Durante quatro anos, Helena passou todas as férias escolares com os netos. Quando os outros reformados marcavam excursões ou iam visitar familiares, ela verificava os horários dos comboios entre Coimbra e Lisboa.
Não se queixava. Dizia a si própria que era uma sorte ser necessária.
Numa tarde de julho, a filha telefonou-lhe muito animada.
— Mãe, o apartamento em Tavira é lindo. Tem varanda, piscina e fica perto da praia. O Tiago já anda a contar os dias.
Helena ouviu tudo em silêncio. Depois ganhou coragem.
— Marta, achas que eu podia ir convosco durante três dias? Não precisava de ficar todo o tempo. Podia dormir no quarto da Leonor. Já não vejo o mar há tantos anos…
Do outro lado houve uma pausa.
— Mãe, isso ia complicar um bocadinho. O apartamento não é assim tão grande. E, se fosses, quem ficava com o Simba?
Helena olhou para o saco de viagem aberto em cima da cama. Lá dentro estavam as roupas que usaria nas três semanas seguintes, quando os netos fossem ficar com ela.
— Pois — respondeu apenas.
Desligou e ficou sentada na beira da cama.
Simba era o cão da família. Tinha onze anos, dormia quase o dia inteiro e podia perfeitamente ficar num hotel para animais. Mas isso custava dinheiro. Helena, pelo contrário, nunca custava nada.
Levantou-se, foi buscar uma caixa onde guardava fotografias e encontrou uma imagem antiga. Ela e o marido, Joaquim, na praia de São Martinho do Porto. Ele usava um chapéu ridículo, ela ria-se com os pés dentro de água.
Joaquim morrera seis anos antes.
Desde então, Helena adiara quase tudo.
Primeiro porque a filha estava grávida. Depois porque o Tiago era pequeno. Depois porque nasceu a Leonor. Depois porque Marta regressou ao trabalho. Depois porque havia sempre uma doença, uma reunião, uma ponte ou umas férias escolares.
Helena pegou numa agenda e começou a contar.
No ano anterior, os netos tinham ficado com ela cento e onze dias.
Cento e onze manhãs a preparar pequenos-almoços. Cento e onze noites a contar histórias. Consultas, treinos, trabalhos de casa, constipações, roupa para lavar e brinquedos espalhados pela sala.
Ela adorava cada abraço. Mas começou a perceber que o seu amor tinha sido transformado, lentamente, num serviço permanente.
Dois dias depois, Marta apareceu à porta sem avisar. Trazia o Tiago, a Leonor, duas malas, uma mochila com medicamentos e uma folha dobrada.
— Mãe, deixo-te aqui os horários. A Leonor tem dança na terça-feira e o Tiago precisa de terminar o livro da escola. Voltamos no dia vinte e seis.
Helena não pegou na folha.
Atrás da filha, um táxi esperava com o motor ligado.
— Não posso ficar com eles.
Marta soltou uma pequena gargalhada, como se tivesse ouvido uma brincadeira.
— Como assim?
— Amanhã vou para São Martinho do Porto com a Rosa e mais duas colegas do hospital.
— Mas tu sabias que as crianças vinham!
— Sabia que vocês tinham decidido isso. Nunca me perguntaste se eu podia.
— Mãe, não faças isto agora. O Rui já levou as malas para o aeroporto.
— Eu avisei-te ontem por mensagem.
— Pensei que estavas zangada e que depois te passava.
Helena olhou para a filha com espanto.
— Pensaste que eu não estava a falar a sério porque não estás habituada a ouvir-me dizer não.
As crianças estavam caladas. Tiago segurava a mochila junto ao peito. Leonor olhava de uma para a outra, assustada.
Helena ajoelhou-se diante deles.
— A avó gosta muito de vocês. Não tem nada a ver convosco. Mas desta vez a avó também vai de férias.
— Nós fizemos alguma coisa? — perguntou Leonor.
— Não, meu amor. Os adultos é que precisam de aprender a organizar-se.
Marta puxou a mãe para o lado.
— Estás a fazer uma cena à frente dos miúdos.
— Eu não fiz cena nenhuma. Tu é que apareceste à minha porta com duas crianças e uma folha de instruções, como se a minha vida estivesse reservada para ti.
— Sempre disseste que adoravas tê-los cá.
— E adoro. Mas gostar não significa estar disponível sempre que decides.
— Sabes quanto custa uma colónia de férias?
— Sei. E agora talvez percebas quanto valeu o meu tempo durante estes quatro anos.
Marta ficou vermelha.
— Isto é por não te levarmos ao Algarve?
— Não. É porque, quando te pedi três dias para estar convosco como tua mãe, tu olhaste para mim e viste a pessoa que devia ficar com o cão.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Foi exatamente isso que disseste.
— E agora queres castigar-nos?
Helena respirou fundo.
— Não estou a castigar ninguém. Estou apenas a deixar de me castigar a mim própria.
A frase fez Marta recuar.
Durante alguns segundos, ninguém falou. O taxista buzinou discretamente.
Por fim, Marta pegou no telemóvel e ligou ao marido. Falou depressa, afastando-se alguns passos. Quando voltou, tinha os olhos cheios de lágrimas e raiva.
— Vamos ter de cancelar o voo de hoje.
— Lamento.
— Não parece.
— Lamento que não tenhas preparado outra solução. Não lamento ter uma vida.
Marta levou as crianças consigo.
Quando a porta se fechou, Helena encostou-se à parede e chorou. Não se sentia corajosa. Sentia-se cruel, culpada e vazia.
Nessa noite quase desfez a mala. Depois encontrou, no bolso de um casaco, um bilhete antigo escrito por Joaquim:
“Quando deixarmos de adiar, vamos outra vez ver o mar.”
Helena apertou o papel contra o peito.
Na manhã seguinte, entrou no autocarro.
Em São Martinho do Porto, o céu estava limpo e a baía parecia uma concha enorme. Helena caminhou devagar até à água. O primeiro contacto frio nos pés fê-la estremecer.
Rosa aproximou-se.
— Estás bem?
— Ainda não sei.
— Arrependida?
Helena olhou para o horizonte.
— Estou triste por ter sido preciso dizer não para perceberem que eu também existo.
No terceiro dia, recebeu uma mensagem de voz do Tiago.
“Avó, a mãe disse que estás na praia. Espero que comas uma bola de Berlim por mim. Eu não estou zangado. A Leonor também não. Só queremos que voltes contente.”
Helena ouviu a mensagem três vezes.
Mais tarde, Marta telefonou.
— Consegui uma colónia para eles. E o Simba está num hotel.
— Então havia solução.
— Havia. Eu é que nunca procurei, porque tu eras mais fácil.
Helena fechou os olhos.
— Obrigada por dizeres isso.
— Não é bonito de admitir.
— Mas é honesto.
Quando Helena regressou, Marta foi a Coimbra sozinha. Sentaram-se na cozinha onde, tantas vezes, a filha deixara malas, remédios e listas de instruções.
— A Leonor perguntou-me porque é que a avó cuidava de toda a gente e ninguém cuidava da avó — disse Marta. — Fiquei sem resposta.
— Eu não precisava que cuidassem de mim. Precisava apenas que se lembrassem de que eu não sou uma função.
— Eu sei. Agora sei.
— Não quero deixar de estar com os meus netos.
— E eu não quero deixar de contar contigo.
Helena abanou a cabeça.
— Contar comigo é diferente de contar com o meu tempo sem perguntar.
Marta pegou-lhe na mão.
— Tens razão.
A partir daí, aprenderam uma nova forma de serem família. Marta começou a perguntar. Helena começou a responder com sinceridade. Algumas vezes dizia sim. Noutras dizia que já tinha planos. Ninguém fazia chantagem. Ninguém usava as saudades das crianças para a obrigar.
No início de outubro, Marta ligou-lhe.
— Mãe, reservámos um fim de semana em Cascais. Há um quarto só para ti. O Simba fica com uma senhora do nosso prédio. Queria convidar-te, mas sem assumir nada. Gostavas de vir?
Helena sorriu ao ouvir a palavra “convidar”.
— Gostava.
Na praia do Guincho, Leonor correu até ela com uma concha nas mãos.
— Avó, esta é para ti.
— Porquê?
— Porque desta vez o mar também é teu.
Marta, que ouvira, baixou a cabeça. Helena aproximou-se e abraçou-a.
O vento era forte. Tiago corria atrás de uma gaivota, Rui carregava as toalhas, e ninguém lhe tinha dado uma lista de tarefas.
Helena ficou ali, com a filha de um lado e a neta do outro, a sentir o cheiro da maresia.
Durante anos, pensara que uma boa mãe e uma boa avó eram mulheres que nunca diziam não. Só depois percebeu que o amor sem limites pode tornar-se invisível, e que quem recebe tudo sem pedir acaba por esquecer que está a receber um presente.
Naquele dia, diante do mar, Marta não viu uma ama gratuita nem a solução para as férias escolares.
Viu a mãe.
E Helena, finalmente, voltou a ver-se a si própria.







