Mãe, nós vamos para o Algarve e tu ficas com o Simão. O carro vai cheio e, com este calor, ainda acabavas por te sentir mal.
Sofia disse aquilo enquanto passava pelo corredor com um saco de toalhas ao ombro. Teresa ficou junto à janela da casa, em Setúbal, a ver o genro fechar a bagageira à força. Havia malas até aos vidros, uma geleira enorme, brinquedos de praia, duas pranchas insufláveis e uma bicicleta dobrável.
Lugar para tudo.
Menos para ela.
A neta Leonor acenou do banco de trás. Teresa sorriu e fez um coração com as mãos. Quando o carro arrancou, o sorriso desfez-se devagar.
Simão, um golden retriever de focinho já esbranquiçado, ficou sentado diante da porta.
—Parece que fomos promovidos a caseiros —disse Teresa.— Sem salário, claro.
Na bancada da cozinha encontrou uma folha presa com um íman.
„Ração às oito e às sete. Passeio curto ao meio-dia por causa do calor. Regar as aromáticas. Receber o técnico da internet. Levantar a encomenda da Leonor. Lavar as capas do sofá. Fazer sopa e empadão para termos comida quando regressarmos“.
Teresa passou o dedo pela última linha.
Tinha sessenta e três anos. Sofia dizia que ela já não devia viajar muitas horas, conduzir para longe nem andar sozinha em sítios desconhecidos. Mas considerava perfeitamente natural deixá-la responsável por um cão de trinta quilos, por uma casa de dois pisos e por uma lista de tarefas que ocuparia qualquer empregada doméstica.
Na véspera, Teresa preparara rissóis para a viagem, separara os medicamentos da neta e até cosera a alça de um vestido de Sofia. Ninguém lhe perguntou se gostaria de ir. Informaram-na de que ficaria.
O telefone tocou quando ela ainda estava a lavar as chávenas.
—Mãe, deixei os meus óculos de sol no quarto. Aqueles castanhos, caros.
—Estão na cómoda.
—Podes mandar por correio expresso para o alojamento?
—Sofia, compra outros.
—Outros? Custaram cento e vinte euros!
—Então devias tê-los guardado.
Houve um silêncio ofendido.
—Não precisas de falar assim. Fizemos isto também por ti. Sabemos que o calor te faz mal.
Teresa olhou para o céu azul do lado de fora.
—Engraçado. O calor faz-me mal, mas cozinhar para vocês em agosto não faz.
—Mãe, não comeces.
A chamada terminou.
Durante dois dias, Teresa fez exatamente o que estava escrito. No terceiro, o técnico da internet não apareceu. Ela ficou presa em casa entre as nove da manhã e as seis da tarde à espera de um homem que nem sequer telefonou.
Às seis e meia, Sofia mandou uma mensagem: „Amanhã tenta outra vez, por favor“.
Teresa pousou o telemóvel e começou a rir. Riu até lhe virem lágrimas aos olhos.
Simão aproximou-se, preocupado.
—Não é nada, meu velho. Foi só a minha paciência que acabou de morrer.
Na manhã seguinte, levou-o até à Praia da Saúde. Caminhou junto ao rio, sentindo a brisa do Sado no rosto. Perto de uma esplanada ouviu alguém chamar pelo seu nome.
Era Augusto, um antigo vizinho que se mudara para Sesimbra depois de se reformar. Estava com um pequeno grupo de caminhantes, todos com mochilas leves e chapéus de palha.
—Vamos passar quatro dias à Nazaré —contou ele.— A pousada aceita cães. Falhou-nos uma pessoa. Queres vir?
Teresa quase respondeu que não. O „não“ já lhe subia automaticamente à boca sempre que surgia algo que não beneficiava a família.
—Não sei…
—O que tens para fazer?
Ela pensou na folha, nas capas do sofá, no técnico da internet e no empadão que deveria esperar pelos viajantes cansados.
—Tenho de parar de confundir obrigações dos outros com responsabilidades minhas.
Augusto sorriu.
—Isso parece um sim.
Naquela noite, Teresa foi buscar uma mala verde que não usava desde a última viagem com o marido, António. Ele morrera há sete anos. Entre duas bolsas, encontrou uma fotografia dos dois na Nazaré, ainda jovens. António estava de calções ridículos e segurava uma toalha sobre a cabeça dela. No verso escrevera: „Voltamos quando formos velhinhos“.
Teresa encostou a fotografia ao peito.
—Tu não chegaste a velho —sussurrou.— Mas eu cheguei. E ainda estou aqui.
Telefonou à filha.
—Amanhã vou viajar uns dias.
—Viajar? Para onde?
—Nazaré.
—Sozinha?
—Com amigos. O Simão vai comigo.
Sofia respondeu num tom incrédulo:
—Mãe, isso não faz sentido. Nós deixámos-te responsável pela casa.
—A casa fica fechada.
—E o técnico?
—Pode vir quando vocês regressarem.
—E as capas? E a comida?
—Vocês podem lavar e cozinhar.
—Estás zangada por não teres vindo connosco?
Teresa demorou a responder.
—Não estou zangada por não caber no carro. Estou magoada por vocês terem organizado tudo para que eu fosse útil, sem se perguntarem se eu também queria ser feliz.
—Tu sabes que nos preocupamos contigo.
—Preocupação sem respeito também pode ser uma prisão, Sofia.
—E se te acontece alguma coisa?
—Aconteceram-me muitas coisas nesta vida. Enterrei os meus pais, perdi o teu pai, criei-te praticamente sozinha durante anos e sobrevivi a tudo. Não fiquei incapaz só porque comecei a receber a pensão.
Sofia respirou fundo.
—Não reconheço esta conversa.
—Talvez porque nunca me tenhas ouvido falar como uma pessoa que tem escolha.
Teresa desligou.
Na Nazaré, acordou com o som das ondas. Simão correu pela areia molhada como um cachorro. Teresa sentou-se diante do mar, comeu uma bola de Berlim e deixou o açúcar cair sobre a blusa sem se preocupar.
Subiu ao Sítio no funicular. Comprou brincos azuis. Numa noite, dançou numa associação local ao som de músicas antigas. Augusto convidou-a, e ela respondeu:
—Não danço há anos.
—Os pés lembram-se.
Lembravam-se.
Sofia enviou várias mensagens. As primeiras eram secas. Depois perguntou se Teresa tinha levado os comprimidos. Por fim escreveu: „A Leonor quer ver o Simão no mar“.
Teresa enviou um vídeo. A neta respondeu com dezenas de corações.
A família regressou numa sexta-feira. Encontrou a casa arrumada, mas não preparada para os receber. Não havia sopa. Não havia empadão. As capas continuavam no cesto.
Sobre a mesa estava a folha de tarefas. Teresa riscara apenas a primeira linha e escrevera em baixo:
„Alimentar o Simão. Alimentar também a vida da Teresa“.
Quando regressou, Sofia estava à espera na sala.
—Podias ter-nos avisado com mais antecedência.
—Avisei antes de partir.
—Mas deixaste tudo por fazer.
—Deixei as vossas coisas por fazer.
—Somos uma família. Ajudamo-nos.
—Ajudar é algo que se pede e que pode ser recusado. O que vocês fizeram foi decidir que o meu tempo vos pertencia.
Sofia ficou em silêncio.
—Eu não queria magoar-te.
—Eu sei. Mas habituaste-te a pensar em mim apenas quando precisavas de alguma coisa. Para tomar conta da Leonor, receber uma entrega, fazer comida, ficar com o cão. Quando surgiu uma viagem, lembraste-te da minha idade. Quando surgiu trabalho, esqueceste-a.
Leonor apareceu no corredor e correu para a avó.
—Avó, foste mesmo ao mar com o Simão!
—Fui.
—Sem nós?
Teresa ajoelhou-se.
—Não fui sem vocês para vos castigar. Fui comigo, porque já tinha passado demasiado tempo sem me fazer companhia.
Sofia virou o rosto, mas Teresa viu-lhe as lágrimas.
Mais tarde, sentaram-se as duas na cozinha. Sofia confessou que, depois da morte do pai, ficara obcecada com a possibilidade de perder também a mãe. Cada vez que Teresa queria viajar ou experimentar algo novo, Sofia imaginava acidentes, hospitais, telefonemas de madrugada.
—Achei que estava a cuidar de ti.
—Cuidar de mim não é impedir-me de viver. É confiar que eu saberei pedir ajuda quando precisar.
—Tens razão.
—Ter razão não apaga tudo. Mas pode ser um começo.
A partir daí, Teresa estabeleceu regras simples. Não receberia listas de tarefas. Não cancelaria planos para resolver esquecimentos alheios. Ficaria com a neta e com Simão quando tivesse disponibilidade, não por obrigação.
Sofia aprendeu a perguntar:
—Mãe, podes?
E Teresa aprendeu que tanto „sim“ como „não“ podiam ser respostas de amor.
No Natal, Leonor ofereceu-lhe um mapa de Portugal com pequenos alfinetes.
—O azul é para os lugares onde já foste. O vermelho é para onde ainda queres ir.
Teresa colocou um alfinete azul na Nazaré. Depois pegou em vários vermelhos: Évora, Gerês, Aveiro, Madeira.
—Avó, isso é muita coisa.
—Passei anos a achar que tinha pouco tempo. Agora prefiro achar que tenho muitos caminhos.
Na primavera seguinte, Sofia convidou-a para uma nova viagem ao Algarve.
—Reservámos um quarto para ti. Mas vem apenas se te apetecer.
Teresa olhou para Simão, que dormia aos seus pés.
—Vou três dias. Depois seguimos para Vila Nova de Milfontes com o Augusto e o grupo.
Sofia sorriu.
—Parece um bom plano.
Teresa guardou a velha fotografia de António na mala verde. Antes de fechar o fecho, acrescentou uma fotografia recente: ela na Nazaré, de braços abertos, com o mar atrás e Simão a correr ao longe.
Entre as duas imagens havia décadas, perdas e silêncios. Mas havia também a mesma mulher.
Uma mulher não deixa de precisar de horizontes quando envelhece. Apenas aprende, às vezes tarde demais, que não precisa de esperar que alguém lhe reserve um lugar. Pode escolher o destino, pegar na própria mala e partir — não para abandonar a família, mas para finalmente voltar a si mesma.







