
— Beijinho.
Depois vinha o bip da chamada terminada. E o apartamento ficava ainda maior, ainda mais vazio, ainda mais dela e de ninguém.
Margarida ia ao supermercado, à farmácia, ao centro de saúde. O médico media-lhe a tensão e dizia:
— Tem de se distrair, dona Margarida. Não pode passar os dias fechada.
Ela quase sorria.
Distrair-se com quê? Com as chávenas que o António já não usava? Com o casaco dele ainda pendurado atrás da porta? Com a poltrona castanha da sala, gasta nos braços, onde ele se sentava todas as noites a ver as notícias e a resmungar com os ministros?
Margarida não tinha coragem de se sentar naquela poltrona. Também não tinha coragem de a deitar fora.
Ficou ali, como um monumento pequeno e cruel. Uma ausência com almofada.
Numa tarde de novembro, voltava do centro de saúde com uma receita dobrada no bolso. Chovia miudinho, daquele que não molha de repente, mas nos deixa encharcados sem darmos conta. Perto dos contentores do lixo, ouviu um ruído.
Parou.
Debaixo de uma caixa de cartão meio desfeita estava uma gata magra, tricolor, com uma orelha rasgada e os olhos muito abertos. Não miava. Não tremia. Apenas olhava para Margarida, como se a estivesse a medir.
— Não tenho nada para ti — disse a velha, sem saber porquê.
A gata piscou os olhos.
Margarida continuou a andar.
Quando chegou à entrada do prédio, olhou para trás. A gata vinha atrás dela, a três passos de distância, com uma calma irritante.
— Vai-te embora.
A gata sentou-se no passeio.
Margarida subiu ao terceiro andar, fechou a porta e pôs a chaleira ao lume. Depois aproximou-se da janela, só para confirmar que tinha imaginado aquilo.
Não tinha.
A gata estava sentada no banco junto à porta do prédio. Debaixo da chuva. À espera.
— Ora esta — murmurou Margarida. — Já só me faltava uma maluca de quatro patas.
Na manhã seguinte, quando abriu a porta para ir buscar o pão, quase tropeçou nela. A gata estava enroscada no tapete do patamar, como se sempre tivesse dormido ali.
— Como é que subiste até aqui?
A gata abriu um olho, fechou-o e continuou quieta.
Margarida ficou alguns segundos a olhar para ela. Depois suspirou.
— Eu não fico com animais. Ouviste? Nem pensar.
Entrou em casa, fechou a porta, deu três passos até à cozinha e voltou atrás. Trouxe um pires com leite.
— É só hoje.
A gata bebeu.
À noite, Margarida deixou a porta entreaberta enquanto sacudia o tapete. A gata entrou sem pedir licença. Passou pelo corredor, cheirou a cómoda, entrou na cozinha, examinou a sala e, de repente, saltou para cima da poltrona do António.
Margarida ficou gelada.
— Aí não.
A gata deu duas voltas sobre a almofada gasta, acomodou-se no fundo marcado pelo peso de anos e começou a ronronar.
Foi um som baixo, quente, quase tímido.
Margarida abriu a boca para a enxotar, mas a voz não saiu. Sentou-se no sofá, com as mãos apertadas no colo, e ficou a olhar para aquela criatura magra deitada no lugar do seu marido.
Não era o António.
Claro que não era.
Mas, pela primeira vez em seis meses, a poltrona não parecia uma ferida aberta. Parecia apenas uma poltrona velha, com uma gata a dormir.
— Dormes aí esta noite — disse Margarida, rouca. — Amanhã rua.
No dia seguinte, não a pôs na rua.
Nem no outro.
Chamou-lhe Tita, porque lhe pareceu nome de gata teimosa.
— Tita, vem comer.
A gata vinha.
— Tita, sai daí que estás a deitar pelo.
A gata não saía.
— Tita, tu és uma peste.
A gata fechava os olhos como se aceitasse o elogio.
Uma semana depois, Margarida comprou ração. A mais barata, num pacote amarelo, em promoção. A rapariga da loja de animais perguntou:
— É gatinha bebé ou adulta?
— É atrevida — respondeu Margarida.
A rapariga riu-se.
Margarida não se lembrava da última vez que alguém tinha rido por causa de uma frase sua.
Depois comprou uma tigela. Depois uma caixa de areia. Depois uma escova, porque a gata deixava pelos no sofá. Depois deu por si a falar com ela enquanto descascava batatas.
— O teu António gostava de sardinhas, sabias? Até dizia que peixe sem espinha não era comida de homem.
Tita sentava-se no chão da cozinha e ouvia, com aquela expressão séria de quem entende tudo e não julga nada.
A vida de Margarida começou a mexer-se devagarinho.
Antes acordava às nove e ficava na cama a olhar para o teto. Agora, às sete e meia, Tita sentava-se junto da almofada e olhava para ela em silêncio.
Não miava. Não lhe tocava.
Apenas esperava.
E aquele olhar obrigava Margarida a levantar-se.
Fazia chá. Abria a janela. Reclamava do frio. Punha comida na tigela. E, às vezes, sem perceber, passava meia hora a observar a rua, as crianças com mochilas, a vizinha do rés do chão a discutir com o carteiro, o padeiro a buzinar.
Um sábado, Inês ligou por videochamada.
— Mãe, que barulho é esse?
— Nada.
— Parece um gato.
Margarida hesitou.
Tita apareceu no ecrã, atravessando a mesa com a cauda levantada.
— Mãe! Tu tens um gato?
— Não tenho. Ela é que tem a mim.
— Isso é uma má ideia. Animais dão trabalho, despesas, doenças…
— Também dão companhia.
Fez-se silêncio.
Do outro lado, Inês desviou os olhos.
— Eu sei, mãe. Mas tu já tens idade. E se caíres? E se ela te arranhar? E se…
— E se eu continuar aqui a falar sozinha com as paredes, isso preocupa-te menos?
Inês ficou calada.
Margarida arrependeu-se no mesmo instante, mas não pediu desculpa. Havia verdades que, depois de saírem, precisavam de respirar.
— Mãe, eu faço o que posso — disse a filha, com a voz dura.
— Eu sei.
— Não é fácil para mim também.
— Eu sei.
— Então não fales como se eu te tivesse abandonado.
Margarida baixou os olhos para a chávena.
— Não falei. Mas às vezes é assim que parece.
A chamada terminou pouco depois, fria, com um beijo apressado.
Nessa noite, Margarida chorou. Chorou de vergonha, de saudade, de raiva, de cansaço. Tita subiu para o sofá, encostou-se à sua perna e ficou ali, imóvel, enquanto a velha molhava o avental com lágrimas antigas.
— Eu não queria ser um peso para ninguém — sussurrou Margarida. — Só queria que alguém reparasse se eu desaparecesse.
A gata ronronou.
Na semana seguinte, Margarida começou a descer ao quintal do prédio com um saquinho de ração para alimentar dois gatos vadios. Depois apareceu a dona Lurdes, do segundo esquerdo.
— Também gosta de gatos?
— Não gosto. Habituaram-me.
A dona Lurdes riu-se tanto que teve de se apoiar no corrimão.
A partir daí, passaram a falar quase todos os dias. Primeiro sobre gatos. Depois sobre a humidade das paredes, o preço das batatas, os filhos que viviam longe, os maridos que já não estavam.
Certa manhã, dona Lurdes bateu-lhe à porta com uma fatia de bolo de laranja.
— Fiz demais. Leve.
Margarida aceitou. Em troca, no dia seguinte, levou-lhe sopa.
O prédio, que antes era só escadas e portas fechadas, começou a ter vozes.
Mas a grande mudança aconteceu numa quinta-feira de janeiro.
Margarida acordou estranha. Tinha a cabeça pesada, a mão direita dormente, uma pressão no peito que lhe tirava a respiração. Tentou levantar-se, mas o mundo inclinou-se. Agarrou-se à mesa da cozinha e acabou por cair no chão, derrubando uma cadeira.
— Tita…
A voz saiu fraca.
O telemóvel estava em cima do balcão, longe demais.
Tita aproximou-se, cheirou-lhe o rosto e soltou um miado agudo. Margarida tentou mexer-se, mas o corpo não obedecia. A gata correu para a porta, arranhou-a, voltou, miou de novo, saltou para cima do móvel, derrubou um vaso.
Depois, de algum modo, conseguiu passar pela janela pequena da marquise, que Margarida deixara entreaberta, e apareceu no patamar. Começou a miar como nunca tinha miado.
Dona Lurdes abriu a porta.
— Ó bicho, o que é que foi?
Tita correu até à porta de Margarida e arranhou a madeira com desespero.
Dona Lurdes percebeu.
Chamou os bombeiros.
Quando Margarida abriu os olhos no hospital, viu primeiro o teto branco. Depois viu Inês sentada ao lado da cama, com o rosto inchado de chorar.
— Mãe…
Margarida tentou falar.
— A Tita?
Inês riu e chorou ao mesmo tempo.
— A sério? Quase me matas de susto e perguntas pela gata?
— Onde está?
— Está com a dona Lurdes. Comeu frango cozido, dormiu numa almofada e mordeu o enfermeiro quando ele tentou pô-la na transportadora. Portanto, está ótima.
Margarida fechou os olhos, aliviada.
Inês pegou-lhe na mão.
— Desculpa.
— Não comeces.
— Tenho de começar. Eu achei que te ligava e isso bastava. Achei que perguntar “está tudo bem?” era cuidar de ti. Mas eu nem ouvia a resposta, mãe. Eu só queria que dissesses “sim” para eu poder continuar a minha vida sem culpa.
Margarida virou devagar a cabeça.
— Tu tens a tua vida, filha.
— Tenho. Mas tu és parte dela. Eu é que me esqueci de te dar lugar.
As duas ficaram em silêncio. Não era um silêncio vazio. Era um silêncio cheio de coisas difíceis a encontrar caminho.
Depois Inês disse:
— Quando voltares para casa, vou ficar contigo uns dias.
— Tens trabalho.
— Tenho férias por tirar.
— E o teu marido?
— Sobrevive sem mim.
Margarida quase sorriu.
— E a Tita?
— A Tita fica. Já percebi que ela manda mais do que nós duas.
Margarida voltou para casa quatro dias depois. Encontrou a poltrona do António limpa, uma manta nova no sofá, sopa no frigorífico e Tita sentada no corredor, muito direita, como se estivesse ofendida pela demora.
— Então? Nem vens cumprimentar-me?
A gata aproximou-se devagar, encostou a cabeça à perna dela e ronronou.
Inês viu a cena da porta da cozinha e limpou uma lágrima antes que a mãe reparasse.
Nos dias seguintes, a filha aprendeu coisas que nunca tinha perguntado. Que Margarida tomava o chá sem açúcar desde que o António morrera, porque era ele quem adoçava sempre a chávena dela. Que a mãe guardava todas as receitas médicas numa lata de bolachas. Que tinha medo de morrer sozinha, mas mais medo ainda de incomodar.
Também descobriu que a mãe sabia rir. Baixinho, com vergonha, mas ria. Ria quando Tita roubava meias. Ria quando a dona Lurdes entrava sem bater. Ria quando Inês queimava torradas e dizia que era “cozinha moderna”.
No último dia antes de voltar para Lisboa, Inês sentou-se na poltrona do pai. Foi a primeira vez que alguém se sentou ali desde a morte de António.
Margarida ficou parada.
— Posso?
A mãe olhou para a poltrona, depois para a filha, depois para Tita, que já se preparava para reclamar o lugar.
— Podes — disse. — O teu pai não se importava.
Inês estendeu a mão. Margarida sentou-se no braço da poltrona, como fazia antigamente quando António via televisão. Tita saltou para o colo das duas, sem escolher lado.
E ali ficaram, três respirações no mesmo canto da sala.
Meses depois, Margarida já não dizia que estava “bem” só para terminar chamadas. Dizia quando estava cansada. Dizia quando precisava de compras. Dizia quando tinha saudades. Inês ligava mais vezes, mas, sobretudo, ouvia melhor. Aos domingos, vinha a Coimbra sempre que podia, trazendo peixe, bolos e histórias da cidade.
E Tita continuou a dormir na poltrona do António.
No início, Margarida achava que aquilo era uma afronta. Depois entendeu que talvez certas ausências não precisem de ser expulsas da casa. Talvez precisem apenas de ganhar outro som, outro calor, outra presença pequena que se enrosca no lugar da dor e a torna suportável.
Numa tarde de primavera, com a janela aberta e o cheiro das flores a entrar pela sala, Margarida passou a mão pelo pelo macio da gata e sussurrou:
— Tu não vieste por acaso, pois não?
Tita abriu um olho, olhou para ela com a mesma calma do primeiro dia e voltou a dormir.
Margarida sorriu.
Durante muito tempo, pensara que a vida tinha acabado naquela manhã em que encontrou António frio na cama. Pensara que o resto seria apenas espera, remédios, chuva e silêncio.
Mas a vida, às vezes, volta sem pedir licença.
Vem magra, molhada, com uma orelha rasgada, senta-se à nossa porta e espera que tenhamos coragem de a deixar entrar.







