Dona Teresa, de Coimbra, tinha 66 anos quando entrou naquele autocarro com um envelope apertado contra o peito.
Dentro havia uma fotografia antiga do marido, António, e uma carta que ela finalmente tivera coragem de levar ao lar onde ele passara os últimos meses antes de morrer. Não era uma carta para alguém ler. Era uma despedida que ela nunca conseguiu dizer em voz alta.
Chovia muito. O autocarro vinha cheio. Teresa ficou de pé, segurando-se com dificuldade, enquanto o envelope escorregava pouco a pouco da mala aberta.
Quando chegou à paragem perto do Mondego, desceu apressada. Só percebeu a perda quando o autocarro já tinha arrancado.
O envelope não estava lá.
Teresa ficou parada no passeio, debaixo da chuva, como se tivesse perdido o marido pela segunda vez.
— Meu Deus… era a última fotografia dele — murmurou.
Sentou-se no banco da paragem e começou a chorar. Não aquele choro bonito que as pessoas escondem no lenço. Era um choro cansado, de mulher que aguentou demasiado tempo.
Quinze minutos depois, um rapaz apareceu a correr, completamente encharcado.
— Senhora Teresa? — perguntou, ofegante.
Ela levantou a cabeça, assustada.
O rapaz segurava o envelope.
— Vi o nome na carta. Desci duas paragens depois e vim a correr. Achei que isto era importante.
Teresa abriu o envelope com mãos trémulas. A fotografia estava lá. António sorria, jovem, encostado à velha motorizada azul.
— Como posso agradecer-lhe, meu filho?
O rapaz encolheu os ombros.
— A minha avó dizia que certas coisas não se devolvem amanhã. Devolvem-se logo, enquanto ainda salvam o coração de alguém.
Teresa nunca soube o nome dele. Mas todos os anos, no dia da morte do marido, comprava um café para algum desconhecido e dizia:
— É por conta de um rapaz que um dia me devolveu uma parte da minha vida.
Há pessoas que passam por nós uma vez só. Mas ficam connosco para sempre.



