Se o seu sonho pudesse tornar-se realidade ainda este ano, qual seria?

Se o seu sonho pudesse tornar-se realidade ainda este ano, qual seria?

A pergunta apareceu no ecrã do telemóvel de Teresa numa manhã de janeiro, enquanto ela esperava que a chaleira apitasse.

Estava sentada na cozinha pequena do seu apartamento em Almada, com a bata azul apertada à cintura e as mãos pousadas na mesa, como se até elas estivessem cansadas. Do lado de fora, a chuva batia nos vidros. Dentro de casa, cheirava a café requentado, sabão amarelo e silêncio.

Teresa tinha sessenta e oito anos e já se tinha habituado a responder sempre da mesma maneira quando alguém perguntava como estava.

— Vai-se andando.

O marido, António, tinha morrido três anos antes. O filho, Rui, vivia em Braga e telefonava ao domingo, quase sempre com pressa. A filha, Marta, morava a quinze minutos dali, em Lisboa, mas parecia viver noutro continente. Trabalhava muito, dizia ela. Tinha reuniões, trânsito, cansaço, a vida dela.

Teresa nunca reclamava.

Aprendera cedo que mães que pedem demais acabam por ouvir respostas que doem.

Naquela manhã, porém, a pergunta no telemóvel ficou-lhe atravessada no peito.

“Se o seu sonho pudesse tornar-se realidade ainda este ano, qual seria?”

Ela leu uma vez. Depois outra.

Sorriu sozinha, com uma vergonha estranha, como se alguém a tivesse apanhado a mexer numa gaveta proibida.

O seu sonho era simples demais para ser sonho.

Queria ver o mar do Algarve com tempo. Não de passagem. Não pela janela de um autocarro. Queria sentar-se numa esplanada em Tavira, comer arroz de polvo devagar, molhar os pés na água morna e dormir uma noite inteira ouvindo as gaivotas.

António prometera-lhe isso durante quase quarenta anos.

— Quando me reformar, vamos os dois — dizia ele. — Tu levas aquele vestido branco com flores azuis. Eu levo o chapéu ridículo que tu detestas.

Mas depois veio a diabetes, a reforma curta, os exames, as idas ao hospital, as contas da farmácia. O vestido branco ficou pendurado no armário, protegido dentro de uma capa transparente. O chapéu de palha continuou em cima do guarda-roupa, a ganhar pó.

E António foi-se embora numa madrugada fria de novembro, sem conhecer Tavira.

Teresa apagou a publicação sem comentar. Tinha vergonha.

Que mulher da sua idade ainda escreve sonhos na internet?

Nesse mesmo dia, Marta passou lá em casa para deixar uns papéis.

Entrou sem se sentar.

— Mãe, assina aqui. É para o condomínio.

Teresa assinou. Depois, sem saber porquê, disse:

— Vi hoje uma pergunta engraçada.

Marta olhou para o relógio.

— Que pergunta?

— Perguntavam qual era o nosso sonho, se pudesse realizar-se este ano.

A filha sorriu, mas foi aquele sorriso distraído de quem já está com a cabeça no elevador.

— E tu disseste o quê?

Teresa baixou os olhos para a caneca.

— Nada. Mas pensei… pensei que gostava de ir a Tavira.

Marta piscou os olhos.

— A Tavira?

— Sim.

— Sozinha?

— Não sei. Talvez. Ou contigo, um fim de semana.

O silêncio que caiu foi pequeno, mas pesado.

Marta suspirou.

— Mãe, agora não dá. Tenho imenso trabalho. E tu sabes que essas coisas custam dinheiro. Hotel, comboio, refeições… Para quê essa ideia agora?

Teresa sentiu o rosto aquecer.

— Foi só uma ideia.

— Além disso, tens as pernas como tens. Ainda cais por aí. E depois?

A frase ficou no ar, dura, prática, limpa de crueldade visível.

Marta pegou na mala.

— Não leves a mal. Só estou a ser realista.

Quando a porta se fechou, Teresa ficou imóvel.

Realista.

Era uma palavra que muitas vezes servia para enterrar sonhos sem parecer maldade.

Nessa noite, depois de jantar sopa de legumes e uma fatia de pão torrado, Teresa abriu o armário. Tirou a capa transparente. O vestido branco com flores azuis ainda estava ali. Um pouco fora de moda, talvez. Um pouco apertado na cintura, certamente. Mas bonito.

Encostou-o ao peito e sentou-se na cama.

— Viste, António? — murmurou. — Eu ainda pensei nisso.

A resposta veio apenas do vento na janela.

Nos dias seguintes, Teresa tentou esquecer a pergunta. Fez compras no Pingo Doce, foi à missa, levou roupa à costureira, regou as violetas na varanda. Mas a palavra Tavira começou a aparecer-lhe em todo o lado: numa reportagem na televisão, num pacote de bolachas com fotografia de amendoeiras, numa conversa entre duas mulheres na paragem do autocarro.

Até que uma tarde encontrou Dona Emília, a vizinha do terceiro esquerdo, sentada no banco da entrada.

— Ó Teresa, que cara é essa? Parece que lhe roubaram o Natal.

Teresa riu-se sem vontade.

— Nada, coisas minhas.

— Coisas suas também são coisas de gente. Conte lá.

E Teresa contou. Contou da pergunta. Do sonho. Da promessa de António. Da resposta de Marta.

Dona Emília ouviu tudo calada. No fim, bateu com a bengala no chão.

— Então vá.

— Vá onde?

— A Tavira, mulher.

— Sozinha?

— Sozinha não. Vai comigo.

Teresa arregalou os olhos.

— Consigo?

— Tenho setenta e quatro anos, não estou morta. E também nunca fui a Tavira como deve ser. Só passei lá uma vez, em excursão, e nem deu para comer um gelado.

Teresa começou a rir. Primeiro baixinho. Depois com as mãos na barriga.

— A Emília é doida.

— Sou viva. É diferente.

Na semana seguinte, as duas começaram a preparar a viagem como se estivessem a organizar uma fuga internacional. Dona Emília sabia procurar bilhetes no telemóvel melhor do que muitos jovens. Teresa tirou dinheiro aos poucos da lata antiga onde guardava notas para emergências. Não era muito. Mas chegava para duas noites numa pensão simples, perto do rio.

Quando Rui soube, telefonou preocupado.

— Mãe, mas que disparate é esse? Ao Algarve agora?

— Em março.

— E quem vai contigo?

— A Dona Emília.

— A vizinha da bengala?

— Essa mesma.

— Mãe, tem juízo. E se acontece alguma coisa?

Teresa respirou fundo. Pela primeira vez em muitos anos, não pediu desculpa antes de falar.

— Filho, coisas acontecem também quando fico sentada no sofá. O teu pai morreu ao meu lado, dentro de casa, e mesmo assim eu não consegui segurá-lo.

Do outro lado, Rui ficou calado.

— Eu só me preocupo — disse ele, mais baixo.

— Eu sei. Mas preocupação não pode ser uma corrente.

Rui não respondeu logo.

— Precisas de dinheiro?

Teresa sentiu os olhos arderem.

— Preciso que não me trates como se eu já tivesse acabado.

A frase saiu tão simples que ela própria se assustou.

Dois dias depois, Marta apareceu sem avisar. Trazia o cabelo apanhado, os olhos cansados e um saco de supermercado.

— O Rui contou-me.

Teresa estava a passar o vestido branco a ferro.

— Contou o quê?

— A viagem.

— Ah.

Marta olhou para o vestido.

— Vais mesmo?

— Vou.

— Mãe…

— Marta, não comeces.

A filha largou o saco em cima da mesa.

— Eu não vim discutir.

— Então vieste fazer o quê?

Marta ficou quieta por um momento. Depois sentou-se. E, pela primeira vez em muito tempo, não olhou para o telemóvel.

— Vim pedir desculpa.

Teresa não disse nada.

— Quando disseste Tavira, eu achei uma coisa pequena. Uma mania. Mais uma preocupação para mim. — Marta engoliu em seco. — Depois o Rui contou-me da promessa do pai. Eu não sabia.

Teresa passou a mão pelo tecido do vestido.

— Nunca perguntei, pois não? — continuou Marta, com a voz a falhar. — Nunca perguntei o que ainda querias da vida. Só pergunto se tomaste os comprimidos, se pagaste a água, se precisas de compras.

— Isso também é amor — disse Teresa.

— Mas é um amor muito pobre, mãe.

A frase desarmou-a.

Marta levantou-se e foi até à janela. Lá em baixo, os carros passavam com os faróis acesos na chuva.

— Quando o pai morreu, eu tive tanto medo de te perder também que comecei a tratar-te como uma coisa frágil. Uma responsabilidade. Não como uma pessoa.

Teresa aproximou-se devagar.

— Eu também tive medo de incomodar. Por isso fui ficando pequenina.

Marta virou-se, já a chorar.

— Posso ir convosco?

Teresa abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Durante segundos, só se ouviram a chuva e o ferro a arrefecer.

— Tens trabalho — disse ela, quase em defesa própria.

— Tenho. Mas também tenho mãe.

A viagem aconteceu numa sexta-feira luminosa de março.

Na estação do Oriente, Dona Emília apareceu com uma mala vermelha, uma boina lilás e a bengala enfeitada com uma fita.

— Se formos cair, caímos com estilo — anunciou.

Marta riu-se. Teresa também.

No comboio, Teresa sentou-se à janela. Viu a cidade afastar-se, depois os campos, as casas brancas, as laranjeiras. Sentia-se nervosa como uma rapariga. Levava o vestido branco na mala, cuidadosamente dobrado, e o chapéu de palha de António dentro de um saco.

Quando chegaram a Tavira, o ar cheirava a sal e a flor de laranjeira.

A pensão era simples, com colchas antigas e uma senhora simpática na receção. Do quarto via-se um pedaço do rio. Nada luxuoso. Nada perfeito. Mas, para Teresa, parecia o começo de um milagre.

No sábado de manhã, Marta ajudou-a a vestir o vestido branco com flores azuis. Estava um pouco justo. Teresa olhou-se ao espelho e encolheu a barriga.

— Estou ridícula.

— Estás linda — disse Marta.

Dona Emília apareceu à porta.

— Está uma estrela. Agora venha, que o mar não espera por princesas atrasadas.

Foram até à ilha de barco. Teresa segurou o chapéu de António no colo durante todo o trajeto. Quando pôs os pés na areia, ficou parada.

O mar estava ali.

Grande, azul, vivo.

Durante anos, tinha sido uma promessa adiada, uma fotografia imaginada, uma conversa interrompida. Agora respirava diante dela.

Marta tocou-lhe no braço.

— Mãe?

Teresa não respondeu. Caminhou devagar até à beira da água. Tirou os sapatos. A primeira onda molhou-lhe os pés e ela fechou os olhos.

Depois começou a chorar.

Não foi um choro bonito nem discreto. Foi um choro antigo, vindo de lugares onde ela guardara todas as despedidas, todas as frases engolidas, todos os domingos à espera de telefonemas mais longos.

Marta abraçou-a por trás.

— Desculpa, mãe.

Teresa segurou a mão da filha.

— Não peças desculpa agora. Olha só.

E as duas olharam.

Dona Emília, alguns passos atrás, tirou uma fotografia sem dizer nada.

Mais tarde, sentaram-se numa esplanada. Comeram arroz de polvo, pão quente e laranjas doces. Teresa pôs o chapéu de António na cadeira vazia ao seu lado.

— À tua saúde, velho teimoso — murmurou.

Marta ouviu e sorriu entre lágrimas.

Nessa noite, no quarto da pensão, Teresa abriu o telemóvel. Encontrou de novo a pergunta, partilhada por outra página:

“Se o seu sonho pudesse tornar-se realidade ainda este ano, qual seria?”

Desta vez, não passou à frente.

Escreveu devagar, com os óculos na ponta do nariz:

“O meu era ver o mar que o meu marido me prometeu. Pensei que fosse tarde demais. Não era. Fui com a minha filha e uma amiga que me lembrou que estar velha não é o mesmo que estar acabada. Se ainda tem um sonho, não o enterre só porque alguém lhe disse para ser realista.”

Publicou antes de se arrepender.

Na manhã seguinte, havia centenas de comentários. Mulheres da sua idade, e outras mais novas, escreviam coisas que Teresa lia com a mão no peito.

“Também quero ir a Fátima com a minha mãe.”
“Sonho voltar a dançar.”
“Tenho 71 anos e ainda quero aprender a nadar.”
“Vou ligar hoje à minha avó.”

Marta leu alguns em silêncio. Depois pousou a cabeça no ombro da mãe.

— Sabes uma coisa? Acho que o pai conseguiu levar-te a Tavira.

Teresa olhou para a cadeira onde o chapéu descansava.

— Talvez. Mas vocês também vieram.

No regresso, Teresa não voltou igual.

Não porque a viagem tivesse resolvido tudo. As contas continuavam a existir. As dores nos joelhos também. A casa em Almada continuava pequena, e o silêncio ainda entrava à noite sem pedir licença.

Mas agora havia outra coisa dentro dela.

Uma janela aberta.

Na primeira segunda-feira depois da viagem, Marta apareceu para almoçar sem pressa. Rui passou a telefonar às quartas, não só ao domingo. Dona Emília colou a fotografia das três na entrada do prédio, ao lado do aviso do condomínio, e escreveu por baixo:

“Próximo sonho: quem vem?”

Durante muito tempo, Teresa achou que os sonhos tinham idade, prazo e autorização dos outros.

Agora sabia que não.

Às vezes, um sonho não precisa de ser grande para salvar uma vida. Basta ser suficientemente verdadeiro para nos lembrar que ainda estamos aqui.

E naquela tarde, enquanto dobrava o vestido branco com flores azuis, Teresa sorriu para a cadeira vazia e disse:

— Viste, António? Este ano ainda não acabou.

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MagistrUm
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