Laura estacionou a caminhonete em frente ao canil e ficou olhando para o portão. O vento quente de Maringá levantava poeira do chão de terra batida. Ela não desligou o motor. Precisava de mais um minuto.
Do outro lado da rua, a casa de Lena brilhava. Gramado aparado, cerca branca, placa de veterinária na garagem. Um canil cinco estrelas com ar-condicionado, ração premium e cama ortopédica para cada hóspede.
O canil de Laura era diferente. Ficava nos fundos do sítio herdado do avô. Teto de zinco, comedouros de barro e um cercado grande onde os cães corriam soltos o dia inteiro. Nada de gaiola fechada, nada de caminha com espuma viscoelástica. Chão de terra e pronto.
Naquela manhã, Lena já estava na calçada. Segurava uma coleira rosa de couro legítimo e um lenço umedecido na outra mão.
— Você viu a previsão do tempo? — Lena perguntou, sem bom-dia. — Temporal brabo vindo aí. Já mandei o Chico cobrir a área externa do meu canil.
Laura desligou o motor e desceu.
— O meu não tem área externa nem interna. É aberto.
— Por isso mesmo. Quer trazer o Lobo para cá? Cabem todos na suíte climatizada.
Laura olhou para trás. Lobo estava deitado na carroceria, focinho apoiado nas patas, indiferente ao mundo. Um vira-lata preto com uma cicatriz na orelha esquerda. Resgatado de uma rinha em Sarandi havia cinco anos.
— Ele fica bem — Laura respondeu.
— Você é teimosa demais.
Lena deu meia-volta e entrou. O Prince, um golden retriever de pedigree, esperava sentado na porta de vidro, com a língua pendurada e a coleira já no pescoço. Lena limpou cada pata com o lenço antes de deixá-lo entrar.
—
As duas mulheres se conheciam desde a faculdade de veterinária, mas o que as uniu de verdade foi o amor por cachorro. Enquanto Lena abriu uma clínica e um hotel de luxo para pets no centro, Laura pegou o dinheiro da rescisão do hospital veterinário de Londrina e montou um abrigo para cães considerados irrecuperáveis.
Cães que mordiam. Cães que ninguém queria.
— Isso não é vida para um animal — Lena dizia, toda vez que visitava o sítio. — Olha esse latão de água. Tá morno, Laura. E verde de limo.
— Eles bebem. Nenhum passou mal até hoje.
— E a ração? Misturada com quirera?
— Proteína suficiente. E fibra.
— Você não dá petisco. Não dá roupa. Não bota coleira antipulgas importada.
— Não.
— Deus me livre — Lena disse, certa vez, passando a mão na cabeça dourada do Prince. — Se um dia eu não puder dar o melhor para esse menino, eu não quero nem viver.
—
Naquela tarde, o céu fechou antes do previsto. Nuvens pretas engoliram o azul e um vento frio varreu a poeira vermelha do noroeste do Paraná. Laura soltou os cães no cercado maior, trancou o portão de ferro e subiu para a varanda da casa.
A primeira chuva caiu às quinze para as seis.
Em meia hora, já era temporal. Água horizontal, telha voando, raio caindo atrás do eucaliptal. A energia acabou. Laura ficou no escuro, ouvindo o barulho ensurdecedor da água batendo no zinco.
Pensou em Lobo.
Pensou em chamar ele para dentro.
Mas não chamou.
—
Às nove da noite, o telefone tocou. Um toque só, antes de cair a linha. Era Lena.
Laura só foi conseguir retornar a ligação na manhã seguinte, quando a chuva deu trégua e o sinal voltou.
— Acabou — Lena disse, com a voz pastosa de quem não dormiu. — Destelhou o canil, Laura. A água entrou por tudo. Os cães ficaram presos nas gaiolas. Eu não consegui chegar a tempo com o Chico. A rua virou rio.
Laura apertou o celular contra a orelha e desceu a escada correndo.
— Quantos?
— Todos.
O silêncio durou três segundos.
— E o Prince?
Lena não respondeu. Só um soluço seco, curto, como quem engole um prego.
—
Laura foi até o cercado. Abriu o portão e contou cada cachorro. Um por um. Sujos de lama, molhados, dormindo em cima uns dos outros num canto seco que a água não alcançou.
Dezesseis. Estavam todos lá.
Lobo levantou a cabeça, abanou o rabo uma vez e voltou a fechar os olhos.
Laura se agachou e enfiou a mão na terra fofa perto do mourão da cerca. Afundou os dedos até o pulso. A terra estava úmida, mas firme. Dez centímetros abaixo, seca. As raízes das quaresmeiras que faziam sombra no cercado tinham descido fundo, buscando água onde ninguém via.
Ela olhou para Lobo.
Pensou na primeira semana depois do resgate. O cachorro não comia ração. Mordia a vasilha. Virava a água. Chorava à noite e avançava em qualquer um que se aproximasse. Laura dava comida. Só isso. Não invadia o espaço dele, não forçava carinho, não enchia de petisco para comprar confiança.
Com o tempo, Lobo aprendeu a esperar. A buscar. A cavar sua própria água.
—
Lena levou dois meses para pisar no sítio de novo.
Chegou de carro preto, óculos escuros apesar do dia nublado. Na coleira, um filhote de golden. Menos de quatro meses. O rabo batendo nas próprias costelas de tão feliz.
— Como vai chamar? — Laura perguntou, sentada no degrau da varanda.
— Ainda não sei.
Laura olhou para o filhote. Depois para Lena.
— Sabe o que o Prince não teve? — Laura perguntou.
Lena tirou os óculos. Os olhos estavam inchados, mas secos.
— Não.
— Fome.
A palavra caiu entre elas como uma pedra.
— Ele nunca passou fome — Laura continuou. — Nunca teve que disputar comida. Nunca soube o que é farejar água a duzentos metros de profundidade. E quando a água veio, ele não tinha raiz. Só copa.
Lena ficou parada, com a coleira bamba na mão. O filhote puxava para o lado, querendo cheirar o mato.
— Você está dizendo que a culpa foi minha.
— Não existe culpa. Existe preparo.
O filhote se soltou da coleira frouxa e saiu correndo na direção de Lobo. Laura fez menção de levantar, mas Lena a segurou pelo braço.
— Deixa.
O vira-lata preto abriu um olho. O filhote dourado parou a um metro, baixou as orelhas e deitou a cabeça entre as patas dianteiras. Postura de respeito.
Lobo fechou o olho.
O filhote se aproximou mais um passo. Mais um. Até encostar o focinho na pata dianteira do cão mais velho.
Lena assistiu. Os olhos marejados, as mãos tremendo.
— Ele teria sobrevivido? — ela perguntou baixinho. — O Prince. Se estivesse aqui.
Laura não respondeu.
Porque Lena sabia. Não teria.
—
Seis meses depois, o sítio ganhou um novo cercado. Maior, com um telheiro simples e um bebedouro de concreto. Lena colocou a placa na porteira: "Setor de rustificação".
— Nome horrível — Laura disse.
— Mas é exatamente isso que eu vou fazer aqui.
Ela levava os cães da cidade para passar quinze dias no sítio. Sem cama, sem ar-condicionado, sem biscoito de fígado. No começo, os bichos estranhavam. Choravam à noite, cavavam buracos, recusavam a água do bebedouro. No quarto dia, bebiam. No sétimo, dormiam no chão de terra com a mesma paz de um cachorro de rua.
O filhote de golden, agora crescido, correndo lado a lado com Lobo.
Lena nunca mais chamou ninguém de menino.
No cercado grande, o vira-lata preto se levantou, espreguiçou e foi até o portão. Ele já sabia. A chuva estava voltando, mas as raízes estavam fundas.
E Laura, fumando um cigarro na varanda, olhou para o céu cinza e sorriu sem querer.







