A minha mãe passou a vida inteira a dizer que não precisava de nada. Talvez por isso, quando me pediu para ir connosco ao Algarve, percebi que o pedido era importante. Mesmo assim, aceitei contrariada.
— Sofia, eu não vos vou atrapalhar — garantiu. — Fico no hotel quando quiserem sair sozinhos. Só queria voltar a ver o mar.
A minha mãe, Teresa, tinha sessenta e nove anos e vivia sozinha em Coimbra desde que o meu pai morrera. Era daquelas mulheres que levavam comida para os outros e depois diziam que não tinham fome. Nunca se sentava no melhor lugar, nunca escolhia primeiro e pedia desculpa até por telefonar.
Miguel e eu tínhamos planeado aquela semana em Lagos durante meses. Queríamos praias, jantares demorados e tempo a dois. Quando lhe contei, ele ficou em silêncio.
— Se ela for, a viagem muda completamente.
— Eu sei. Mas não consigo dizer-lhe que não.
A minha mãe apareceu com uma mala pequena e uma antiga carteira de pele castanha. Durante o caminho perguntou várias vezes quanto custavam as portagens.
— Posso dar-vos algum dinheiro.
— Mãe, não é preciso.
— Não quero que gastem mais por minha causa.
— Já disseste isso muitas vezes.
Ela calou-se. Vi pelo espelho que ficou a olhar para a janela, com a carteira apertada contra o peito.
Ao chegarmos, ficou encantada com a varanda. Via-se uma faixa azul entre os prédios e ouvia-se o barulho das gaivotas.
— Cheira mesmo a mar — disse.
Depois começou a perguntar se as cápsulas de café eram pagas, se podia usar as toalhas grandes e se o sabonete tinha de ficar no quarto.
— Mãe, isto é um hotel. As coisas estão aqui para serem usadas.
— Eu sei. Só não quero fazer nada errado.
Aquela cautela permanente irritava-me mais do que deveria. Parecia transformar cada momento simples numa cerimónia cansativa.
Na primeira noite fomos jantar a um restaurante perto da marina. A minha mãe vestiu um vestido azul-escuro, antigo mas impecável, e colocou uns brincos que tinham pertencido à minha avó. Levou também a carteira castanha.
— Não a podes deixar no cofre? perguntei.
— Prefiro tê-la comigo.
Durante o jantar, estudou os preços antes de escolher.
— Peço uma sopa.
— Estamos num restaurante de peixe — disse eu. — Escolhe outra coisa.
— A sopa chega perfeitamente.
— Não tens de poupar o nosso dinheiro.
Ela pousou o menu.
— Não estou a tentar poupar. Só não tenho muito apetite.
Miguel tentou mudar de assunto, mas o ambiente já estava pesado. Eu queria uma noite bonita e sentia que tudo se tornava difícil por causa dela.
Quando trouxeram a sobremesa, a minha mãe respirou fundo.
— Sofia, preciso de te contar uma coisa.
— O quê?
Abriu a carteira e retirou um envelope do hospital.
— Fizeram-me exames em maio. Tenho um tumor no fígado e já se espalhou.
Fiquei a olhar para ela, à espera de que completasse a frase e dissesse que havia um engano.
— Há quanto tempo sabes?
— Sete semanas.
— E escondeste-me isto durante sete semanas?
— Não queria preocupar-te.
— Eu sou tua filha!
— Eu sei.
— Então por que razão não me ligaste?
Ela sorriu com uma tristeza que me fez baixar a voz.
— Liguei algumas vezes. Disseste que estavas numa reunião, no supermercado, a conduzir… Depois deixei de tentar.
As palavras atingiram-me como um golpe. Lembrei-me das chamadas recusadas e das mensagens a que respondi apenas com um coração ou um „falamos amanhã”.
— Foi por isso que pediste para vir?
A minha mãe tirou uma fotografia antiga da carteira. Nela, os meus pais estavam numa praia perto de Lagos. O meu pai tinha o braço em volta dela e os dois pareciam tão jovens que demorei a reconhecê-los.
— Foi aqui que passámos a primeira viagem depois do casamento. Dormimos num quarto alugado por uma senhora que criava galinhas no quintal. O teu pai prometeu trazer-me de novo quando tivéssemos dinheiro. Depois vieram a casa, o trabalho, tu, as contas… e o tempo passou.
— Por que não me disseste antes de sairmos?
— Tive medo de que me trouxesses como se estivesses a levar uma doente para realizar o último desejo. Eu queria vir como tua mãe.
Levantei-me e saí. Na marina, as luzes refletiam-se na água. Encostei-me a uma parede e chorei até me faltar o ar.
Miguel apareceu pouco depois.
— Tenho passado o dia a desejar que ela não estivesse aqui — confessei.
— Não sabias.
— Mas sabia que ela estava sozinha. E isso nunca foi suficiente para eu parar.
Quando regressámos à mesa, a minha mãe tinha pago a conta.
— O que fizeste?
— Guardei algum dinheiro da pensão. Queria oferecer-vos um jantar.
— Estás doente e preocupada em pagar-nos comida?
— Assim não sinto que estou apenas a receber.
Sentei-me ao lado dela.
— Mãe, olha para mim. Não tens de pagar para estar connosco.
Ela passou um dedo pela alça gasta da carteira.
— Às vezes sinto que tenho de compensar o trabalho que dou.
Não consegui responder. Abracei-a ali mesmo, entre pratos sujos e pessoas que fingiam não olhar.
Na manhã seguinte, fomos cedo à praia. A minha mãe caminhava devagar, mas recusou-se a usar as sandálias quando chegou à areia. Entrou na água com o vestido levantado até aos joelhos.
— Está fria! gritou, rindo.
Eu não me lembrava da última vez que a tinha ouvido rir daquela maneira.
Nos dias seguintes cancelámos metade dos planos. A minha mãe cansava-se depressa. Houve uma tarde em que ficou deitada com dores. Noutra, sentámo-nos durante horas numa esplanada enquanto ela me contava como conhecera o meu pai num baile da aldeia.
Miguel começou a tratá-la com uma ternura silenciosa. Levava-lhe chá, ajustava-lhe a cadeira e acompanhava-a em pequenos passeios quando eu precisava de ficar sozinha. Uma noite, confessou-me:
— Eu também fui egoísta. Pensei no que ela nos tiraria, não no que talvez estivesse a perder.
No penúltimo dia, a minha mãe pediu que voltássemos à praia da fotografia. Não encontrámos o mesmo lugar, mas ela reconheceu a linha das falésias.
— O teu pai estaria feliz por eu ter vindo contigo — disse.
— Ele teria vergonha de mim.
— Não digas isso. Os filhos não nascem a saber como perder os pais.
Sentei-me ao lado dela.
— Eu ainda não sei.
— Então aprende a estar comigo. Para perder-me, não é preciso treino.
Quando regressámos a Coimbra, começou os tratamentos. Os médicos deram-nos poucas certezas e muitos termos que tivemos de pesquisar. A minha mãe viveu mais dez meses. Houve internamentos, náuseas e dias em que não me reconhecia logo ao acordar. Mas também houve tardes em que fizemos arroz-doce, vimos fotografias e discutimos por ela continuar a dobrar a minha roupa mesmo sem forças.
Sempre que dizia „desculpa dar trabalho”, eu pegava-lhe na mão.
— Não és trabalho. És a minha mãe.
Morreu no início da primavera, em casa, com a janela aberta. Pediu-me que colocasse a fotografia do Algarve junto dela. Na parte de trás, descobri depois uma frase escrita com letra trémula:
„Voltei ao mar. Desta vez, a minha filha segurou-me a mão.”
Durante muito tempo pensei que aquelas férias tinham sido destruídas no instante da confissão. Hoje compreendo que o que se destruiu foi a ilusão de que tínhamos tempo ilimitado.
A viagem que deveria ter sido perfeita ensinou-me que o amor raramente chega em momentos perfeitos. Chega quando alguém anda mais devagar do que nós, repete perguntas, precisa de ajuda e nos obriga a mudar os planos.
Ainda guardo a carteira castanha da minha mãe. Dentro estão os documentos médicos, a fotografia antiga e uma pequena pedra branca que ela apanhou na praia.
Quando a saudade aperta, seguro essa pedra na mão e lembro-me da mulher que passou a vida inteira a tentar não incomodar ninguém.
E penso em quantas mães dizem „não preciso de nada” quando, na verdade, estão apenas à espera de que alguém responda:
„Mesmo assim, eu quero estar contigo.”







